Saturday, January 30, 2021

«Castelao, risa e pandemias» por Siro Lopez in “Voz de Galicia”

Hoxe, 30 de xaneiro, cúmprense 135 anos do nacemento de Castelao e a Consellería de Cultura celebra, en memoria súa, o Día da Ilustración. Está moi ben, pero non quero evocar o Castelao artista de tantos talentos, senón o Castelao médico que non exerceu por falta de vocación. É ben coñecida a súa graciosa xustificación: «Fíxenme médico por amor a meu pai; non exerzo a profesión por amor á humanidade»; pero repárase menos no diálogo entre un home esbacoado nunha cadeira e o Castelao mozo, dunha viñeta de Cousas da vida:

-Faite médico, home, que enfermos non faltan nunca.

-E a conciencia?

Si, Castelao era home de conciencia ética; por iso deixou a medicina e, tamén por iso, cando a terrible gripe de 1918 chegou a Rianxo e enfermaron os médicos do concello, volveu a ela para axudar aos seus paisanos. Como? Que podía facer o médico Castelao ante aquela peste que infectou a oito millóns de persoas en España e causou 270.000 mortes? O mesmo ca os outros: aconsellar, receitar analxésicos e antipiréticos, e, ademais, o que di Lois Peña Novo: tratar os enfermos con cariño de irmán, entrar e saír das casas con cara risoña e axudalos, co humor, a recobrar o optimismo.

No comezo da pandemia, tamén o enxeño popular combateu coa risa o desacougo e ante nomes tan inxustos como «gripe española» e «dama española» -porque a orixe estaba en EE.UU. e a España chegara de Europa - chamóuselle «Soldado de Nápoles», por ser tan pegadiza como a canción, así titulada, da zarzuela La canción del olvido, estreada ese mesmo ano. Desde entón, Agustín Aguirre, humorista gráfico do xornal madrileño El fígaro, representouna coma un esqueleto vestido de soldado e os seus chistes ían de boca en boca. Outros debuxantes tan prestixiosos como Bagaría e Tovar trataron tamén o tema do misterioso virus.

O segundo brote foi moito máis letal e, aínda que a ciencia recurriu a técnicas novedosas como as transfusións de sangue de pacientes recuperados a outros enfermos, e ao soro creado no Instituto Pasteur, nada resultou efectivo e sen a perspectiva dunha vacina a xente deixou de rir. O debuxante alemán Wilhelm Schulz expresou a anguria do momento na viñeta en que a gripe pasa ante o anxo da paz, que viñera poñer fin á Gran Guerra. Europa non volvería rir ata os felices anos vinte. 

As novas cepas do covid estannos levando á desesperación e necesitamos a risa, «a máis efectiva defensa contra o sufrimento», en opinión de Freud; «a medicina universal», segundo Bertrand Russell. Si, a risa íllanos do que doe e a gargallada danos azos para enfrontármonos ao medo. Quizais deberiamos saír ás ventás, aos balcóns e ás terrazas das casas, como cando aplaudiamos aos sanitarios, pero agora para contármonos chistes divertidos e rir a fartar. Non importa que algúns non os oian, porque oirán o eco das risas e iso abonda para seguirmos adiante un día máis.

A min divírtenme especialmente as reflexións agudas sobre as necidades da realidade cotiá. A última mandouma por WhatsApp un amigo de Ferrol: «Daste conta de que ninguén fala de contaxiados e contaxiadas? Cando a vida vai en serio, non estamos para conachadas». 

Pois si.


Caricaturas Crónicas: «Francisco Valença no “Sempre Fixe”» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 13/11/1988

Francisco Valença, a par de Pedro Bordalo Pinheiro, foi a alma do «Sempre Fixe», entregando-se a ele ate 1959, ano da sua morte. Valença foi a imagem do humor português a adaptar-se às condições do tempo, na harmonização do espirito revoltado dos humoristas com as novas leis castradoras e sufocantes.

 

O «Sempre Fixe» é um marco fundamental do humor em Portugal, não só por ser uma presença especial durante várias décadas da ditadura do Estado Novo, mas essencialmente por ser o pólo de emprego e impressão dos trabalhos dos maiores humoristas dessa época.

Num desenho de finais dos anos 20, Amarelhe mostra-nos os colaboradores do jornal, homenageando Francisco Valença, e aí se podem ver o próprio Amarelhe, Almada Negreiros, Carlos Ribeiro, Lino Ferreira, Silva Tavares, Jorge Barradas, Leal da Câmara, Stuart Carvalhais, Miguel Martins, Barbosa Júnior, Artur Portela, Alfredo Vieira Pinto. São os humoristas da escrita e gráficos que estão, mais ou menos, ligados à fundação deste jornal.

No universo gráfico Almada Negreiros, Jorge Barradas, Stuart Carvalhais, Leal da Câmara… são os artistas responsáveis pela ruptura modernista dos anos 10, aos quais em breve se juntaria a segunda geração modernista representada pelo Teixeira Cabral, Carlos Botelho, Albuquerque, José de Lemos…

Capitaneando estes artistas estava Francisco Valença (Lisboa 1882/1959), um mestre da caricatura que se impunha como um dos sucessores de Raphael Bordallo Pinheiro, e que no “Sempre Fixe”, «durante trinta e três anos – escreveram no catálogo à exposição póstuma de 1962 – foi o porta-voz da cidade, rindo e sofrendo com ela, comentando todos os factos relativos à sua vida, e muitas vezes à vida da Nação e mesmo da humanidade, mas que em Lisboa encontram sempre eco».

