Monday, November 23, 2020

«Stuart: um artista popular» por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de21/4/1985

     Um artista pode ser popular em vida, sê-lo após a morte ou sê-lo em ambos os casos. Um artista poder ser reconhecido por uma elite e ser «consagrado», ou ser simplesmente admirado e amado pelas massas. Este ultimo, é o caso de Stuart Carvalhais, um artista (quase) ausente dos museus portugueses, mas presente em várias manifestações que o recordam como um artista do povo. A última homenagem é a re-inauguração de um café-concerto, onde vai funcionar, a partir de agora, uma galeria de arte (da qual fui o seu director) com o seu nome (Bar Stuart – Hotel Impala propriedade do cineasta Paulo Rocha), um espaço vocacionado para a caricatura e ilustração.

                Stuart Carvalhais (Vila Real 1887 – Lisboa 1961) é um vila-realense que viveu Lisboa através da sua arte e da sua vida. Artista boémio, a sua arte será o espelho da sua vida, da sua vivência com o mundo, seja ironizando-o, criticando-o ou ilustrando-o com amor.

                Tendo começado a sua actividade como aprendiz, no estúdio de azulejaria de Jorge Colaço, em breve se dedicou à caricatura e humorismo gráfico, manifestando de imediato uma independência e originalidade de traço, que ao ser envolvido pelo movimento modernista, o catapultou para os principais periódicos, como um dos artistas da «nova vaga».

                Este espírito «vanguardista» que se respirava entre uma certa juventude, levou-o a Paris, a cidade das artes, das novas experiências estéticas, e aí triunfou como caricaturista. Num ano, impôs-se nos principais jornais. Um ano que o marcaria para toda a vida.

Por razões pouco claras, em 1914 teve de regressar para este país onde reina a mediocridade, trazendo consigo a saudade, a frustração da oportunidade perdida em vir a ser «alguém».

                Em Portugal, o artista-boémio retomará o seu trabalho, dispersando-se seja pelos jornais políticos (republicanos, antirrepublicanos, monárquicos, sidonistas…), jornais infantis, de arte e decoração, ilustração, de caricaturas….

                Assim como é difícil definir as suas tendências polícias, também o é no campo estético. Stuart tanto foi um tradicionalista da escola rafaelista, como um modernista, um vanguardista… variando o seu traço consoante o gosto, ou simpatia, do destinatário da obra. Caricaturista, humorista, banda-desenhista, ilustrador de livros, de capas de música, cenógrafo, pintor… ele soube dar ao público o que este, em cada momento, desejava (talvez esta uma das razões para não ser um «consagrado»). Não se pode dizer que se vendia ou que se comercializava, num intuito fácil, simplesmente agradava, para poder sobreviver, para ter dinheiro para uma «bucha» e um «copo de três».

                «Ser artista é ter talento, possuir garra, ser condecorado /…/. Eu não, nunca pintei nada /…/, faço bonecos para distrair a fome. /…/ Artista são os outros». (do «República» de 13/12/1940).

                Ele nunca compreendeu o seu próprio valor (salvo quando esteve em Paris), por isso, sempre trabalhou como um simples operário da imprensa, para ganhar o dia-a-dia e, gastando-o no prazer do dia-a-dia. Ele era um simples, tal como o eram os modelos que ele mais gostava de retratar – os vagabundos, os bêbados (em que ele se refletia), os ardinas, os putos, as prostitutas e seus «cães vadios», as costureirinhas, as varinas, os gatos…. Pintados a óleo, aguarela ou a crayon. Ele transmitia carinho, amor por essa gente que vivia com ele a mesma cidade. Mesmo quando o humor e a sátira estão presentes, nunca é de forma a ofender o povo. Por isso, não só o seu traço era célebre entre os leitores de jornais, assim como a sua personagem o era entre o povo «castiço», ou entre as gentes da noite.

                Se o seu espírito brejeiro tornou célebre as pernas das varinas, a sensualidade do andar das costureirinhas, a cumplicidade das prostitutas, a irmandade dos pequenos ardinas, não menos célebres foram os seus personagens – Quim e Manecas, Zé Manel, Cocó, Reineta e Facada…. entre a camada mais jovem.

                As suas bandas desenhadas foram, não só, das mais interessantes realizadas entre nós na sua época, como pioneiras na utilização de módulos que já caracterizavam os comic americanos e que depois se universalizaria.

                Falava eu há pouco do óleo, aguarela, crayon? Termos «finos», para falar dos materiais que utilizava. É verdade que os encontramos em obras suas mas, na maioria das vezes, ou não havia dinheiro para os comprar, ou não os tinha presentes no momento de inspiração. Então, nesses casos tanto servia qualquer tinta, como borras de café, graxa, fósforo queimado, remédios… , se apesar da diversidade estilística, existe uma constante stuartiana, o efeito «pau de fósforo» é a assinatura mais marcante de Stuart. Com um canivete (ou com os dentes), Stuart fazia de um pau de fosforo um pequeno pincel e, como ele, traçava obras inconfundíveis da sua arte e mestria. Meia dúzia de traços mal definidos, eram o suficiente para retratar a dor, o amor, a miséria, a alegria, a vida de um povo conhecido como lisboeta.

                Stuart poderia ter sido um caricaturista internacional, poderia ter sido um mestre do modernismo português, poderia ter sido…. Mas foi simplesmente um artista boémio, talvez o último da velha guarda, que retratou a velha Lisboa, não a dos prédios novos, mas a do que restava do velho casticismo, da que restava do orgulho de ser «alfacinha». Stuart foi simplesmente, um artista popular.


A CARICATURA DOS DESGOVERNOS por Osvaldo Macedo de sousa (in Diário de Notícias de 23/6/1985)

A política governamental, desde as mais remotas épocas, tem sido apresentada como um circo onde todos tentam devorar-se uns aos outros no intuito de ficarem sozinhos no poder, mas quem acaba sempre por ser devorado é o Zé-Povinho. A permanência ou a queda, são um jogo circense.

Os Governos através da caricatura aparecem-nos como: uma pa1haçada; polichinelos manobrados por cordelinhos invisíveis; ilusionistas que através de truques enganam o Zé-Povinho; saltimbancos que saltam entre os arcos da «Rethorica Pitoresca» enquanto fazem «Cambalhotas Gramaticais»; trapezistas que se passeiam pelo ar, ou que andam no arame, arriscando-se que a corda fique bamba e caiam. Quando um caí, de imediato outro lhe toma o lugar.

O caricaturista como porta-voz do Zé, é oposição à oposição e ao Governo, porque segundo os adágios e provérbios do "Pontos nos ii" (RBP – 11/9/1880), «de Deus vem o bem, e do governo vem o mal»; «Quando o povo diz ai, o Governo diz, daí». São oposição porque os Governos «são como aqueles ferreiros de capelistas: quando o Governo X está no Poder, o povo é sempre um arruaceiro que precisa de guarda municipal como de pão para a boca, ao passo que o Governo Y lhe chama povo livre que pretende zelar os seus interesses. Desce o Governo X e sobe o Governo Y; ê logo este quem fornece guarda municipal aos arruaceiros e àqueles que aplaudem o procedimento do povo soberano. Por isso se vê que o Zé-Povinho tem nos governos /…/ duas parcialidades que o aplaudem e o zurzem - alternadamente,  para não cansar a braço. Em vendo alguém a dar-lhe palmas, já sabe que amanhã lhe dará pancada». (RBP, in "Pontos nos ii” 7/4/1885).

O político, na caricatura, não é de fiar, porque não passa de um bailarino que de pirueta em pirueta salta de trapézio em trapézio - «Homem, eu sou republicano é verdade e sirvo os progressistas, mas, parece-me, que os regeneradores ainda ficam… Estou capaz de me passar para eles…» (Sebastião Sanhudo. in “Sorvete" 29/9/1878).

Um baile com cada um à procura do seu par ideal do momento - «Demissões, nomeações, transferências, substituições, eis a cena em que perdem os nossos amigos de Ontem e ganham os nossos amigos de hoje.» (RBP. in «Pontas nos ii, 15/4/1886 ).

