Thursday, April 15, 2021

«História da Arte da Caricatura de Imprensa em Portugal - 1941» Por Osvaldo Macedo de Sousa

1941

O país glorificado na Grande exposição, não deixa de ser um pequeno país, de pequenos grandes homens, que pachorrentamente sobrevivem. Figura dessa cómica tristeza, continua a ser a figura impar do Mestre Stuart, que ao jornal "República", a 13/12/1940, entrevista ("Um Stuart em Lisboa"), pela pena do imparável Luíz de Oliveira Guimarães : Nem todos os dias se encontra um Stuart nas ruas da cidade. Pois um dia destes tive a fortuna de encontrar um: Stuart Carvalhais. Mal o vi, pensei logo: - «Ora aqui está uma entrevista!» E estava mesmo.

- O que pensa de si ? - perguntei-lhe, para começar.

- O mesmo que penso de todos os Stuarts.

- E pode saber-se o que é ?

- Impossível. É um segredo que pertence ao «Foreign Office».

Passemos, por consequência, adiante.

Este Stuart Carvalhais é das pessoas mais curiosas que tenho conhecido. Artista exímio, possuindo talento às carradas, nunca vi ninguém que se preocupasse menos com isso. Com um lápis ou um pincel nas mãos faz verdadeiros prodígios - e quasi se ofende se alguém lho diz. Despreocupado de «toilette», farripas de cabelo ao vento, eterno boémio sempre com o ar de quem perdeu a noite, há, entretanto, nele qualquer coisa que traduz uma personalidade inconfundível. Meio filósofo, meio «clown», espírito ao mesmo tempo grave e infantil, moço e reflexivo, um fato mal feito, um chapéu às três pancadas, preocupando-se seriamente com os problemas fúteis, soprando, num sorriso, os assuntos carrancudos como se soprasse o fumo dos seus próprios cigarros,   espécie de «bébé» de 60 anos, espécie de velho de 25, este Stuart Carvalhais daria um estudo profundo de trezentas páginas - ilustrado por algumas dezenas de caricaturas. Há, por vezes, simples anedotas que valem páginas de biografia. Uma bela ocasião, Stuart permitiu-se caricaturar determinada figura política. O caricaturado, julgando-se ofendido no seu prestígio de homem público pela irreverência do desenho, perdeu a cabeça, foi às do cabo e mandou duas testemunhas ao caricaturista. desafiando-o para um duelo. As testemunhas viram-se em palpos de aranha para se avistar com Stuart. Depois de longas pesquisas encontraram-no, por fim, quasi de madrugada, com um ligeiro grão na asa, sentado a uma mesa de «café». O artista ouviu-as, acendeu um cigarro e exclamou, perante o sorridente assombro dos seus interlocutores:

- Muito bem. Podem dizer ao meu adversário que eu não me bato, nem que me matem !

Com uma «blague» risonha desmanchara a gravidade da situação. Com um dito de espírito, toque do melhor florete, vencera, despreocupadamente, o seu adversário. está definido o homem.

- Quantos anos tem você, ó Stuart ?

Logo ele

 - Sei lá. Nasci no princípio do mundo. Quem é que pode saber os anos que o mundo tem ! Só me lembro que nasci a 7 de Março, numa quinta-feira, às 6 horas da manhã…

E franzindo o nariz:

-Imagine, ás 6 horas da manhã ! Eu que sempre gostei de me levantar tarde !

- O seu primeiro desenho ?

- Deve ter sido feito em Espanha, em Zalamea - claro - La Real como todas as Zalameas de Espanha…

- Em Espanha ? Mas então…

- Não se admire. Meu pai trabalhava nas minas de Rio Tinto. Fui para lá com meses. Lá passei alguns anos. Foi em espanhol que aprendi a ler. Quando vim para Portugal, mesmo, só sabia algumas palavras em português: «mira», «usted» e «torrão de Alicante»…

- Depois fez-se artista …

- Artista ? Mas ser artista é ter talento, possuir garra, ser condecorado… Eu não, eu nunca pintei nada…

E riu-se:

- Faço bonecos. Para distrair a fome… Artistas são os outros… Um dia, uns amigos disseram-me assim : - «O Stuart, tu precisas de uma comenda, de um hábito…» Sabe o que lhes respondi: - «Obrigado, rapazes. Para hábitos, bem basta os vícios que tenho !»

- Qual a sua opinião sobre a arte ?