Foram os seus desenhos e suas primeiras páginas que comentaram, desmascarando, ironizando, os problemas da «pesca espanhola nas nossas costas» (9/9/1926); o incremento da censura no novo regime «depois da tesoura-censura-o-facalhão-lei da Imprensa. Na impossibilidade de desenharmos e escrevermos no “Diário do Governo”, teremos de transformar o “Sempre Fixe” em jornal de modas» (8/7/1926); as consequências da ditadura - «velhice atribulada – Portugal põe a Declaração dos Direitos do Homem no penhor» (5/5/1927); e será também ele um dos primeiros a publicar a caricatura de Salazar, continuando a criticá-lo enquanto pode (por exemplo: «Uma peça de efeito – Salazar a tocar o violoncelo contribuinte – com a nova partitura, o virtuoso das finanças consegue arrancar muitas notas ao velho instrumento. Música que delicia o diletante… - o tesouro» de 18/4/1929; ou «Zoologia no a Estatuária – Salazar uma sanguessuga» de 31/5/1934…).

Francisco Valença, a par de Pedro Bordalo, foi a foi a alma deste jornal, entregando-se a ele até 1959, ano da sua morte. Se o jornal sobreviveu largos anos ao seu director-fundador (1942), curiosamente o mesmo não aconteceu com Valença, já que op jornal entra logo em crise nos finais dos anos 50, para se eclipsar em 1961. É certo que os tempos eram difíceis, que cada vez era mais difícil fazer humor, porém creio que também não é estranho o facto do desaparecimento do Valença, do seu timoneiro, não conseguindo a nova direcção do jornal adaptar-se aos novos tempos. Não nos podemos esquecer que por essa altura triunfa a «Parada da Paródia» como um novo alento humorístico, o qual encerraria portas, não por falência ou questões de censura, mas por falha administrativa dos Parodiantes de Lisboa.

Valença foi um espírito desperto e conciliador, foi a imagem do humor português a adaptar-se às condições do tempo, na harmonização do espírito revoltado dos humoristas com as novas leis castradoras e sufocantes, conseguindo, apesar de tudo, fazer humor e dar incentivo aos colaboradores do jornal a encontrar novas vias de resolução humorística.

Francisco Valença, para além da imprensa, seria também ilustrador de livros e desenhador-conservador do Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa.

Como última questão: é curioso que Valença, sendo o mestre de um certo tradicionalismo gráfico do humor nos anos 30/40, seria também o padrinho da nova geração que se desenvolveu no “Sempre Fixe”, com novos contributos no modernismo portugueses, á qual eu designo por «Geração do Sempre Fixe».


Friday, January 29, 2021

XXII INTERNATIONAL BIENNIAL OF GRAPHIC HUMOR, CUBA, 2021 CONTEST

 


XXII INTERNATIONAL BIENNIAL OF GRAPHIC HUMOR, CUBA, 2021 CONTEST

The Humor and Cartoonist Guild of the Union of Cuban Journalists, together with the Museum of Humor of San Antonio de los Baños, and with the co-sponsorship of the Provincial Office of Culture of Artemisa, are convoking the XXII International Biennial of Graphic Humor to be held from April 11 to 14, 2021.

Cuban humorists and historians inspired by the motto "Humor brings us closer" invite cartoonists around the world to build bridges of solidarity and humanism, as an alternative to physical distancing and the new socio-economic challenges imposed by the Covid-19 pandemic.

FROM THE GRAPHIC HUMOR CONTEST

Participation in the meeting is open to cartoonists from around the world who can compete with a free theme. Original works should preferably be sent in digital format and with the signature and data of the author.

They can be done in any technique, delivered in JPG format, with a resolution of 300 dpi and no less than 1500 pixels on the longest side. It is possible to compete in in the following categories:

- General Humor - Political satire - Humorous comic - Personal Cartoon - Humorous photography

- A Tomy Prize for political humor, in memory of the beloved cartoonist Tomás Rodríguez Zayas, who would be turning 72 in 2021. Tomy Prize seeks to reward the best exponents of counter-hegemonic, anti-imperialist and left wing graphic discourse. This time the theme will be "Sovereignty".

The authors will be able to compete with a work in each of the categories, plus the Tomy Prize for political humor.

They should be sent to the following email address: humor@upec.cu accompanied by the participation form which should include the following information:

· Names and surnames (also artistic name) · Country · Title · Category · Technical

· Home Address · E-mail address · Telephone

The same data must be included in the information of the digital works, the holder of the file with the name of the author and country of origin, as well as clarifying in the body of the message and the subject if the work is for the Tomy Prize.

All proposals will be received from January 18 until March 10, 2021.