Destes bailados nascem os governos eleitos pelo povo, a troco de «carneiro com batatas». Em princípio, estes devem governar o melhor possível, seguindo de perto o programa apresentado ao eleitorado, mas, estando no Poder o fundamental para os governantes é aguentar o máximo de tempo, mesmo que seja necessário fazer ginástica - «Encontramos a verdadeira denominação para o actual Governo: - Um governo de cauchu. É muito maleável. Estende-se ou encolhe-se, conforme a situação. É um perfeito governo de cauchu, porque apertado, espremido, entalado e achatado até à última pela oposição, comprime-se, geme, chia, barafusta e encolhe-se até às menores dimensões. Largam-no convictos de que ficou amassado de vez, estende-se, grita (salta por cima de todas as considerações, ficando novamente aprumado.» (Almeida e Silva in «Charivari», 22/6/1889).

Os governos de cauchu são bonecos «sempre em pé», porque pirueta para um lado, pirueta para outro, mesmo desgovernando, conseguem manter como que por magia o equilibrismo.

Quando há governo há oposição, e toda e qualquer oposição tem como primeiro objectivo derrubar o governo na ideia de o substituir nos malabarismos e ilusionismos políticos. No fundo, é um jogo de forças no cai não cai. Pode cair através de eleições, a forma mais natural, mas também pode cair porque pressionado pela oposição ou pelo povo, uma força superior ao governo, alguém entalado entre os dois lados tem que tomar a decisão:

«Uns pedem-me que conserve o governo: devia empregar o vinagre para a conserva. Outros pedem-me que o faça cair, devia empregar o azeite para ele escorregar... Para satisfazer a ambos vai azeite e vai vinagre, e vai salsa, e vai cuentro, e assim arranjo uma salada para os assados em que me vejo.» (RBP. In “Pontos nos ii", 15/3/1888). .

Quem cai sempre é o Zé-Povinho, porque, hipnotizado volta sempre a colocar os mesmos polichinelos no governo, e a razão, segundo o caricaturista Sebastião Sanhudo é que o «povo português é exactamente da índole do boi. Uma criança qualquer o conduz aonde deseja sem que ele saia da sua mazorice habitual. Não é como o couraçado Pimpão: que se apertam muito com ele -  estoira. Nem como a nossa guarda municipal que esmaga tudo quanto encontra diante de si... em certas ocasiões. O povo português é como o boi de trabalho, tem força mas não sabe que a tem. É preciso picarem-no tanto para ele andar mais um pouco...» (in "Sorvete” 16/7/1882).


Sunday, November 22, 2020

«O Exílio político de Leal da Câmara – Exposição com um desconhecido chamado Picasso» por Osvaldo Macedo de Sousa (in revista «História» nº 71 de Setembro de 1984)

Certamente que o nome de Leal da Câmara não é estranho aos leitores desta revista, e todos, ou quase todos, sabem que foi um dos nossos grandes caricaturistas do passado. Nasceu em Nova Goa (Índias Portuguesas) a 30 de Novembro de 1876, filho de um oficial expedicionário, e de uma senhora pertencente a uma das famílias mais importantes da Índia Portuguesa.

Poucos anos permaneceu na colónia, e passou a sua vida de estudante em Lisboa, na companhia da mãe, então já viúva. A sua educação, no fundo, provém do meio tradicionalista da vida lisboeta, da sua família de burguesia acomodada e do espírito revolucionário que pairava no ar, levando o povo a reclamar as promessas do “Mindelo”, onde seu avô paterno tinha sido um herói.

Apesar destes antecedentes heroico-revolucionários e do ambiente fervilhante à sua volta, a família queria para Tomáz Júlio Leal da Câmara uma educação e uma carreira dentro da tradição da boa burguesia, levando-o a cursar Agronomia e Veterinária. Só que nem sempre os desígnios maternos podem ser cumpridos, e neste caso, o seu espírito boémio e «revolucionário» foram mais fortes, tendo-se mantido naqueles estudos apenas um ano, voltando-se para o desenho, uma das suas paixões de sempre, e para a sátira, fruto da sua adolescência irreverente.

Pelos anos 90 (de oitocentos) já D. Carlos era Rei e a política, quer a continental quer a colonial, continuava a ser contestada, tanto pelos grupos da oposição parlamentar, como pelos grupos socialistas, anarquistas ou republicanos e, Leal da Câmara integra-se nestes últimos, servindo-os com o seu lápis agudo e perspicaz.

A ESTREIA DE LEAL DA Câmara       

Em 1896 João Chagas começa a dirigir o jornal «A Marselheza» (que se deveria chmar «República» não fosse a proibição oficial)), ao qual, a partir de Novembro de 1897, se lhe agrega um «Suplemento de Caricaturas» ilustrado por Leal da Câmara. Sem este acontecimento, provavelmente nunca a «Marselheza» tivesse a fama com que ficou para a História, pois foi graças ao tal suplemento que este periódico ganhou a «glória» de ser «o jornal de maior circulação em todo o Governo Civil».

Leal da Câmara já era conhecido do público através das suas caricaturas nos «D. Quixote» e «Ridículos» (1896/7), mas será através da «Marselheza» (e depois do desaparecimento desta, da «Corja»), que o seu cunho satírico se encarniçaria contra o Rei e seus ministros, contra o Juiz Veiga (representante da opressão policial a jurídica do Governo Civil), contra o regime encarnado mais tarde por um chapéu à Mazzantini.

A caricatura existia em Portugal desde os anos 50 (a nível periódico), e tinha tido entretanto grandes mestres do humor e da sátira, como Cecília (Lopes Pinta-Monos), Raphael Bordallo Pinheiro, Sebastião Sanhudo, Celso Hermínio… e se estes sempre atacaram a política, os reis…., se Costa Cabral, Fontes Pereira de Melo…. Foram alvo de centenas de caricaturas, nunca um caricaturista em Portugal tinha atacado com tanta frontalidade e sátira os políticos e, essencialmente o Rei, como Leal da Câmara. Esta sua agudeza de crítica valeu-lhe, não só a fama entre um certo público, como no Governo Civil e, consequentemente uma constante perseguição policial aos seus trabalhos, multas, apreensões e finalmente a proibição de caricaturar o Rei.

Mas, esta proibição, para um bom caricaturista, não é um impedimento, antes pelo contrário e, como já tinha feito o francês Philipon há uns bons 50 anos antes, tal figura foi substituída por símbolos que não só o identificavam, como o transformavam em melhor alvo do riso.

As querelas iam aumentando, mudou o nome do jornal, continuaram as perseguições, e em Outubro de 1898, perante a preensão de mais um número de «A Corja», Leal da Câmara manda imprimir e distribuir gratuitamente uma folha onde um ardina, tentando vender «A Corja», fugia de um «fagulha» (polícia) com o seguinte texto como legenda: «À hora a que escrevemos este Suplemento a polícia está apreendendo o nº17 da Corja. A polícia mandada pelo agente Fagulha entra nas lojas e apreende todos os exemplares.

Os nossos vendedores são presos.

O público que faça o comentário a este facto, passado numa cidade onde se acaba de fazer um congresso a favor da liberdade de imprensa».

Esta atitude foi a gota de água que a polícia procurava e, perante esta facto manda proibir «A Corja» e lança um mandado de captura ao autor destes trabalhos agitadores e subversivos.

Leal da Câmara, ao ser prevenido a tempo dos preparativos da polícia e suas intenções, abandonou Lisboa e refugiou-se no Cartaxo, na casa do seu amigo dr. Marcelino Mesquita. Aí permaneceu uns dias, mas em vista das más notícias, vindas da capital, e dos conselhos dos amigos, viu-se na necessidade de partir para o exílio, sendo deste modo, o primeiro artista gráfico, o primeiro caricaturista, a exilar-se devido à sua obra artística.

EXÍLIO EM MADRID

Partiu para Madrid, na esperança de poder regressar em breve, mantendo por isso contactos directos com os amigos e durante um breve tempo com os seus leitores, através do jornal «O Diabo», periódico dirigido por Diamantino Leite (que também fazia caricaturas). Aí, durante os últimos meses de 1899, foram publicados alguns trabalhos de Leal da Câmara, que este enviava de Madrid (nos quais prosseguia o mesmo espírito e estilo agressivo, mas talvez um pouco mais matizados pela distância). Esta colaboração foi reduzida. Desde então, e até à queda da monarquia, só virá a publicar em Portugal alguns, poucos, trabalhos e já quando a morte desta estava diagnosticada.