- Deixe-me acender um cigarro, que o assunto pede fumo. A Arte, na minha opinião, é uma mulher como as outras. Quem pode gabar-se de perceber alguma coisa de mulheres ! Cá por mim…

Depois de um silêncio:

- E olhe que as mulheres, tais como são, , ferozes, exigentes, ciumentas, mentirosas, são ainda a melhor obra de arte conhecida. Repare para uma perna de mulher, por exemplo - uma perna de mulher bem feita, evidentemente - e veja que maravilha de leveza, de equilíbrio, de perspectiva… Dir-se-ia que foi ali que o Criador se deteve mais tempo…

Revoadas de raparigas passavam, perto de nós, frescas, risonhas, de saias curtas, de pernas à mostra.

- Veja, veja isto… Que belas-artes !

A voz estridente de um garoto apregoando os jornais da tarde veio desviar a nossa atenção para o panorama do mundo.

- Que lhe parece a guerra ?

- A mais séria e a mais dolorosa de todas as caricaturas. E para quê ? O mundo será sempre o mesmo.

Nesta sequência de entrevistas que Luíz de Oliveira Guimarães realizou para a "República" (no ano de 1940, mas que só agora falamos por no espaço para esse ano já existir demasiada informação), transcrevemos agora a que realizou com outro mestre da caricatura de então: Francisco Valença (E os seus quarenta anos de caricatura a 25/10/1940): Uma senhora perguntou, uma vez, a Francisco Valença, como é que ele conseguia fazer caricaturas tão pitorescas. Logo o brilhante caricaturista respondeu com a cândida ingenuidade de uma donzela de buço:

- Copiando, o mais fielmente possível, os modelos, minha boa amiga…

Foi sem dúvida, por essa razão que o Diabo, certa tarde em que Valença o visitou, lhe apareceu com uma máscara sobra a cara.

Fisicamente, Francisco Valença é a pessoa mais tímida, mais cândida, mais virginal deste mundo; dêem-lhe, porém, um lápis e uma folha de papel para as mãos - e todo ele se encrespa, se eriça, se transfigura. É, então, um Hércules atirando um dardo. Verdadeiro mestre da caricatura, depois de Rafael Bordalo, poucos se poderão gabar, como ele, de fazer e desfazer uma reputação, com meia dúzia de traço. tendo nascido caricaturista, caricaturista há-de morrer - se deus lhe der vida e saúde. Colaborador disputado, todas as revistas e todos os jornais da especialidade têm publicado desenhos seus - sem exceptuar a folha oficial, e digo assim: porque na própria folha oficial saiu, em tempos, um desenho da autoria de Valença, reproduzindo uma rara jóia pré-histórica que convinha tornar oficialmente conhecida. Ora aqui está uma coisa que nunca aconteceu, certamente, a outro caricaturista: ter colaborado no «Diário do governo»-

- Ó Valença, quando é que você começou a fazer caricaturas, caricaturas a sério, é claro ?

- Ao tempo que isso vai… - responde-me ele.

E depois de um silêncio:

~- Comecei na idade da «pedra», da pedra das aulas primárias. depois ilustrei as paredes do Instituto Industrial, à Boa Vista, com as caricaturas de Elvino de Brito, do Cândido Correia, de Mauperrin Santos, de Alfredo King e de outros professores… É certo que os contínuos, respeitosos do corpo docente, apagavam logos as ilustrações, mas nem por isso a arte deixou de ser eterna. Agora oiça…

Preparei o ouvido.

- Um belo dia, que vejo eu ? Uma escada de mão, muito grande, encostada a uma parede que andava em obras. Não hesitei um momento; subi até ao último degrau e fiz as caricaturas a seis metros da altitude, convencido de que, escondida a escada, seriam invulneráveis as obras-primas. Puro engano. Passados dez minutos, estava em presença do director, que era Fonseca Benevides. «V. Exª desculpe se eu fiz hoje as caricaturas mais altas do que o costume, mas pareceu-me que os retratados deviam ficar à altura dos seus elevados méritos». Foi a única explicação que me lembrou. Fonseca Benevides, a bondade em pessoa, de começo franziu o sobrolho, depois sorriu-se e acabou por me aconselhar a não reincidir nas homenagens, fosse a que altura fosse…

/…/ - Qual a sua opinião sobre a caricatura ?