Union of Cuban Journalists (Upec)

XXII International Biennial of Graphic Humorism

Calle 23 no. 452, Vedado, Cuba. CP 10 400

Telephones: +5378323722

Information concerning the juries: The admission jury will select the submitted works to be exhibited at the San Antonio de los Baños, XXII International Biennial of Graphic Humor.

An international jury made up of prestigious figures linked to graphic humor will award the prizes.

The decisions of the jury are final and participation in the contest requires acceptance of these stated terms.

About the Prices

- Eduardo Abela Award, the highest award in the competition, is given in homage to the outstanding Cuban cartoonist (1889- 1965), consisting of a certificate of credit, a trophy and cash.

- First, second and third prizes in each category and as many mentions as the jury considers, including a certificate.

- Tomy Prizeconsisting of certificate and a reproduction of a work by the author.

- As ii is already a tradition, various Cuban cultural and social institutions join the competition and award collateral prizes.


Caricaturas Crónicas: «Pedro Bordalo Pinheiro – o “Sempre Fixe”» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 16/10/1988

Sem ser um humorista (do traço ou da palavra escrita), tinha como ninguém «…o sentido das oportunidades e vislumbrava, num relâmpago de inteligência, o momento propício de atacar um facto, de fazer uma crítica, de preparar uma charge.

Foi assim que Pedro Bordalo conseguiu fazer do “Sempre Fixe” um dos mais duradores hebdomadários portugueses, sem favor nenhum, o mais querido de todos os semanários de caricaturas que se tem publicado no nosso país. Sob a sua sábia e prudente direcção, “Sempre Fixe” só granjeou amigos e, sendo um jornal de caricaturas, nunca melindrou quem quer que fosse, porque Pedro Bordallo sabia, como ninguém, confinar-se dentro das fronteiras do humorismo, sem atingir nunca o campo das ofensas pessoais.

/…/ Era um dirigente na verdadeira acepção da palavra e, acima de tudo, um homem de coração que o sabia ser sem alardes, discretamente, dando por vezes a impressão de que, quando fazia o bem, quase que pedia desculpa de que alguém precisasse dos seus favores, porque os fazia, e muitos, quantas vezes até sem esperar que lhos pedissem» (in “Sempre Fixe” de 12/2/1932),

Com estas palavras anónimas, mas assinadas mentalmente por todos os colaboradores, se despediu o jornal “Sempre Fixe” do seu director e fundador Pedro Bordalo Pinheiro (Lisboa 1890 / 1942), aquando da sua morte. Terminava desse modo a primeira etapa de um dos mais importantes periódicos humorísticos deste século, ou mesmo da história do humor em Portugal.

As épocas tanto podem ser marcadas por indivíduos como por instituições e, se o rotativismo foi dominado pela sombra de Raphael Bordallo Pinheiro, a Primeira República pela irreverência modernista, sem dúvidas que o “Sempre Fixe” é o espelho das vicissitudes da liberdade e do humor no Estado Novo.

Por detrás da fundação deste jornal está, como já dissemos, Pedro Bordalo Pinheiro, um jornalista que nasceu em Lisboa a 9 de Novembro de 1890. Apesar do seu nome, e da sua relação com o humor nos fazer pensar que pertence à família de Raphael Bordallo Pinheiro, tudo leva a crer que assim não é, antes uma curiosa coincidência.

Começou a sua carreira no “Novidades”, para em 1915 fundar com o João de Barros e Paulo Barreto, o seu primeiro periódico, a revista “Atlântida”. Era uma revista que apostava no intercâmbio cultural luso-brasileiro, mas que não vingou durante muito tempo.

Por ironia do destino, também este Bordalo Pinheiro esteve ligado à cerâmica, como director de uma fábrica, a Companhia Cerâmica de Telheiras, nos anos dez.

Em 1921, agora com o dr. Joaquim Manso, funda um novo periódico, o vespertino “Diário de Lisboa”. Neste jornal, vai tomar cargo da direcção técnica, até que em 1924 assume a direcção da representação da agência internacional noticiosa – Agência Havas, em Lisboa.

Em 1926 regressa ao grupo empresarial do «Diário de Lisboa», para fundar e dirigir o semanário humorístico “Sempre Fixe”, que liderou até à sua morte, em Fevereiro de 1942

Segundo o testemunho daqueles que trabalharam intimamente com ele, Pedro Bordalo era não só um jornalista excepcional, um homem com pleno domínio do humor, como um excelente director que soube apoiar as várias vertentes do humor, desde as tradicionais até à vanguarda, que soube apostar tanto nos consagrados como na juventude que liderava a segunda geração modernista.

Sem ser um humorista, foi um caso de humor.


Thursday, January 28, 2021

Caricaturas Crónicas: «Augusto Cid – um humor controverso» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 2/10/1988

 Goste-se ou não da sua visão política, uma coisa é certa: é um dos melhores cartoonistas portugueses da actualidade, a cuja sátira alia um traço contundente, dentro de um grafismo anglo-saxónico, que tem como figura de proa Ronald Searl.

 

Amado por uns, odiado por outros, Augusto Cid é na actualidade o cartoonista mais controverso, pela sua intervenção ser agressiva e contundente.

Segundo ironia do próprio, nasceu «na ilha do Faial numa manhã cinzenta e fria de novembro de 1941, aos gritos: Baleias! Baleias!

