Sunday, December 23, 2012

Não me leves de Audi a ver montras ou feiras - Rosário Breve – Crónica de Daniel Abrunheiro


Aqui sou. Trabalho os papéis. A manhã já lá vai, não voltará. Outra por ela sim, como se nada fosse o íntimo ínfimo sentido de tudo. Um carro, além-rio, desce em solidão uma via secundária. Assim por igual cada um, não há nem é novidade. Deixo que os elementos me pensem.

Derredor, as mesas prandiais estão por recolher. Os fregueses foram às vidas, as empregadas preparam o desarme dos cacos: pratos, chávenas, talher, garrafas, papéis engordurados que ao menos serviram, como o estudo honesto da gramática, para limpar a boca.

Se me erguer daqui (ou disto) para um périplo pela Cidade, receio que as montras me convidem a adquirir, não as natalícias inutilidades douradas do costume, mas gente desvalida e relegada à subcondição de manequins de presépio franco: uma professora reduzida ao mesmo zero do horário, um enfermeiro de menos de trinta anos por dez réis de mel mal coado à hora, um agricultor de milho & batata desavindo com a seriedade da terra, um ceramista sem barro e sem saber que fazer das mãos, meia-dúzia ou uma centúria de jornalistas já não rapazes a quem resta a redacção de folhetos de hipermercado (vulgo “conteúdos”), um polícia mal aposentado que só agora descobre que andou toda a vida a (salva)guardar ladrões – e um que outro autarca apeado à roda-baixa por ter cometido a local insensatez da honestidade pública.

O meu receio é interrogativo: quem me garante que o Ano Novo não será o do relançamento das populares feiras de gado, substituída porém a cornúpeta animália pela humana fauna ex-laboral?

As moedas dão-me ’inda, todavia, para outro café, tenho do Sttau Monteiro o resto de Felizmente Há Luar! para ler (nem que só para reiterar que, entre o 1961 da edição prima da peça e o agonizante 2012 nosso, se dá uma contemporaneidade iniludível), se calhar demoro-me por aqui um pouco mais a sul do céu, que hoje é uma campânula pardacenta, grisa e de uma nublação sufocante aliviada apenas pelo zunzuar cuteleiro do vento. As próprias aves parecem atordoadas: a falta que a luz lhes faz é a mesma que a nós. Jovial excepção à sorumbática regra é a glória mijona daquele cachorro ao pneu traseiro daquele Audi preto: um príncipe vadio que, como cidadão em manif, se liberta em plena rua sem medo do bolor do ontem nem da mais que provável antiguidade do amanhã.

Tendo decidido ficar com o meu Sttau (arriscando-me embora a ter angústia para o jantar), acabo sendo remunerado pela pontual visão da passagem de uma que outra portuguesa: esta de tão elevado mérito verde à altura dos olhos com que nasceu para (vi)ver, aquela de tão perfeita turquês de pernas tão bem agasalhadas de fazenda ambarina, aqueloutra ’inda que cangurua num homem o desejo todo marsupial de lhe ir ao ventre.

Palavreado de pobre, enfim, com que remendo, remendão, o rasgão inconsútil de uma vocação de trapeiro.

E quando finalmente me decido, nem que por tíbia imitação mas glorioso arremedo, a fazer alguma coisa bem feita, descubro que o Audi preto de há parágrafos se foi embora já, pelo que só me resta uma dessas moitas devolutas que, por aí como por aqui, sempre são coisa que não falta, à falta de melhor e infelizmente ao luar.

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