- Isso, é muito sério ! Bem vê, sou caricaturista… /…/ É fora de duvida que a caricatura tem de considerar-se uma verdadeira arte plástica cuja forma ou cuja ideia é, essencialmente, irónica. Entre nós há ainda quem lhe negue foros de arte. Há gente capaz de tudo - até disto. A verdade é que a caricatura, seja pessoal ou política, fantasista ou anedótica, constitui uma expressiva e eloquente manifestação artística. Com uma vantagem: todos a compreendem desde que não sejam cegos. De resto, os melhores retratos de todos os tempos participaram sempre, até certo ponto, da expressão caricatural…

- Parece-lhe que ainda existe humorismo neste recanto, à beira-mar ?

- Existe como existiu sempre. Está mesmo na alma e no espírito do povo português. Ainda não há muito - lembra-se ? - os humoristas o evocaram, numa sala das Belas Artes, sob a batuta fulgurante de Leal da Câmara… Meios de pegar nesse humorismo nato, de o desenvolver, de o expandir, de lhe criar atmosfera, é que não há com a necessária amplitude …

- E entretanto…

- Diz o meu amigo muito bem… E, entretanto, o humorismo nunca foi tão imprescindível como na hora pessimista que o mundo atravessa, sob todos os aspectos: político, artístico, económico…

- Agora por económico: você, dizem que tem ganho uma fortuna com os bonecos…

- Bonecos, virgula: caricaturas é que é. Quanto a fortuna, tenho ganho o «bastante» para não ter crédito - em papeis evidentemente… Lembre-se que já João Chagas dizia que isto de caricaturas era ofício mau. E é - salvo seja para o cofre do meu Bairro fiscal, que todos os anos abre a boca para saborear alguns escudos em que sou colectado.

/…/ - Trabalho já não me falta! Se eu lhe disser que trabalho até quando os outros descansam - aos domingos. É a minha «folga». Pode tudo desertar: eu tenho de ficar, debruçado sobre a mesa, «sempre fixe», como numa trincheira - enquanto o Pedro Bordallo me não der as divisas brancas de reformado…

Franzindo o nariz:

- Já André Brun dizia: quantas lágrimas custa, às vezes, procurar fazer rir !

- Conheceu muito André Brun ?

- Se conheci ! Pertencemos ambos ao grupo «Águia». Há quarenta anos. Ouviu falar ? Era uma espécie de « Vie de Bohéme» em pleno 3º andar da Rua da Madre Deus. Os heróis eram o André Brun, o Carlos Simões, o Luíz Silva, o Walbeehm, já levados pela morte; o Eugénio Vieira, o Trindade Chagas, o Manuel Ribeiro, que felizmente ainda vivem. E este seu amigo. De quando em quando, ainda que não pertencessem ao grupo, apareciam por lá o Tertuliano Marques, o Rocha Martins, o Albino Forjaz de Sampaio e o Henrique Marques Júnior…

E num sorriso:

- Tínhamos, então, grande ilusões. Usávamos chapéus de aba larga, gravatas à «La Valliére», bengalões enormes. Todos fumávamos cachimbo - e que cachimbos ! …

No norte, o humor pontificava pela pena de Octávio Sérgio, que neste ano fará a sua 21º exposição individual, cujo Diário de Lisboa (de 13/6) noticiará da seguinte forma: Octávio Sérgio, o distinto caricaturista que, embora tivesse nascido em Peniche, é portuense pelo coração, expôs, no Ateneu Comercial do Porto, uma grande e valiosa colecção de desenhos, aguarelas, esculturas e caricaturas, que tem sido muito apreciadas.

/…/ Octávio Sérgio é ao mesmo tempo um artista e um cultor das letras. O seu nome de jornalista iguala o de humorista. espírito fino, cheio de sensibilidade, profundamente emotivo, o seu talento compraz-se, sobretudo, na caricatura, carregando-a, porém, dum alto sentido moral e social. O que Octávio Sérgio procura na sua arte não são exageros, como é vulgar encontrar-se. As suas caricaturas de figuras valem pela verdade física e psicológica.

Só mãos privilegiadas, só uma penetrante visão como a de Octávio Sérgio podiam sugerir tão admirávelmente, e expressão, o gesto, o sorriso que melhor caracterizam o caricaturado. Os seus desenhos não precisam catálogo nem legendas para serem rapidamente identificados…

Estando em fase de apreciação de diferentes traços caricaturais, segue uma crítica de arte de C.T., publicada em a "Acção" (de 1/5/1941). Fala de um tal Laginha, ao mesmo tempo que disserta sobre a arte Arnaldo Ressano: Notas de Arte Cari-Caturrar

O que nos faz pensar em Ressano Garcia, quando vemos as caricaturas de Laginha, em exposição n' "O Século" é que ambas têm de monstruoso, de teratológico; no entanto, os campos são distintos, se analisarmos de perto os trabalhos de um e outro.