Sem esperar que me pendurassem pelos pés e me dessem a palmada da praxe, corri para a praia e em vão tentei deter os homens do arpão. Uma hora depois era içada de um mar tinto de sangue, uma linda baleia e lentamente cortada às rodinhas no cais… Eis quando subitamente se fez luz no meu espírito! – Corri para casa, voltei com tintas e pinceis e nessa mesma manhã parti para o mar. De então para cá tenho-me dedicado a pintar nas baleias tenebrosos monstros capazes de paralisar de medo os mais ousados homens do arpão».

Quem é o homem do arpão, hoje, é um caso para pensar, mas o certo é que teve de esperar 19 anos para descobrir esse gosto «amargo» de pintar «monstros», ou de «arpoar».

Estava na Califórnia, com uma bolsa do AFS – American Fiel Service (Erasmos liceal), e vendo como os cartoonistas tratavam os políticos, com que poder os “dominavam”, tomou a decisão de se dedicar a esta profissão. Fez estudos de arte nos EUA, e em Lisboa, optando sempre por uma visão estética pessoal que mantêm no cartoon, na publicidade (o logo do PPD foi desenhado por ele) ou na escultura (especialmente na temática equestre e não só) que faz.

A partir da década de sessenta publica trabalhos na «Parada da Paródia» (não só desenhos mas também textos), «Observador», «A Mosca», «RTP»… e finalmente entra para o quadro do jornal da direita «O Diabo», onde tem o privilégio de primeira página semanal. (Posteriormente passaria pelo «Sol»).

A par do seu trabalho nos periódicos, tem apresentado regularmente ao público, os seus trabalhos condensados em álbuns. O primeiro, «Que se passa na frente?!!!», regista a sua estada na guerra colonial, em Angola, só conheceu a forma de álbum em 1973, e para mim é um dos melhores trabalhos de Cid, para além de ser um dos raros registos humorísticos da guerra colonial. (Aproximado é o álbum dos trabalhos de Nando com o «Zé da Fisga»).

Depois do 25 de abril publicou o «PREC I», seguido do «PREC II», «O Superman», «Eanito, el Estático», «O Último Tarzan», «O Fim do PREC», «Demito-me uma Ova», «Bicas e Bocas», «Camarate», «Agarra mas não abuses»… evidenciando-se como o único cartoonista assumidamente de direita. (Ele defender-se-ia que não era direita, mas sim os jornais para onde trabalhava).

A sua intervenção crítica deixou o tom irónico, para se impor como um satírico, um «arpoador» dos que fizeram a revolução, ou de certos políticos. Dentre eles, a sua obsessão por Ramalho Eanes e Álvaro Cunhal, fez com que corresse o boato de que no dia em que estes políticos desaparecessem, o Cid desapareceria também, o que parece não ser verdade.

Esta agressividade satírica já lhe trouxe vários problemas com a justiça, em processos de difamação, ou apreensão de álbuns, mas estes são os riscos da profissão. O Cid não é um satírico que se conforma, e defende que «um cartoonista, à semelhança do tigre, tem que actuar de forma fulminante sem dar qualquer hipótese à sua vitima. Não faz o menor sentido ir dando pequenas e denunciadas dentadinhas, porque a breve trecho o lesado põe-lhe um açaimo e uma coleira… Nas verdadeiras democracias são os cartoonistas que mantêm os governantes em permanente estado de vigilância e sobressalto».

Esta é a sua forma de comentar a polítrica pelo cartoon, a cuja sátira alia um traço contundente, dentro de um grafismo anglo-saxónico, que tem como figura de proa Ronald Searl. É um desenho linear, com predominância da silhueta, ou a bidimensionalidade, em que a caricatura exacerbada existe como identificação contundente. A esta linha, Cid enriquece o desenho com aguadas a cor ou cinzento.

Goste-se ou não do seu traço, do seu ataque  cerrado aos políticos da esquerda, da sua visão crítica, uma coisa é certa, é um dos melhores cartoonistas portugueses da actualidade, que ainda no ano passado conquistou o Prémio de Humor de Imprensa no I Salão Nacional de Caricatura (Vila Real), e acima de tudo é que os seus trabalhos têm humor.

 

PS. Viria a falecer a 14 de Março de 2019, em Lisboa, após doença prolongada.


Wednesday, January 27, 2021

Caricaturas Crónicas: «Amarelhe – a caricatura de teatro» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 9/10/1988

Não podendo afugentar a freguesia, ele consegue o compromisso entre a sua visão caricatural e o amor-próprio dos caricaturados. Os desenhos revelam a perspicácia especial do artista que, sem deformar em demasiado, logra, com a verdade e síntese, definir as particularidades dos retratados.

 

Olhando para a história da cultura em Portugal somos obrigados a reconhecer que, por um lapso, sempre fomos para o inculto, vivendo as artes no espelho da saloiice estupidificante dos nossos políticos governantes; por outro lado verificamos que a sociedade a vive por modas.