Leal da Câmara partia para Madrid, com a simples intenção de aí esperar que os ânimos se acalmassem, e que o seu regresso (em segurança) se pudesse realizar de um momento para o outro, mas os meses foram passando, e em vez do perdão, as notícias que foram chegando diziam que tinha perdido todos os direitos cívicos e que se regressasse, podia ser deportado para Timor, sem a necessidade de qualquer outro tipo de processo.

Mas, enquanto o nosso artista esperava o seu regresso, qual foi a Espanha que ele encontrou? Uma Espanha em guerra contra os movimentos independentistas das suas colónias, ou contra o desejo imperialista de outras potências; uma Espanha destruída pelas guerras Carlistas que dividiram durante quase um século, os espanhóis numa mini guerra civil; uma Espanha feudal, governada por uma oligarquia e pelo caciquismo; uma Espanha pobre, material e espiritualmente, que no fundo não se diferenciava muito de Portugal.

A nível de caricatura, havia em Espanha uma maior preferência pelo humorismo de cunho pitoresco e costumbrista (como nas Zarzuelas), e com raras paixões, pela sátira caricatural. O povo espanhol tem uma tendência natural para este estilo de humor social e político, porque sabe que quando não se autocensura, cai na crítica agressiva, na sátira do excesso. Por isso, apesar desta também existir, procuram temperar o seu gênio «sanguíneo».

Leal da Câmara chega a Madrid de «sangue na guelra», cheio de agressividade por um regime que não lhe deu liberdade de imprensa, nem de expressão, mas curiosamente vai imediatamente cair numa autocensura da ironia, em que permaneceria durante todo o seu exílio, com a tal excepção dos desenhos que ainda em 1898 mandou para «O Diabo».

Tendo ido para Madrid com a ajuda monetária de amigos, o nosso exilado viu-se na necessidade imediata de arranjar dinheiro, e neste caso o melhor é procurar trabalho. Eis as notícias que envia a sua mãe, sobre estes problemas: «Minha querida Mamã: não me guarde ressentimento. Ainda não saíram dos desenhos nos jornais em que lhe falei, mas vão sair. Eu lhos mandarei. Nesta semana publico uma caricatura no «El Album». Trata-se duma revista de certa voga, e o meu caricaturado é Benavente, dramaturgo célebre. Dou-me bastante com ele. Neste mesmo instante estamos lado a lado no café, eu escrevendo, ele botando chalaças. Os jornais em que colaboro são: Revista Vinícuola, La Nacion Militar, El Álbum e La Vida Literaria. Pouco a pouco, como uma formiga rabiga, voi criando nome e subindo em crédito. No próximo número da Vida Litaréia vem uma caricatura que reputo do melhor que tenho feito até o dia de hoje. É a pastel, matéria que acho optimo e vou adoptar doravante.

Quando a finanças, estão mal, mas tenho esperança que hão-de melhorar

MUITOS ELOGIOS – POUCO DINHEIRO       

A recepção a Leal da Câmara pelas tertúlias intelectuais, e mesmo pelo público não podia ter sido mais calorosa. Por exemplo, quando começa a sua colaboração na Vida Literária, ao seu primeiro desenho juntaram-lhe ali esta apresentação cheia de graça e carinho: « S.M. El Diablo – Tenho o gosto de vos apresentar o distinto desenhador português Sr. Leal da Câmara que se encontra em Madrid em consequência de diabruras políticas, o qual se propõe continuar nesta corte a sua campanha caricaturesca, sempre na companhia do diabo, “cicerone” insubstituível para percorrer Madrid nestes tempos de Aguilera». 11/2/1899.

Também o «El Álbum» faria uma apresentação interessante do nosso artista, quando este começou a colaboração naquele jornal (7/7/1899): «Já todo o mundo conhece o caricaturista original, o seu nervoso e estranho regozijo, o seu critério extravagante e raro.

Em periódicos e revistas populares tem feito célebres os traços estupendos, diabólicos, singularmente bufos do seu lápis, e tem revelado um aspecto, uma eloquência, uma sensação da linha que não conhecíamos aqui.

Os “bonecos” de Leal são uma “zancada”, um cómico 2Trapiés” da humanidade, vazia de juízo, pela estrondosa alegria, pela forte travessura desse especial artista que surpreende em todos os perfis, em todos os requebros da linha o picante começo de uma gargalhada estrondosa.

É saneamento satírico; as suas caricaturas, mesmo as mais travessas, não crucificam o paciente, porque fazem rir sem ferir, rir sem desprezo e sem ódio.

Leal da Câmara tem entre nós um futuro brilhante, porque tem um brilhante e original talento».

O futuro poderia parecer brilhante a nível de trabalho, de glória, já que os elogios provinham de todos os lados, mas a nível monetário, não se verificavam as mesmas perspectivas brilhantes: «O problema da minha vida em Espanha – escreve ele a sua mãe – está posto em termos bem claros. Revolvê-los agora é questão de tempo e paciência. Mas a paciência não é o meu forte. Tenho trabalhado como um moiro. Fiz caricaturas sobre caricaturas, algumas de pessoas virgens para essas celebrações, tanto a pastel como óleo, estudadas do natural, que merecem o elogio, entre outros, de Sorolla, Moreno Carbonero, Benlivre. /…/ o êxito dos meus pasteis foi estrondoso no meio intelectual; só há um contra, um grande contra: ter de trabalhar de graça /…/ tanto aqui como em Barcelona e Valência, críticos de certa categoria fizeram charlas e conferencias acerca da caricatura em geral e da minha maneira em particular. /…/ O que preciso é lutar mais, redobrando os esforços, dando um pouco de mão aos periódicos que pagam mal… quando pagam, e preparar desde já nova exposição».

Assim, na permanência em Madrid, para além das caricaturas de personalidades (intelectuais por vezes tão tesos como ele e que por isso não pagavam), dos desenhos humorísticos de tipo pitoresco e costumbrista para os jornais, não encontramos já a sátira política com a agressividade conhecida na «Marselheza» e na «Corja». É natural que Leal da Câmara, como estrangeiro e exilado, não se sentisse tão à vontade em Espanha como em Portugal para satirizar a política, mesmo assim poderemos encontrar uma única caricatura referente ao que se passa em Portugal (Insomnias Reales), que tem um tom bastante moderado, ou então uma ou outra caricatura de cunho internacional, começando deste modo a sua campanha (que prosseguirá com toda a força em França), contra a cobiça imperialista, nomeadamente contra a Inglaterra, Os Estados Unidos da América e contra a Alemanha.

EXPOSIÇÃO COM PICASSO   

Além destas publicações, realizou também uma exposição, a referida na carta à mãe, mostra esta que não foi individual, mas na companhia de mais dois artistas: um grande humorista espanhol – Sancha e um outro artista espanhol, não humorista, mas um simples desconhecido que procurava ainda a sua identidade, o seu caminho – chamava-se Pablo Picasso. A exposição realizou-se na Galeria Weil. Sancha quase se poderá considerar como um seu discípulo porque, se esta influência estética se poderá verificar em todo o meio humorístico espanhol (e em Portugal, após o seu regresso do exilio), na realidade a influência mais marcante seria neste artista que o acompanharia em Paris.

Leal da Câmara estava satisfeito pelo que tinha conseguido realizar num ano de permanência em Madrid, mas perante a constatação que não podia mesmo regressar a Portugal, perante as dificuldades económicas que representava o trabalhar em Espanha, começou a sonhar com a mudança de residência de exilado para a capital das artes – Paris – onde a fama e o desafogo económico seria mais fácil para quem tinha talento.