Ressano arregaça as mangas para tratar a cara do sr. X - e, se a sua invenção é realmente notável, no que diz respeito à «geografia física» do paciente - a sua maldade é mais notável ainda. Porque, se a mola que dirige o braço não é a intenção expressa de estigmatizar este de fanfarrão, aquele de velhaco, o outro de «parvenu», etc., a mão caminha de modo a parecer inspirada por… um ferro em brasa mental. Como expressão final - e é pena - as suas coisas são académicas de desenho, são antiquadas; não acompanham, tecnicamente, o locutor espantoso que faz dum nariz - só por si - um poema épico, descobrindo-lhe zonas cilíndricas, poliédricas, planos que as interceptam, superfícies empenadas, rampas, uma paisagem lunar ou tropical e, no fim… um nariz ! - e, o que é inacreditável, o nariz do senhor X, sem tirar nem pôr !

Em Laginha, a ideia de servir ao visitante o espectáculo de uma psicologia - que muitas vezes só é verdadeira  na apreciação pessoal de Ressano - não o preocupa; nem entra no pormenor com essa espécie de predisposição cientifica de professor de geometria descritiva, de homem das matemáticas, com que Ressano, meu antigo e querido mestre, ataca o paciente, trinchando-o diabolicamente. Laginha descobriu o Ovo, o pássaro, o mastim nas fisionomias de X, Y e Z, porque a filiação apenas existe neste outro sentido que não é inteligente, mas que como ela aproxima coisas tão distantes com a cara de X e o ovo de galinha.

Algumas das suas caricaturas são magistrais de achado e de parecença; em geral, porém, o tratamento é desagradável… Laginha: deixe-me dar-lhe uma palmadas familiares nas costas, de amigo que lhe reconhece muitíssimas qualidades e que não quer senão  vê-lo liberto de formulas provincianas antiquadas, de filigranas chochas… Aqui temos um crítico, que não apenas aponta os erros, como ensina as técnicas.

O País "embalado" nas glórias do mundo português, adormecido pela opressão e censura do pensamento, quando os ventos da guerra já exterminavam a humanidade pela Europa, vivia placidamente nas suas quezílias comezinhas. A questão artística entre os novos subsistia, quando aos revolucionários já faziam retrospectiva de saudade : Quando saí da tua exposição - «Trinta anos de desenho» - trazia comigo trinta anos de saudade ! -palavras de C.T. in "A Acção" de 3/7/1941 sobre a exposição de Almada Negreiros - Outros que vão lá vêem apenas os teus trabalhos: eu, pelo que tu representas no meu passado, vejo ali trinta anos de Almada e trinta anos de mim próprio: Saudade !…

/… / Tu já não és: nem o excêntrico que um dia se vestiu dum azul que não era «o da tabela para homens» e provocou escândalo no Chiado; nem o revolucionário do «K4 o quadrado azul», das conferências futuristas no Teatro da República e na Liga Naval, e doutros desabafos; nem o agressor de altas personalidades em panfletos de «Morra, pim !»; nem o homem perigoso, nem o louco perigoso; Hoje és o Almada de sempre, apenas com a diferença de seres o Almada aceite, o Almada compreendido. Quer isto dizer que foste sempre o mesmo e que apenas os outros levaram trinta anos para chegarem a perceber como tu eras então !…

/…/ Em vários terrenos seguiste sempre à frente: tivemos muitas vezes de correr para te acompanhar… Não seu para que se inventou então a designação de futuristas, quando havia a de percursor

Almada já não era o irreverente satírico, antes um artista da vanguarda arregimentado pelo sistema político. O desenho de humor, que se no início foi motor de irreverência estética, com o tempo passou a ser mera sobrevivência, caindo na anedota simplista. Só de quando em vez, as suas experiências de desenho se depreendem nos grafismos humorísticos, feitos na maioria das vezes à última da hora. Na realidade, salvo um ou outro raro exemplo, o humor gráfico ia-se afastando da vanguarda estética nacional.

Contudo há casos …


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