Por exemplo, hoje a moda é a pintura, como um expoente da bolsa de valores (com a serigrafia como sucedâneo económico para os mais pobres), enquanto o teatro é a luta quixotesca pela sobrevivência de uma dúzia de companhias, Nas primeiras décadas deste século, a moda era precisamente a inversa, vivendo os pintores a imagem romântica dos pierrots incompreendidos, e os actores o estrelato da sociedade divertida.

O humor e a caricatura também estavam na moda, e naturalmente os humoristas abordavam tudo o que tinha interesse para a sociedade, desde a política à sociedade, à cultura, ao teatro. Havia mesmo alguns que se especializaram num campo só, sendo o caso de Amarelhe, o primeiro a impor-se como o caricaturista do mundo do teatro.

Américo da Silva Amarelhe nasceu no Porto a 26/12/1894 (filho de pai galego Amarelle), e desde muito jovem se dedicou à caricatura, desenhando a sociedade numa visão pitoresca e humorística. O seu traço pertence à escola rafaelista, só que mais aligeirado do barroquismo, apresentando-se mais linear, com alguns compromissos com o humorismo decorativo (campo que ele adoraria explorar mais, mas...). Tal como Mário Azenha escreveu, ele «não é um caricaturista de síntese, de transcendente humorismo e penetração à maneira inglesa; ou imaginoso e pícaro no tipo espanhol. /…/ O influxo das técnicas modernas não o levam a renunciar aos cânones clássicos. /…/ Os traços, mesmo no exagero, são proporcionados e mantêm nítidos os caracteres do módulo e o contorno da figura».

Este é um estilo gráfico, e uma opção humorística, como fuga a uma irreverencia modernista tentadora (estilo ousado onde acabou por concretizar meia dúzia de telas magistrais), que poderia existir, mas que tinha de ser amordaçada por sobrevivência: «É que eu não posso desenhá-los ao sabor da minha visão e sensibilidade, senão perco a freguesia».

Amarelhe é um profissional do desenho, que trabalha incansavelmente noite e dia para poder sobreviver, porque como já referi várias vezes, a caricatura sempre foi mal paga. Não podendo afugentar a freguesia, ele consegue o compromisso entre a sua visão caricatural e o amor-próprio dos caricaturados, e como afirma Julieta Ferrão, «os desenhos de Amarelhe – grafia pitoresca e humorística – revelam logo ao primeiro golpe de vista, a perspicácia especial do artista que, sem deformar, conseguia com verdade e síntese, definir e figurar as particularidades dos retratados».

Tendo iniciado a carreira no Porto mudando-se depois para Lisboa, vivendo uma vida de boémia e de ironia sobre todos os campos da vida, com os anos, as desilusões, inconformismos… foi-se encerrando num isolamento de cepticismo, concentrando a sua visão caricatural nos retratos encomendados pelos periódicos, pelas companhias teatrais (cartazes promocionais) ou pelos próprios interessados. A sua atenção que sempre tinha privilegiado o teatro (com cuja obra fez várias exposições), foi-se fechando naquele mundo, deixando para a posteridade muitas dezenas de caricaturas de actores, que reunidas poderiam ser encaradas como o grande «álbum das glórias do teatro português», da primeira metade deste século. São caricaturas, cartazes, capas de partituras… «numa técnica originalíssima de requintada beleza – diz o crítico Artur Portela – e de um alto pensamento decorativo. O traço afinou-se em sensibilidade. A cor obedece ao ritmo das imagens».

Amarelhe morre de ataque cardíaco em 1946, mas ele mantem-se como um símbolo da caricatura, o triunfo do teatro como glória dos seus intérpretes, os intérpretes teatrais como glória de um artista.

Ele criou uma tradição de caricatura teatral que se manteria pelo menos mais meio século de actividade com Manuel Santana, Fred Sant’Ana, Pacheco, Júlio de Sousa, Fernando Bento, Jorge Rosa…


Caricaturas Crónicas: «Caricatura de Livro de Curso: tradição coimbrã» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 23/4/1989

O estudante de Coimbra sempre foi um pouco um símbolo da irreverência. Não admira, assim, que tenha havido sempre uma tradição muito particular pela caricatura na cidade do Mondego.

 

Coimbra, a cidade-universidade, berço de doutores, intelectuais de boémios «eruditos», é também centro de grotescas caricaturas (que por vezes nos governam), não fosse o estudante símbolo de irreverência.

Já nestas crónicas falei de Correia Dias, Luís Filipe, Christiano Cruz, alunos de Coimbra, que por aí desenvolveram a arte da caricatura, de Tossan, Tom, que encheram vários livros de curso com a sua arte de charge

É curioso que os senhores doutores, antes de iniciarem a sua vida «séria», tenham como tradição levar como última recordação um traço feito de riso e irreverência. Será um gesto de despedida à verdade crua, para entrar na selva dramática do mundo adulto?

Ora numa recente viagem à Lousã, perto de Coimbra, tive a oportunidade de conversar com o meu amigo Zé Oliveira, também humorista (a exercer actividade do «Trevim»), sobre alguns caricaturistas que têm deixado o seu trabalho em Coimbra. Heis os dados que o Zé Oliveira me forneceu sobre dois desses artistas:

SIDÓNIO – «Algarvio, quase completamente surdo, apareceu um dia (década de 60…) POR Coimbra. Vivia dos proventos que lhe possibilitavam as caricaturas para livros de fim de curso. Ficou por lá, pelo menos alguns anos, dormindo e comendo, a favor, nas «Repúblicas», a troco de «frescos», que desenhava a traço rápido.

