Monday, March 25, 2013

Viva a Graciete - Rosário Breve por Daniel Abrunheiro



Tive um sonho em que apareciam como protagonistas Passos Coelho e Lee Harvey Oswald. Já não me lembro do enredo, só que acordei feliz.
Levantei-me, pois, fresco e retemperado. Na cozinha, liguei o rádio e aqueci café. A antena debitava pela enésima vez as últimas (ou as primeiras) de Francisco I, o novo sumo pontífice. “Com papas e bolos se engana os tolos”, surdinei eu, ferrando um bolo entre goles de chávena. Lavei-me à gato com água do bidé. Ambas as torneiras do lavatório estão perras, mas é que, como vos disse na semana passada, já não há canalizadores em Portugal. Tenho em Espanha um primo que percebe disso, mas o Gaspar já disse que até pelo menos 2015 ele não volta. Quer dizer que até 2021 o não vejo. Ao meu primo.
Penteei-me com um resto de brilhantina de um boião que me deram no Natal de 2008, época em que (é curioso, enquanto escrevo, que tal me ocorra) eu já tinha sonhos tipo Sócrates & Buíça. Olhei-me ao espelho: parecia a Gioconda penteada a leite. Fiquei satisfeito, até porque não sou dos desempregados mais carrancudos da viela.
Voltei à cozinha, meti quatro bolachas-maria no bolso esquerdo da jaqueta e na direita uma garrafa que foi de iogurte líquido meia de aguardente vínica que a tonta da minha senhora se esqueceu ontem de esconder depois de assar o chouriço de colorau que a mãe dela nos deu por pena. Fiz-me então ao rio da rua. Chovia, última coisa que Deus ainda dá.
O café da Graciete tem desde sábado a bica a cinquenta cêntimos outra vez. Baixou dez para chamar de volta os fregueses. Graciete e Gaspar, em inteligência, só têm de comum a primeira letra do nome. Como meio euro é o que as pessoas que ainda têm carro dão para estacionar, ninguém explicou ainda porquê, a Graciete voltou a ter de manhã, certinhos, cinco de nós, arrumadores.
Tomei a bica devagar para parecer muita. De frio, o último sorvo sabe a gato molhado, mas paciência: ao menos habemus papam, que é como se diz tolo em latim.
Fui então, por assim dizer, trabalhar. Foi uma manhã mais ou menos: fiz quatro euros e trinta e dois tostões – tive uma senhora que se me desfez em desculpas mas que só tinha pretas, como agora acontece nos investimentos pós-coloniais em Portugal. Por ser bom gajo, disse-lhe que ela para a próxima me dava dois euros e ficámos assim muito amigos tipo troika.
Comi as bolachas, poupei para um aperto da tristeza quanta vínica pude e voltei à Graciete, devia ser quê, uma e meia já. Bebi dois bagaços com o Zé Pisco que faz o estacionamento do mercado da fruta, o sortudo, o leiteiro. Como o Record estava ocupado pelo gajo da farmácia, bocejei as cáries e deixei-me estar a pensar em nada, que é o desporto preferido do nosso povo a seguir ao futebol. Alguém porreirinho-pá deve ter pago mais alguns cálices valentaços, também já não me lembro, isto de beber é como nos sonhos, vale que um gajo se esquece até do mal, quanto mais do bem, o certo é que já não fui, por assim dizer, trabalhar todo o resto da parte da tarde.
Dei por mim era já noite (e eu matéria dela, noite), por modos que arrepimpado no rebordo do chafariz e de cós virado para as gárgulas premonitórias de uma improvável pedra-de-Ançã talhada num século diferente e talvez melhor do que este. Nem triste nem eufórico, eu. Algo desalentado, apenas, desse desalento de cortiça que faz ranger a pituitária aos bebedores sem alegria nem lembrança.
Desalentado, digo, porque eu nem toda a vida quis ser arrumador. A falar verdade, o que eu queria mesmo era ser o Oswald. Ou o Buíça, que sempre era português.
E professor, como eu também já fui.

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