«E olhe – escreve ele à mãe- andava há muito a acariciar a ideia duma passeata a Paris. A estada ali de uns meses só podia fazer-me bem e seria o coroamento feliz dos meus esforços. /…/Tudo isto vem de introito a eu querer-lhe dizer que o “Imparcial”, a maior gazeta de Espanha, me propôs ir a Paris fazer umas crónicas semanais para os suplementos das segundas-feiras, consagrado às letras. /…/ De Paris enviarei o endereço que é muito possível seja este…. É onde mora Sancha».

Tendo chegado a Madrid no final de 1898, partiu para Paris no princípio de 1900. Aqui consumiu portanto, um ano de exílio, partindo depois para mais onze anos em Paris. Mas, Madrid não foi só o início do seu exílio político, foi também o começo da sua fama no estrangeiro: em Paris, trabalhando para os principais jornais da época («L’Assiette au Beurre», «Rire», «Sourire», «Vie Parisienne») ganhou o reconhecimento internacional do seu talento.

Em Paris, o seu traço satírico dedicar-se-á fundamentalmente à politica internacional, com crítica ao espírito imperialista.

Entretanto, em 1908, pôde começar a enviar do exílio alguns trabalhos para serem publicados em Portugal (no Século) e em 1911 pode finalmente regressar. Aqui continuará por algum tempo a sua actividade de caricaturista em diversos jornais, começando entretanto uma nova vida de conferencista e de professor (actividades que já ensaiava em Paris).

Voltaria, porém, uma vez mais a Madrid, agora para fazer uma série de entrevistas para o jornal brasileiro «A Noite» (em 1915) sobre a posição dos intelectuais e figuras de destaque perante a posição de Espanha na Guerra Mundial. Fará também uma série conferências, publicará algumas caricaturas em jornais espanhóis e acabará por publicar um livro sobre essa viagem chamado «Miren Ustedes».

Regressando a Portugal, manter-se-à por pouco tempo no mundo do humorismo e da caricatura, para se dedicar preferencialmente á pintura costumbrista ou bucólica, ou à ilustração de livros e revistas, com preferência pelas historias infantis.

Para esta nova vida, retirou-se para o seu canto da Rinchoa (lá existe ainda o seu belo museu) onde construirá um dos últimos redutos do mundo saloio. Viria a morrer em 1948.


Saturday, November 21, 2020

«Amadeu de Souza-Cardoso, as suas origens e a caricatura» por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de 2/6/1985)

Considera-se normalmente a primeira fase, as origens de um artista, como pertencente ao mundo «anedótico» das biografias. Só que nem sempre assim se pode encarar e, em Portugal, entre os modernistas, as origens são um período de especial interesse, como foi o caso de Almada Negreiros, Jorge Barradas, António Soares, Carlos Botelho…. Amadeu de Souza-Cardoso. Estas origens, que se individualizam na obra geral, estão ligadas à caricatura, não por uma pseudo facilidade artística mas, porque como dizia Leal da Câmara «a caricatura ia na vanguarda».

Amadeu de Sousa Cardoso é um transmontano nascido em Amarante a 14 de Novembro de 1887. Filho da alta burguesia transmontana, teve uma educação esmerada, e quando chegou o «tempo», optou pelo estudo da Arquitectura. Um ano em Coimbra e outro em Lisboa, bastaram para o convencer da nulidade do ensino neste país. A alternativa consistia pois procurar nova profissão, ou prossegui-la noutro país.

Paris, a «cidade de sonho», onde a boémia, o prazer, o dinheiro e as artes dominavam, foi o lugar eleito por Amadeu (1906), uma escolha igual à de tantos outros artistas do mundo inteiro.

Apesar de a Arquitectura ter sido a opção oficial para um curso académico, já há algum tempo que a sua mão procurava outras formas de expressão, procurava a linha, a linguagem do traço, a caricatura como síntese da expressão. Um estudo iniciado em Portugal, prosseguido em Paris, mas sempre com o apoio conselheiro do seu grande amigo e poeta Manuel Laranjeira: «Eu compreendo porque você tem falhado todas as vezes que tenta caricaturar-me, meu amigo, e vou dizer-lho. É porque você ainda está na idade em que se não ri das coisas tristes, você toma-se muito a sério, e quando tenta caricaturar-me, o lado sombrio da criatura que se estorce dolorosamente em si mesma” avulta no seu espírito; e você, que não sabe nem pode rir-se de uma coisa assim, falha – tem de falhar. Eu, se soubesse desenhar como você, creio que fazia a minha caricatura em dois traços singelos e estou certo que o faria profundamente grotesco e doloroso». (Carta datada de Espinho 24 de Abril de 1906).

«Esplêndido, repito: você está de dia para dia adquirindo mais vigor e sobretudo mais sobriedade no desenho. É de resto uma evolução natural, que eu previ quando há dois anos, mal você balbuciava a linguagem das linhas, o aconselhei a desenhar, a desenhar, a desenhar muito, a desenhar sempre. Para entrar na posse plena de uma língua é preciso falá-la, falá-la sempre, sem desânimos, sem cansaços, obstinadamente. O desenho é uma língua também com uma estrutura própria que se adquire trabalhando, trabalhando infatigavelmente». (Carta datada de Espinho 23 de Outubro de 1907).

Amadeu partiu para as artes como que numa luta pelo domínio da linguagem gráfica, procurando não só o domínio técnico mas também da vida, trabalhando tanto a «mimese» naturalista como o retrato profundo, e por vezes grotesco que é a caricatura.

Não são muitas as obras humorísticas ou caricaturais de Amadeu, mas das poucas que se conservaram denota-se uma evolução (a tal que Laranjeira testemunha), um crescer de exteriorizações estéticas, conseguindo autenticas pequenas obras-primas da caricatura.

Denotam-se influências, para além dos conselhos de Laranjeira? Bem, em Portugal naquela altura ainda o naturalismo pictórico era rei e senhor e, na caricatura, a escola rafaelista (ou bordalliana) dominava, mas já tinham havido algumas dissidências como Leal da Câmara ou Celso Hermínio. Estes tiveram certamente influência no traço caricatural de Amadeu. As suas obras são como que uma fronteira entre essas «ilhas» gráficas do mar rafaelista, e a futura onde do modernismo dos anos dez.

Quando os anos dez chegaram, já Amadeu de Souza Cardoso estava longe da caricatura, tinha partido para novos mundos gráficos, talvez um pouco exóticos segundo alguns, e que no fundo são fruto daquela filosofia de trabalho impulsionada pelo amigo poeta, e que o levou, de 1906 a 1911, à busca das formas, conquistando assim o seu lugar na revolução estética do nosso século.

A partir de 1912, com a complementação pela cor, Amadeu precipita-se na «conquista da arte», a febre da pesquisa domina-o. A revolução está na destruição das escolas, e ele ultrapassa-as: «/…/ as escolas estão mortas. Nós, os jovens, procuramos a originalidade. Eu sou impressionista, futurista, abstracionista, de tudo um pouco». (1916, in entrevista no Primeiro de Janeiro). Procurará a modernidade de Baudelaire: «La modernité c’est le transitoire, le fugitif, le contingente, la moitie de l’art, dont l’autre moitié est l’eternel et l’immuable». Trabalhará todas as correntes estéticas do seu tempo, dará o seu contributo e abandoná-las-á. Teve a necessidade de tudo fizer nos seis anos de vida que lhe restavam. Mostrou o seu valor, mas não o pôde desenvolver, pois viria a morrer a 27 de Outubro de 1918 (com a pneumónica - pandemia da gripe espanhola)


A CARICATURA DOS DESGOVERNOS por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de 23/6/1985)

A política governamental, desde as mais remotas épocas, tem sido apresentada como um circo onde todos tentam devorar-se uns aos outros no intuito de ficarem sozinhos no poder, mas quem acaba sempre por ser devorado é o Zé-Povinho. A permanência ou a queda, são um jogo circense.

Os Governos através da caricatura aparecem-nos como: uma pa1haçada; polichinelos manobrados por cordelinhos invisíveis; ilusionistas que através de truques enganam o Zé-Povinho; saltimbancos que saltam entre os arcos da «Rethorica Pitoresca» enquanto fazem «Cambalhotas Gramaticais»; trapezistas que se passeiam pelo ar, ou que andam no arame, arriscando-se que a corda fique bamba e caiam. Quando um caí, de imediato outro lhe toma o lugar.