Um dia, desaparecido de Coimbra, “encontrei-o” numa revista, cujo nome não me recordo, entrevistado na qualidade de… pintor. Afinal, conhecido por meia Coimbra como um bom caricaturista, desconhecia-se-lhe estar ali um melhor de técnica amadurecida, conforme se depreendia das fotografias dos seus quadros. Há 3 ou 4 anos, ou perto, próximo do Hotel Astória. Não lhe falei, porque… poderia ser mesmo ele e… como é que se fala com um surdo de 90 anos?» (Zé Oliveira crê ter ouvido que Sidónio morreu há uns meses).(1)

ÁLVARO DE MATOS, A. MATOS, MATOS – «Vivia em Coimbra nas décadas de 50/60. Baixo, cabelo farto, grisalho, óculos de aros grossos e negros, fazia bastante caricatura para livros de curso, assim como pintura de murais para cafés e restaurantes, muitas vezes sob temática de Coimbra. Esses murais tinham mais qualidade do que muita gente lhes atribuía. Ainda existem alguns.

Trabalhava também um pouco em artes gráficas e cerâmica, criando modelos escultóricos de bonecos de decoração popular, reproduzidos em série. Expôs algumas vezes pintura, num estilo muito clássico,

As suas caricaturas continham exagero comedido, mas o seu traço era peculiar. Disse-me um dia que, em sua opinião, uma expressão facial residia muito mais numa boca do que nos olhos. O que lhe custava «apanhar» eram as expressões da boca.

Chegou a caricaturar cursos praticamente inteiros da Escola do Magistério Primário de Coimbra e da Escola de Regentes Agrícolas. Numa e noutra, tinha clientela habitual e mais regular do que na Universidade.

Se ainda for vivo, será bastante velho.»

Foi um testemunho de Zé Oliveira sobre dois dos vários artistas da caricatura que têm vivido Coimbra no rasgar à pena as caras dos qu por ali passam a estudar.

 

PS: (1) SIDÓNIO: Notícia falsa, quando o viu não tinha 90 anos mas cerca de sessentas, como sabemos hoje. José Sidónio de Almeida (Faro 10 de Julho de 1918 — 1997) foi um caricaturista, pintor e escultor português e que só faleceria em 1997.


Monday, January 25, 2021

Caricaturas Crónicas: «Francisco Zambujal – o desporto em humor» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 25/9/1988

 O humor, «a arte de fazer sorrir de forma inteligente», é uma arma de crítica, uma diversão e um exercício saudável da mente. O desporto não é nenhuma fórmula de crítica, mas pode ser, para além de uma diversão ou um exercício saudável para o físico de quem o pratica, ser um exercício de escape mental para quem grita contra o árbitro, o treinador, o adversário…

O desporto é uma vertente da vida social, que por vezes, por interesses políticos, se transforma numa obsessão, na estupidificação de um povo. Pois, como elemento social, é passível de ser humorizado, e desde que se tornou moda, o Almada Negreiros, Menezes Ferreira, Stuart Carvalhais, Sampaio, Pargana, Natalino, Martins… aproveitaram o desporto para fazer humor gráfico.

Hoje quem domina este campo desportivo é Francisco Zambujal, um «clássico» do humor português que anda nestas lides há mais de vinte anos. Como enveredou para esta arte? «Da forma mais ou menos espontânea e acidental como é hábito acontecerem as coisas em Portugal. Gostava de desenhar e fazer caricaturas, mandei um dia alguns para um jornal, agradaram e cá fiquei».

Desde aí «tenho-me dedicado principalmente ao cartoon e à caricatura em “A Bola”. Colaborei igualmente no “Expresso”, no “Sete”, na revista “Pão com Manteiga” e em outras publicações, para além de vários trabalhos não destinados à Imprensa. Fundamentalmente posso dizer, no entanto que, em termos de desenho «A Bola» é. Há mais de vinte anos, a minha casa».

Apesar de ter a qualidade de um profissional, de um mestre da caricatura, e de ser uma presença regular na Imprensa portuguesa, uma frequência igual à dos outros profissionais, esta não é a sua verdadeira profissão, esta não é a sua forma de subsistência. É professor (do primeiro ciclo), a trezentos quilómetros da capital, em Faro mais propriamente. Este distanciamento tem várias contrapartidas; por um lado, dá-lhe maior serenidade no julgamento irónico do que se passa no país, um humor como sentimento calmo, e não precipitado e satírico como o poderia ser se vivesse na turbulência da capital; por outro lado, a distância (os desenhos eram despachados por comboio), as dificuldades de comunicação não lhe permitem estar em cima do acontecimento, Mas hoje quem está (‘), para além das agências noticiosas!?!

