Friday, November 13, 2020

«Encontro Luso-Brasileiro de Humor» por Osvaldo Macedo de Sousa (in JL – Jornal de Artes e Letras» de 26/12/1989)

O humor é uma festa que há muito se desvaneceu  da vida da cultura portuguesa, sobrevivendo de longe em longe em espectáculos teatrais ou televisivos, nos carnavais «à brasileira», nas festas de fim de ano, no sorriso irónico do cartoon, num esgar efémero de quem dá uma olhada pelas páginas dos periódicos.

Por esta ultima via, o humor tem conquistado nos últimos anos as paredes dos Salões de Caricatura, bem de uma Casa do Humor, que neste momento atinge um momento alto ao concretizar o primeiro Encontro Luso-Brasileiro de Humor, no Museu Raphael Bordallo Pinheiro de Lisboa, patente ao público até dia 28 de Dezembro.

Este Encontro, que tem como organizadores no Brasil Jorge de Salles e Lapi Pires com o apoio da Fundação Cultural Brasil-Portugal e em Portugal a arq. Eva Moreira e o autor destas linhas, com o apoio de Abel Pinheiro – Grão Pará e da Câmara Municipal de Lisboa, conseguiu reunir mais de 200 trabalhos assinados pelos artistas plásticos de maior destaque dos dois países. Exemplos são Ziraldo, Millor Fernandes, Nássara, J. Carlos, Nani, Mendez, Caulos, Jáguar… para além de Jorge de Salles, Pelho, Lapi e Zé Andrade que se deslocaram a Portugal para acompanhar a exposição. Pela parte de Portugal estão entre outros António, Rui, Zingaro, Maia, Cid, Palma, Raphael, Almada, Stuart… um total de 40 artistas.

Sobre o evento, falamos com Jorge de Salles, um dos organizadores que segundo Lapi «é um extraordinário artista plástico que de algum tempo para cá dedica o seu trabalho ao estudo do humor.. É uma fase que pode ser prolongada, ou não, contudo será sempre importante na sua carreira, e no humor brasileiro».

Osvaldo Macedo de Sousa – Esta organização é uma consequência do seu trabalho no Brasil?

Jorge de Salles – É verdade, comecei em 84 com a organização do Centenário do J. Carlos; em 85 foi o Salão Maceó; em 86 o Centenário de Manuel Bandeira; em 88º Projecto Bar, Piracicaba, o Salão Carioca de Humor, Mostra de Humor e Ecologia… entre outras muitas coisas.

OMS –Mas além de organizador, também é pintor e escultor, que neste momento versa a paródia…

J.S. – O que faço tem sempre uma certa visão ligada ao humor, porque o humor é uma expressão inerente ao homem. O homem faz humor porque é uma reacção a tudo aquilo que mereça ser criticado ou analisado, estimulando o pensamento ao nível crítico. Aí esta a função do humor, da caricatura… Como dizia Leon Eliachar «humor é uma forma de se fazer cocegas no cérebro».

OMS – Há uma grande diferença entre o humor português e o brasileiro?

J.S. – A nível de criadores não, porque Portugal tem excelentes humoristas, mas na vivência sim, porque no Brasil o humor é muito consumido e respeitado. Por exemplo, as Edições Lithos, que é uma das maiores editoras do Brasil, tanto faz edições de grandes pintores como de humoristas, faz serigrafia de tudo o que é arte, e esta exposição tem uma série de serigrafias editadas por eles.

OMS – Este Encontro vai ter, a curto prazo, uma continuidade…

J.S. – è, em Janeiro vai para o Brasil, para o público brasileiro conhecer melhor o humor português. Ficará patente no Museu de Artes Moderna e as datas só estão dependentes da re-inauguração do Museu (que ardeu já oito meses). Contamos ter alguns portugueses na inauguração. A longo prazo esperamos que este Encontro tenha continuidade em outros Encontros

 

PS: Eu era o Director desta Casa do Humor. A exposição seguiu para o Rio de Janeiro, como estava planeado. Nós, pagamos a viagem dos artistas brasileiros a Portugal, e eles ficaram de pagar a ida da delegação portuguesa ao Rio, o que nunca aconteceu. Passado mais de um ano a exposição acabou por inaugurar no Rio de Janeiro, sem a nossa presença e as obras que foram, nunca mais regressaram.


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