O caricaturista como porta-voz do Zé, é oposição à oposição e ao Governo, porque segundo os adágios e provérbios do "Pontos nos ii" (RBP – 11/9/1880), «de Deus vem o bem, e do governo vem o mal; «Quando o povo diz ai, o Governo diz, daí». São oposição porque os Governos «são como aqueles ferreiros de capelistas: quando o Governo X está no Poder, o povo é sempre um arruaceiro que precisa de guarda municipal como de pão para a boca, ao passo que o Governo Y lhe chama povo livre que pretende zelar os seus interesses. Desce o Governo X e sobe o Governo Y; ê logo este quem fornece guarda municipal aos arruaceiros e àqueles que aplaudem o procedimento do povo soberano. Por isso se vê que o Zé-Povinho tem nos governos /…/ duas parcialidades que o aplaudem e o zurzem - alternadamente, para não cansar a braço. Em vendo alguém a dar-lhe palmas, já sabe que amanhã lhe dará pancada". (RBP, in "Pontos nos ii” 7/4/1885).

O político, na caricatura, não é de fiar, porque não passa de um bailarino que de pirueta em pirueta salta de trapézio em trapézio - «Homem, eu sou republicano é verdade e sirvo os progressistas, mas, parece-me, que os regeneradores ainda ficam… Estou capaz de me passar para eles…» (Sebastião Sanhudo. in “Sorvete" 29/9/1878).

Um baile com cada um à procura do seu par ideal do momento - «Demissões, nomeações, transferências, substituições, eis a cena em que perdem os nossos amigos de Ontem e ganham os nossos amigos de hoje." (RBP. in «Pontas nos ii, 15/4/1886 ).

Destes bailados nascem os governos eleitos pelo povo, a troco de «carneiro com batatas». Em princípio, estes devem governar o melhor possível, seguindo de perto o programa apresentado ao eleitorado, mas, estando no Poder o fundamental para os governantes é aguentar o máximo de tempo, mesmo que seja necessário fazer ginástica - «Encontramos a verdadeira denominação para o actual Governo: - Um governo de cauchu. É muito maleável. Estende-se ou encolhe-se, conforme a situação. É um perfeito governo de cauchu, porque apertado, espremido, entalado e achatado até à última pela oposição, comprime-se, geme, chia, barafusta e encolhe-se até às menores dimensões. Largam-no convictos de que ficou amassado de vez, estende-se, grita (salta por cima de todas as considerações, ficando novamente aprumado.» (Almeida e Silva in «Charivari», 22/6/1889).

Os governos de cauchu são bonecos «sempre em pé», porque pirueta para um lado, pirueta para outro, mesmo desgovernando, conseguem manter-se como que por magia o equilibrismo.

Quando há governo há oposição, e toda e qualquer oposição tem como primeiro objectivo derrubar o governo na ideia de o substituir nos malabarismos e ilusionismos políticos. No fundo, é um jogo de forças no cai não cai. Pode cair através de eleições, a forma mais natural, mas também pode cair porque pressionado pela oposição ou pelo povo, uma força superior ao governo, alguém entalado entre os dois lados tem que tomar a decisão:

«Uns pedem-me que conserve o governo: devia empregar o vinagre para a conserva. Outros pedem-me que o faça cair, devia empregar o azeite para ele escorregar... Para satisfazer a ambos vai azeite e vai vinagre, e vai salsa, e vai cuentro, e assim arranjo uma salada para os assados em que me vejo.» (RBP. In “Pontos nos ii", 15/3/1888). .

Quem cai sempre é o Zé-Povinho, porque, hipnotizado volta sempre a colocar os mesmos polichinelos no governo, e a razão, segundo o caricaturista Sebastião Sanhudo é que o «povo português é exactamente da índole do boi. Uma criança qualquer o conduz aonde deseja sem que ele saia da sua mazorice habitual. Não é como o couraçado Pimpão: que se apertam muito com ele -  estoira. Nem como a nossa guarda municipal que esmaga tudo quanto encontra diante de si... em certas ocasiões. O povo português é como o boi de trabalho, tem força mas não sabe que a tem. É preciso picarem-no tanto para ele andar mais um pouco..." (in "Sorvete” 16/7/1882).


Friday, November 20, 2020

«Enrico Caruso: um “cartoonista” que… cantava ópera» por Osvaldo Macedo de Sousa (In revista «Historia» nº58 de Agosto de 1983)

Na «História» nº 54 foi publicado um artigo que nos falava de Enrico Caruso, o cantor de ópera italiano que no princípio do século fascinou os ouvidos do mundo e que ainda hoje persiste através da técnica do disco fonográfico. Nesse artigo, o estilo de cantar de Caruso é dissecado, assim como as suas habilidades «circenses» que ainda hoje predominam em parte do mundo operático. Ao lê-lo, lembrei-me de uma outra faceta deste grande artista, num campo em que foi injustamente esquecido.

 

Durante séculos, o homem do palco foi despreciado, assim como a sua arte. É que estes tinham como missão ridicularizar, ou dramatizar a vida, quer dizer, fazer de espelho deformador perante a sociedade, para que esta tomasse consciência do mundo. O actor era o diabo que encarnava os fantasmas da sociedade. Com a evolução das mentalidades, esse desprezo foi desaparecendo e, em muitos casos transformou-se em divinização. Esta mudança verificou-se pelo acompanhamento de introdução de «malabarismos circenses» no palco, em detrimento da interpretação pura.

Quando Caruso chegou è arte cénica vocal, já os «dandys» criavam, e perseguiam os «divos». Este, com o potencial vocal que tinha, depressa ascendeu ao Olimpo. Apesar disso, Caruso tinha escrito no seu destino que deveria pertencer a uma arte depreciada pela sociedade intelectual e, por isso, foi caricaturista.

Dir-me-ão certamente que isto não é correcto, visto existirem caricaturistas célebres (também divinizados) e, normalmente estes serem conhecidos pelos seus contemporâneos, mas não me dizem do rápido esquecimento a que estão votados. Senão vejamos: quem conhece as obras mestres de um Leal da Câmara, Celso Hermínio, Jorge Colaço, Jorge Barradas, Stuart Carvalhais, Francisco Valença?... e isto só para falar de alguns artistas portugueses pertencentes ao nosso século (XX).

A caricatura, assim como o «cartoon» de humor, é algo que encontramos nos jornais, os quais, depois de lidos se deitam fora. Por isso, é natural que os poucos segundos dispensados na leitura do desenho não deem ao homem/leitor a verdadeira dimensão desta arte. Mas, se a analisarmos bem, verificamos que é uma das artes mais genuinamente pertencentes a este século audiovisual. Enquanto artes que provieram de séculos anteriores, perderam a sua verdadeira função e se fossilizaram no mundo do comércio, outras nasceram ou recriaram-se para acompanharem a evolução do homem, e destas poderíamos falar do cinema, do vídeo, das artes gráficas… do humor.

O humor é um dos «humours» existentes no animal inteligente, que este ainda não conseguiu definir totalmente, mas que o realizou. Esta realização, encontramo-la manifestada nas artes de todos os séculos, contudo, seria a partir do século XVI que se manifestaria com maior individualidade nas artes gráficas. Nesse século e, fruto dos estudos fisiológicos, a «caricatura» revelar-se-ia em Itália. Da observação realista do físico humano, a caricatura passou a retratar os feitos e os sentimentos humanos.

O humor, como já referi anteriormente, foi um elemento «moralizador» através do Teatro e da Literatura, mas no século XIX, com o desenvolvimento da Imprensa, seria nesta que a arma humorística teria a sua máxima força. Assim, nos periódicos o humor e a caricatura começaram a relatar o mundo e a tentar dirigi-lo. O humorista e o caricaturista são artistas da pena que também têm de ser repórteres, psicólogos e «futuristas». Mas, a caricatura, o humor e uma derivação destes, os «comics», não foram só uma arte da politica e crítica social, mas também uma arma para chamar o leitor, para explicar o mundo ao analfabeto – em suma, para vender mais jornais.