«Longe dos centros de decisão e de informação, só tarde e esbatidos chegam os ecos dos acontecimentos necessários aos muitos trabalhos que teria de realizar para sobreviver. Sentiria tamb´+em grandes dificuldades para colocar a tempo, em Lisboa, desenhos que, pela sua própria natureza, perderiam actualidade se publicados dois ou três dias depois». A opção é manter-se à distancia e fazer humor com o desporto, um mundo, em principio, mais lentos nos acontecimentos que a política.

A linha estética de Zambujal é o rafaelismo, ou seja, é um dos raros humoristas em actividade que mantem essa linha simples do naturalismo “exagerado”, mantem a tradição da única escola de humorismo gráfico que se desenvolveu em Portugal. Em Francisco Zambujal pode-se aperceber a linha base do rafaelismo, doseada pelo modernismo da segunda geração modernista, com os condimentos pessoais, que lhe dão um traço inconfundível. O seu humor e desenho é incisivo,irónico, atingindo o público a que se destina com perspicácia. De todas as formas, não é fácil fazer humor num campo de tantas susceptibilidades como é o do desporto, o qual já originou guerras, e Zambujal fá-lo.


Sunday, January 24, 2021

Caricaturas Crónicas: «Pedro Palma, o «cartoon» ilustrativo» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 28/8/1988

 A revolução de Abril abriu as portas a muita coisa, entre elas à liberdade de expressão, do humor, à criatividade. Nesses anos quentes surgiram muitos artistas, muitos cartoons… que se foram esbatendo com o arrefecimento da força de intervenção. A maioria, abandonou este género pouco depois, enquanto outros impuseram-se como os herdeiros daquela profusão de liberdades, de criatividades de humores dispares.

Esse é o caso de (João) Pedro Palma, um artista natural de Serpa, onde nasceu a 3 de Agosto de 1959. Com 15 anos viveu a revolução, e aos 16 anos começou a publicar: «Nesses tempos o “Mundo de Aventuras” tinha umas páginas dedicadas aos jovens, e aí comecei a publicar as primeiras coisas, já humorísticas».

Esta abordagem do humor foi fruto de uma paixão gráfica, «foi uma admiração muito grande pelo David Levine que originou tudo isto. A verdade é que o que se fazia em Portugal, nunca me tinha atraído. Por exemplo, gosto imenso do Stuart, só que aquilo sempre foi muito simples. Ora, como eu tinha um acesso fácil ao que vinha de fora, lia muito a imprensa francesa e americana, foi através dela que me eduquei visualmente, foi ela que me influenciou. Actualmente procuro libertar-me de tudo isso».

As artes gráficas, na vida de Pedro Palma iniciaram-se, como profissional, na mesma altura e com três vertentes distintas – a publicidade, ilustração infantil e cartoon.  Foi em 1979, com 20 anos, que começa a trabalhar em agências de publicidade, que começa a publicar no «Tempo», passando posteriormente pelo «Diário de Notícias», «RTP / Último Jornal», «Bisnau»… Entretanto faz uma incursão por França, conquistando um lugar no «Jeune Afrique» e «Figaro Magazine»… prosseguindo na «Grande Reportagem» e finalmente «no «Expresso», onde trabalha em exclusividade.

Como muitos outros cartoonistas, a sua vida divide-se essencialmente entre a publicidade e o cartoon. «Na publicidade esforço-me por transmitir uma mensagem séria, e não humorística. Quando isso acontece, é mais por influência exterior. Em terrenos de publicidade temo-nos que abstrair do que sabemos, e cingirmo-nos ao produto. No entanto gosto, e procuro, sempre que possível, dar uma pitada de política».

«No cartoon considero-me como um jornalista, e tenho pena que em Portugal não nos considerem assim. Não responsabilizo este estado de coisas apenas aos jornais, porque há muita falta de profissionalismo, não existe unidade de classe».

«A minha visão de cartoonista é ridicularizar as situações, sempre pelo lado negativo, nunca tendo a preocupação de fazer humor, de procurar a gargalhada. Só que também não é a simples ilustração política, o que por vezes tenho feito. Nos jornais nem sempre faço o que quero, mas o que a redacção resolve em reunião. Prefiro o cartoon de opinião, porque o cartoon ilustrativo perde a força ao estar dividido entre o desenho e o texto. O cartoon sem legendas é aquele que tem mais força e impacto».

Na verdade, nos últimos anos, a sua obra tem-se restringido ao cartoon ilustrativo, o que n~ºao o impede de particularmente trabalhar o cartoon e a caricatura liberta das pressões de redacção, nomeadamente em experiências a óleo, para melhor domínio das técnicas, do traço, do estilo gráfico que quer desenvolver. «O meu objectivo é aperfeiçoar-me aqui, e partir para os Estados Unidos, onde é possível viver só do cartoon. Quando estive em França vi que havia hipóteses»…

 

PS: Posteriormente abandonaria o cartoon para se dedicar à pintura e à foto reportagem. Viria a falecer a 28/8/2017 em São Pedro de Sintra.


Caricaturas Crónicas: «O Grupo dos Humoristas Portugueses» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 14/8/1988

 A década de trinta aproxima-se do seu fim; a Espanha cobria-se de sangue; Portugal subjugava-se na ditadura. No meio desta turbulência, um grupo de homens livres surge ironicamente a rir-se da vida. Era a segunda versão do Grupo dos Humoristas Portugueses, que reaparece agora em 1938 e sobreviverá até 1942.