No ano de 1903 (quase) todos os jornais eram ilustrados e, se um novo desenhador aparecia no mundo do jornalismo, passava despercebido. Assim, é natural que nesse ano não tenha sido notado o nascimento de uma nova «estrela» da ilustração. Era um caricaturista, não daqueles que desenhavam grotescamente o retrato de um indivíduo exagerando o nariz, ou as orelhas, ou… Caricaturar é fixar a pessoa sem ela posar, é «apanhar-lhe» os traços essenciais que dão vida ao corpo, que o caracterizam, que o individualizam das massas. Caruso era um caricaturista, e «nasceu» em Nova Iorque a 23 de Novembro de 1903.

Enrico Caruso já era celebre no mundo, como cantor. Radicara-se nos Estados Unidos da América. Quando 2ª 23 de Novembro de 1903 cantou pela primeira vez a ópera «Rigoleto» no Metropolitan Ópera House, recebeu uma carta a elogiar sua arte canora e, ao mesmo tempo, a pedir-lhe uma foto para ilustrar a crítica no jornal «La Folia» (um jornal da comunidade italiana de Nova Iorque). A resposta foi uma carta de agradecimento pelos elogios, mas também um pedido de desculpa por não ter a foto requerida. Por esse motivo, e para poder colmatar esta lacuna, enviava um «croqui» seu, da ópera «Rigoleto».

Este desenho fascinou o editor, Marziale Sisca e, após uma aproximação através da amizade e certamente invocando as «raízes» comuns, consegue que Caruso aceda a colaborar com uma certa periodicidade no «La Folia». Caruso cumprirá esse compromisso, mesmo quando a sua vida musical o afastava de Nova Iorque, utilizando para isso correios especiais. Nesta colaboração, a sua pena não retratou simplesmente o mundo do canto, ou músicos ligados ao espectáculo de ópera, mas também o mundo da dança, do teatro declamado, das letras, da pintura… E nem o mundo da política foi esquecido. Em conclusão, ilustrou o mundo cultural e social do seu tempo.

Mais tarde, também Joseph Pulitzer (um dos patriarcas e monopolistas do jornalismo norte-americanos) tentou a sua chance junto de Caruso, pedindo-lhe uma colaboração semanal para a sua cadeia de jornais, em especial para o «World». Mas Enrico recusou, apesar da verba oferecida pelos «cartoons» e apesar do preço pago pelo «La Folia» não se poder comparar com o oferecido. Caruso era assim: não gostava de trair uma lealdade e agradava-lhe fazer o que lhe dava na gana. Deste modo, nasceu e se desenvolveu um artista que durante dezoito anos deu a sua colaboração a «La Folia».

Se Enrico Caruso ganhou no seu tempo a glória como cantor, a sua arte do desenho não lhe ficou atrás, apesar de esta fama se ter localizado nos USA. Claro que todos os seus amigos conheciam e admiravam a sua arte no desenho, e o seu humor que tantas vezes lhes obsequiava com a sua alegria de viver, como através de desenhos que ele espontaneamente fazia em envelopes, menus e outros papeis que encontrava à mão. O humor era uma constante do seu carácter.

Para Caruso, a caricatura era uma arte requintada e aristocrática, já que é o fruto da síntese das formas humanas. Para além disso, o estilo de Caruso pertence à «linha decorativa» que tem dominado os caricaturistas de todo o mundo. Este provém do barroquismo das artes gráficas do final do século passado e brilhou na «Arte Nova», no «Deco» e outros estilos ligados à ilustração e que ainda hoje subsistem. Apesar deste estilo predominar, podemos encontrar experiencias que testemunham os vários movimentos revolucionários que fermentavam nas artes de então.

Voltando ao pensamento de Caruso sobre a caricatura, será interessante transcrever a resposta que ele deu a Michel Sisca (o filho do editor) sobre como fazia a caricatura: «Para mim é muito fácil. A única coisa que deves fazer é seleccionar os traços predominantes da cara, e trabalhar sobre esses traços e encontramos a caricatura». Esta é uma análise muito simplista desta arte, porque se assim fosse,  qualquer um podia ser um génio da caricatura, o que não acontece. Esta definição compreende-se como uma explicação a uma criança, ou então como a simplificação de uma arte facilitada por uma mão genial.

Enrico Caruso, como caricaturista, morreria 16 dias antes da sua morte física, ao terminar a sua obra «Giovanni Grasso, actor». Morreu o homem e quase morreria o caricaturista, não fosse o filho do seu editor querer ressuscitar este grande artista, publicando o espólio pertencente ao jornal «La Folia». Se Caruso mantém a sua celebridade, pela sua voz que ficou gravada no fonógrafo, também deve reconquista-la no campo da caricatura, através dos originais que saíram da sua mão.


«Amarelhe - O Teatro na Caricatura» por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de 24/3/1985)

No novo Museu do Teatro, Amarelhe – o caricaturista da gente de teatro, encontrou finalmente a sua casa, o Museu adequado para a sua obra, já que toda a sua vida foi dedicada ao teatro, fixar em traços caricaturais, as «máscaras» dessa gente que vive para criar, ou reviver, no palco a vida dramática, trágica ou cómica do nosso mundo.

A relação entre o teatro e a caricatura perde-se no tempo, e o próprio símbolo iconográfico desta arte é já um exemplo de caricatura: duas máscaras (exageradas) caricaturais que representam a estilização da dualidade da vida – a comédia e a tragédia.

A máscara de suma impotência no teatro, é algo que é explorada por todos os povos, seja nos considerados primitivos, seja nos «civilizados»; seja em representações iniciáticas, seja na dramaturgia e até no quotidiano. Estas máscaras, construídas com um profundo cunho caricatural (na sua essência), tem não só uma missão iniciática, religiosa… mas também de instrumento de poder, de terror, de conjuração ou de expiação. A máscara é um esforço para dominar o Cosmos, uma tentativa de poder.

O sentido caricatural desta máscara não o humor clássico contra a sociedade e seus erros mas, fundamentalmente, contra o mundo da natureza que o rodeia, que o tenta oprimir, dominar, e que lhe mete medo. A máscara é então um meio de vencer a vida e a morte.

Por todos estes motivos, a máscara perdurou através das civilizações, perdendo, porém, o poder de encarnar os deuses e demónios no homem, de lhe dar suas forças, não perdendo contudo o poder de exorcismo, que ainda perdura inconscientemente, seja nos chamados Carnavais, nas festas dos equinócios, ou nas festas populares, acompanhadas agora com um cunho mais cómico de libertação, de quebra de tabus da nova ordem social.

No campo do teatro (seja europeu, africano ou oriental) a máscara tem a função de síntese exagerada da personagem, é a concentração de certas características que nos dão a «caricatura tipo».

O caricaturista francês Grandville levou o sentido da máscara a uma expressão mais profunda, quando escreveu: «Põe a tua máscara e eu te direi quem tu és. A máscara foi dada ao homem para dar a conhecer o seu pensamento». Amarelhe, se nunca escreveu isto, interpretou através da sua arte, este pensamento.

Amarelhe, de seu nome Américo da Silva Amarelhe (de pai galego Amarelle), é um portuense que nasceu em 1892 e que desde muito jovem se dedicou à caricatura. A sua formação artística é fundamentalmente de cunho autodidacta, aprendendo através do que via nos jornais, aprendendo  com mestres como Raphael Bordallo Pinheiro, Leal da Câmara, Jorge Colaço… que dominavam os jornais de então.

Fez a sua primeira exposição na cidade do Porto, tendo ainda 14 anos. Já aí a sua arte caricatural foi reconhecida e incentivada, lançando-opara o desejo de profissionalismo. Por essa razão, em 1912 já o encontramos em Lisboa, incorporando-se no movimento humorista de exposições, que foram, em parte, responsáveis pela introdução do modernismo em Portugal.

Amarelhe teve mesmo uma presença marcante nestes primeiros Salões de Humoristas, não por questões estéticas, mas pelo número de obras apresentadas. No âmbito estético, a sua arte não estava no rango dos «vanguardistas» do movimento modernista, como estavam Christiano Cruz, Almada Negreiros, Emmérico Nunes…

O estilo de Amarelhe, com origem no rafaelismo, soube libertar-se do «barroquismo» dessa escola, mas não da sua tendência naturalista (apesar de, sempre que possível, em obras que não se destinavam à imprensa, explorar novos caminhos). Evitando e exageração agressiva, a exploração de irregularidades anatómicas desnecessárias, ele foi essencialmente um retratista de síntese. O retrato, para ele, não é o reflexo de uma imagem pelo espelho deformante, mas a «máscara» onde só aparecem os traços dominantes, a força da personalidade, o pensamento do retratado. Amarelhe, aliando a graça com o traço síntese, preocupa-se sempre numa busca da semelhança e da diferenciação – a semelhança física e a diferença psicológica.

A caricatura portuguesa nasceu com a sátira política e sempre tem vivido dela e com ela mas, Amarelhe foi uma das excepções, já que a sua caricatura não é de cunho satírico, mas de testemunho (divertido) de máscaras, de personagens. Sem qualquer interesse pelo que hoje se denomina por cartoonismo (apesar de ter feito charges politicas para sobreviver em alguns periódicos), ele é o artista do «portrait-charge».

Colaborador dos principais periódicos portugueses, desde muito cedo o seu interesse temático se dirigiu para o teatro, industrializando a sua arte no testemunho desse mundo de fascínio, de aparências. Por isso, hoje podemos descobrir várias gerações de artistas fixados pelo seu lápis caricatural.

Mas o teatro seria ainda mais dominante e, a sua carreira artística não se limitaria à caricatura, trabalhando como cenógrafo e decorador de telões, cartazes, painéis (quase todos eles não assinados e portanto sem testemunho para o futuro)…

A sua obra foi extensa, com múltiplas exposições, mas o mesmo não se poderá dizer da sua vida, já que morreu em 1947, com 55 anos de idade. Nesse mesmo ano realizou-se a sua ultima exposição (póstuma).


Thursday, November 19, 2020

′′ Memory of Caricature ′ Egypt 2021

 


Under the generous sponsorship of the General Authority for the House of National Books and Documents, the Egyptian Comic Association and Gallery Ubuntu, the project ′′ Comic Memory ′′ is pleased to invite Egyptian, Arab and foreign cartoonists to participate Their work at the ′′ Comic Memory ′′ site - the first Egyptian cartoon site - set to be launched on the th of March, coinciding with the celebration of Egyptian Comic Day.

Conditions to be met in business

- 300 quality fees.

- No more than 50 jobs.

The works are as diverse and inclusive as possible for all the age and artistic stages of the artist.

- The artist sends a resume in Word file no more than 500 words.

- The artist sends one or more self-portraits of high quality.

The artist preferably mention the name of the sent work, date and place of publication if possible.

- Business and suggestions are sent to the following email

- Memoryofcaricature2012@gmail.com

- Deadline for business dispatch December 31, 2020.


«O CARICATURISTA» por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Noticias de 5/5/1985)

«O mundo seria um manicómio; os humoristas apenas uma espécie de loucos, com fracção de juízo, para perceberem que também são loucos, como aliás os outros.» Afrânio Peixoto

O homem tem cinco sentidos para apreender o mundo, mas o caricaturista/humorista tem um sétimo sentido (já que o sexto é especial das mulheres) com o qual vê o mundo numa visão cósmica, superior, e da qual retira a força irónica ou satírica para o seu trabalho.

Claro que também se pode fazer humor ou caricatura/humor através da ordinarice, da pornografia de espírito, mas esse trabalho não provém do sétimo, mas da falta de sentido.

A visão universal do humorista dá-lhe a distanciação necessária aos acontecimentos contemporâneos, na mesma medida que os séculos a dão ao historiador. O humorista para ter essa análise objectiva, essa «fracção de juízo», tem que ser não só um bom técnico, um artista, mas também um sociólogo, um perito de política nacional e internacional, um captador de mentalidades, de espíritos, do Ser. O humorista é o homem que numa síntese nos apresenta a essência da pessoa / objecto / acontecimento de uma forma apreensível e, humorística.

O que é uma forma humorística para o público? Sebastião Sanhudo em 1880 (25 de Abril), no seu jornal "O Sorvete» (nº 100, pág. 317), dá-nos um excelente retrato do «Gosto do público pelos jornais satyricos»:  

«Quando insere caricatura ou artigo sem alusão pessoal: Hum!... Hoje não tem graça!... Isto está aqui, está a cahir! Bem podem tratar d' outro ofício que este não rende...» «Quando insere caricatura e artigos alusivos ao vizinho: Isto sim! Isto é um jornal com pilhéria! Este rapaz tem habilidade! Gosto muito d' este jornal porque tem muita graça e não ofende!...».

«Quando insere caricatura ou artigo alusivo a si: - Irra!!! Parece incrível que as leis d' este país consintam que se publiquem papéis d' esta ordem!!! Não haverá um polícia que prenda estes senhores que se divertem à custa do cidadão honrado e inofensivo?!!! Irra!!!»

Não é fácil para o caricaturista/humorista agradar a todo o público, a todas as facções, e mais difícil é ser aceite pelo meio político já que ele faz uma arte de crítica, de opinião que pode ferir profundamente os fanáticos, ou irritar os comodismos. Se o humor é a última coisa que se pode roubar a um povo, a liberdade de opinião é a primeira vítima dos despotismos políticos. Por isso já Raphael Bordallo Pinheiro se revoltava: «Não nos esqueçamos de que a supressão da imprensa às claras autoriza e desenvolve sempre a imprensa às escondidas. A liberdade amordaçada resvala sempre na licença sem pudores e sem balizas; e, quando o demónio quer, vai mesmo até à pornografia mais hedionda».

«A lei da Imprensa é infame. Não coíbe com lealdade, está cheia de alçapões e d' entrelinhas, faculta e premeia a espionagem, quem na fez tem medo da opinião.» (In Pontos nos ii 10/4/1890).

A lei da Imprensa, ou a «lei das rolhas» é uma das constantes preocupações governamentais com o desejo de controlar as opiniões e críticos, principalmente o caricaturista / humorista, já que, como diz Afrânio Peixoto, «o riso é um desafogo, uma revolta, uma vingança da nossa personalidade constrangida à atenção, à coerência, ao respeito, ao medo, que nos são impostos por nós mesmos ou por outrem».

Os políticos, homens do Poder, dirigentes têm medo desta crítica porque os desmistifica, humaniza-os, ridiculariza as suas imagens, não perdoa fraquezas, abusos, mentiras, ou falsas promessas.

O caricaturista/humorista vê a vida, os acontecimentos, o mundo através de um prisma cómico, sem perder o respeito pela humanidade, e por ele próprio, apresentando-os de forma a provocar o sorriso ou riso no primeiro tempo, mas provocando ao instante seguinte a reflexão.

Partindo de uma ideia, ele procura aquele pensamento quase imperceptível, aquele gesto de que ninguém tinha notado, mas que sem eles já não era o mesmo. Então, o caricaturista com o seu jogo de linhas, ou palavras, capta o resumo, a síntese da ideia/objecto, ao mesmo tempo que se expressa a si mesmo, já que a caricatura é o encontro de duas assinaturas com a autentificação de uma terceira. Numa caricatura tanto se deve reconhecer o caricaturado, o caricaturista autentificada pelo público que reconhece ambos.

Um indivíduo pode pois ter tantas versões da sua caricatura, quantos caricaturistas a façam, porque o artista original tem tal personalidade que imediatamente se deve reconhecer o seu traço, o seu estilo, o seu espírito de análise - a sua assinatura.

O caricaturista/humorista é pois o operário do riso como labirinto filosófico, do jogo da inteligência para a inteligência, da síntese do mundo. É um homem como os outros, só que com «fracções de juízo» para ver melhor o mundo.


«Cecília. O anonimato na caricatura» por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de 3/3/1985)

Quem é Cecília? O pseudónimo de um artista que ficou anónimo para a história, mas que devido à sua qualidade de traço e à sua maior inteligência satírica, pode ser considerado como o nosso primeiro caricaturista da história da caricatura gráfica portuguesa.