 

Um simples gesto, feito reunião, mais não seja para rabiscarem umas caricaturas, contar umas anedotas, pode ser um acto de irreverência, segundo os tempos e liberdades. E esses eram de esplendor de guerra e de opressão.

A década de trinta aproxima-se do seu fim; a Espanha cobria-se de sangue, num joguete de força entre potências internas e externas; Portugal subjugava-se na ditadura, na opressão das liberdades. No meio desta turbulência, um grupo de homens livres (já que o último raio da liberdade humana a ser sufocada é o riso, e nunca ninguém o conseguiu sufocar) surge ironicamente a rir-se da vida. Era a segunda versão do Grupo dos Humoristas Portugueses, que reaparece agora em 1938 e sobreviverá até 1942.

Herdeiros da Sociedade dos Humoristas de 1911 (alguns elementos da direcção provinham desse grupo); herdeiros dos Fantasistas de 1916 (o Presidente da associação será o mesmo); integra nas suas fileiras artistas que foram os irreverentes responsáveis por aquelas iniciativas anteriores, como Francisco Valença, Emmérico Nunes, Alfredo Cândido, Hipólito Collomb, Abel Salazar, Leal da Câmara…

Este último será o grande responsável e dinamizador deste novo grupo. Apesar da idade, de se ter afastado progressivamente do humor jornalístico (sem nunca o ter abandonado totalmente), havia dentro de si aquela força juvenil de irreverência, a força de dinamismo mais maduro e distanciado historicamente, que não o deixava parar, seja numa dinâmica da região em que vivia, seja do país a que pertencia.

Contudo, o grupo já não tem a pretensão de ser um movimento estético com tendências de vanguarda no interior, antes um culto aos mestres do passado, em convívio com os artistas do presente. Seria a primeira introspecção histórica e filosófica do humor gráfico nacional, numa cumplicidade de investigadores e humoristas.

«O Grupo dos Humoristas Portugueses», segundo os seus responsáveis, «não podia apresentar as suas produções, sem afirmar o respeito que tem pela tradição, esse fio subtil que une o presente ao passado, e a tradição, para ele, consta dos trabalhos artísticos daqueles que já desapareceram, mas que deixaram, nas suas obras, a afirmação de várias fórmulas do humorismo».

Para além de homenagearem os artistas desaparecidos, de reunir os humoristas «históricos», como Jorge Colaço, Rocha Vieira, Arnaldo Ressano, para além dos nomes já referidos anteriormente, este grupo era também o encontro com as gerações posteriores como Octávio Sérgio, Júlio de Sousa, João Valério, Zéco, Pargana, Natalino, Hugo Sarmento… Isto em referência aos artistas gráficos, porém, o grupo era uma associação muito mais vasta: «O Grupo é composto na sua quase totalidade, de escritores e artistas, cuja feição ou visão artística correspondem a esta fórmula de espírito – o humorismo». Por essa razão, encontraremos a intervenção de actores, músicos, historiadores… encontraremos nomes como Nelson de Barros, Luís de Oliveira Guimarães, Veiga Simões, Armando Boaventura, Cardoso Martha, Gustavo Matos Sequeira, Eduardo Libório, Carolina Ramos, Fernandes da Silva…

O que é que o Grupo pretendia? Tal como as outras tentativas de associativismo humorístico, desejavam dinamizar e propagar a arte do humor, como sobrevivência humana, neste mundo caótico. Nesse intuito, organizaram um Salão de Humoristas em 1938 (com retrospectivas históricas), assim como bailes de máscaras, serões humorísticos e conferências. Nesta última formula, houve uma programação vasta, não totalmente concretizada, que se debruçava sobre o humor em todos os campos, seja na literatura, nos tribunais, na medicina, no jornalismo, teatro, música… no povo português.

Curiosamente, denota-se nas suas várias iniciativas, dar relevo a uma «secção de humorismo popular, com várias manifestações dessa faceta jocosa do povo português».

Isso, para além de ser um gosto especial do Presidente do Grupo, Leal da Câmara, era também uma necessidade que se tinha imposto no humor, uma arma para iludir a censura, mantendo o aspecto crítico da comicidade. Eram tempos em que a sátira política estava proibida, e aos caricaturistas / humoristas restava apenas o retrato-charge e o humor social. Por este, a arte da ironia podia dizer muita coisa, que escapava à falta de inteligência dos censores, dizendo coisas que a ditadura não conseguia ler, mas que o público compreendia.

Um dos últimos projectos a realizar pelo Grupo, foi um congresso de humoristas, em 1941, que não passou de projecto. Este fracasso, ligado à inoperância do Grupo, levou-o a desmembrar-se. O que restou no final, foi essa magna exposição, várias reuniões/jantares, foram brincadeiras em jogos pueris, de a partir de dois traços fazer caricaturas… e infelizmente quase nada impresso para documentação futura.

Apesar de se terem concretizados alguns desses projectos, como acabamos de dizer, hoje pode-se dizer q    eu o Grupo foi um novo falhanço.


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