Os primeiros jornais a publicar ilustrações satíricas em Portugal foram… «O Procurador dos Povos», «A Matraca», «O Patriota», «O Torniquete», «Demócrito», «Duende»… jornais onde a violência satírica era grande e onde o anonimato, ou o pseudónimo, os protegia. A nível estético, também a grosseria, a falta de qualidade dominava os jornais. Os nossos artistas desta época não tinham sabido aprender a arte com os mestres que por cá passaram, ou que cá vieram morrer, nem com as gravuras estrangeiras que se editavam em Portugal, muitas das vezes com textos adaptados a assuntos nacionais.

Estes artistas eram quase todos simples operários da gravura, que ilustravam grosseiramente uma legenda, um texto satírico… e, s «e um ou outro se evidenciou, Cecília foi o principal.

Tanto a gravura satírica como o jornal tiveram nascimentos difícil, no nosso país, devido á intolerância espiritual dos nossos dirigentes e, só no princípio do séc. XIX puderam criar raízes estáveis. Só em 1807, aparece em Portugal o jornal ilustrado e, só em 1837, com o «Panorama» se transformou num género jornalístico. Contudo, se o desenvolvimento destes se deve à liberalização do regime, a censura ou a repressão nunca deixaram de pairar no ar.

Contra a repressão, a ditadura, o despotismo fervilha sempre a violência como reacção natural e, contra o cabralismo, não poderia haver outra forma de diálogo jornalístico. As caricaturas desta época são sempre de teor político, anónimas ou assinadas por pseudónimos como Maria, Affonso (que hoje se sabe serem outros pseudónimos do Cecília, ou seja do Lopes “Pinta Monos), Eu, Buffon, Júlio…

A sátira, expressão iconográfica das ideias e da vida, utiliza como primeira arma a Alegoria, construindo com os nomes dos personagens, ou suas actividades, a caricatura ligada a símbolos ou alegorias ligadas à tradição oral de fácil compreensão; como segunda arma, utiliza a metáfora –a metamorfose onomatopaica, ou a metamorfose antropomórfica. Esta utilização da semelhança, ou aliança do homem / nome com os animais ou objectos é uma das mais antigas fórmulas de sátira popular que se pode encontrar nas fábulas e outros contos ancestrais.

Desta forma nasceu, não só a arte do nosso primeiro «artista», como a primeira vedeta da nossa sátira caricatural – O Costa Cabral, o cabralismo e, por simbologia iconográfica, a cabra.

O anonimato, não é uma simples fuga a responsabilidades, no caso da caricatura política, mas uma defesa do caricaturista perante o «mau génio» anti-liberal, a falta de humor do governante. Como missão, o caricaturista ataca a política governamental, defende os interesses do leitor-povo, toma a palavra pela oposição em geral, ou por um sector específico e, como tal, atava o governante em pessoa. A liberdade de imprensa e de pensamento, nunca foram uma constante duradoira no nosso país e, por isso, sempre foi necessário procurar subterfúgios para dizer as verdades que os nossos dirigentes nunca gostam. Um desses subterfúgios mais conseguidos foi, sem dúvida, a sátira na “revista à portuguesa” (género teatral), mas também a caricatura soube sobreviver a esses maus tempos, primeiro, pelo anonimato, depois, pela inteligência.

É no anonimato que eu considero que nasceu a nossa caricatura, tendo como primeiro caricaturista, merecedor desse nome Cecília (litografo conhecido por Lopes Pinta Monos que morreu de tisica em 1853). Normalmente, designa-se Nogueira da Silva como o primeiro, mas na verdade, este é o iniciador de uma segunda fase da nossa caricatura. Denominando o Cecília como o primeiro, podemos datar o «nascimento» da nossa caricatura em 1847, com o aparecimento da sua obra no suplemento burlesco de «O Patriota» (12 de Agosto de 1847). Neste jornal várias foram as assinaturas anonimas que aqui apareceram, mas Cecília evidencia-se entre elas, não só pela qualidade, como pela quantidade de obras assinadas.

Podemos encontrar sua obra no suplemento de «O Patriota» desde 1847 a 1853, com uma periodicidade quase semanal, atacando durante todo este tempo o seu inimigo fidalgal, ou seja o cabralismo. O ser antropomórfico composto de pés de cabra e homem foi o seu meio preferido de identificação e, o assunto principal da crítica o roubo e a manipulação das eleições.

Cecília, e seus companheiros anónimos como ele, foram o primeiro impulso da caricatura, utilizando a violência panfletária na sua crítica política.


Wednesday, November 18, 2020

«1,5°C»International Cartoon Contest on the topic of ecology and global warming.


Theme:
global warming and ecocide &... «1,5°C» International Cartoon Contest on the topic of ecology and global warming.


            1.5 ° C is the most critical indicator of climate change on the planet. In the UN Paris Agreement, ratified in 2015, world leaders pledged to prevent an increase of the average global temperature by more than 1.5 degrees Celsius (compared top re-industrial levels) in 21stcentury.

Contest Organizer: Russian Ecological Movement -"RED" (http://www.red.help) Media partner of the Contest: "Ecosphere" newspaper (http://www.ecosphere.press)

The theme of the International Contest of Cartoonis ECOLOGY.

Here are the main subjects of the contest:

• global warming and ecocide,

• reasonable consumption and planet resources,

• garbage and industrial waste,

• biological and natural diversity.

Works performed in the form of a drawing, poster or collage (including using the Photoshop program) are accepted. The contest is open to professional and amateur artists from all over the world and to children aged 7 -16 years (a class of their own).

Awards:

• Grand prize - 350,000 rubles,(about 4.500 $ US).

• Four prizes of 70,000 rubles (about 990$ US),for each within listed topics.

• One prize of 70,000 rubles(about 990$ US),from the newspaper "Ecosphere" by the results of the readership • One merit award in the children class.

•Special award from sponsors and partner organizations.

• Diplomas

Prize money is taxed under current law.

The jury consists of professional artists and representatives of the Russian Ecological Movement.

The jury has the right to change the amount of monetary awards within the limits of the overall funds.

The Chairman of the contest jury is Mikhail Zlatkovsky, professional artist.

Members: Alexandrov Vasiliy, Bogorad Viktor, Russia, Kazanevskii Vladimir, Ukraina, Feldstein Andry, USA, Erenburg Baruch.

Participation rules:

1. Participants can choose any listed subject, including the main theme.

2. By entering the contest, participant confirms that he or she is the author of the works and agrees that the Contest Organizer has the right to publish works on the Internet or other media, as well as use them in any other way without restriction. By sending works, author submits that Contest Organizer has the right to reproduce copies free of charge for publication on electronic resources, in print media and other sources without additional approvals and rewards. The work submitted to the Contest must not violate copyrights or infringe on the rights of others, violate confidentiality or contain defamation and insult against any company or person. The Organizer of the Competition will not be held liable if the participants do not take these rules into account.

Participants pledge to release the Organizer in case of any claims by third parties who have may arise if these conditions are not met.

3. Along with the work, the author must send a completed participant form. This form has to be filled in Russian or English. The author should download the participant form from the website. By sending the completed form, the author or his legal representatives agree to the processing of his or her personal data.

4. Participant should send no less than two, but no more than fifteen works.

5. File name of the works must correspond to following sample: LAST NAME – name country work number (PETROV_Ishtvan_Sweden_01).

6. Recommended size of files -3000x2000 px, JPG format. Size of all files together must be LESS THAN 25 MB.

7. Email for sending works: ecoart@red.help

8. The deadline for sending works is March 01, 2021, inclusively.

The deadline for jury decision -March 15, 2021.

9. The works must be signed by the Author. Additional text in the work must be in Russian or English.

10. It is allowed to send previously awarded works.

11. Pre-selected works will be published in the online newspaper "Ecosphere".

12. The original drawing of the awarded work are the property of the Contest Organizer and must be sent to the Organizer within one month of the announcement to the address:123610, Russia, Moscow, 12 Krasnopresnenskaya embankment (naberezhnaya), Office 1337, Russian Ecological Movement.

Prize payments are made only after the Contest Organizer receives the originals of the awarded work.

13. The decision of the jury is final and not subject to any review.

14. An online catalog of the best works will be published.

15. At the end of the Contest the best works will be displayed at the exhibition. 

 


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