Saturday, March 17, 2012

Historia da Arte da Caricatura de Imprensa em Portugal - 1913

Por: Osvaldo Macedo de Sousa
Na realidade o desenho satírico estava na moda, era um meio privilegiado de comentário social e político, e onde os artistas conseguiram impor um grande respeito, e aceitação. Para além dos jornais humorísticos que continuavam a surgir e desaparecer como cogumelos, mantinham-se com uma vida sem sobressaltos o “Supl. Humorístico de O Século”, “Os Ridículos”, “O Zé”…
Dos jornais novos com desenhos satíricos, temos "O Nabo", "O Rebate", "O Teatro"…destacando-se "O Moscardo", o "Matias" e o "Thalassa". Os dois primeiros editam uma carta de intenções, que nada diz, para além de se apresentarem como defensoras do 5 de Outubro. O "Thalassa" é, como o próprio nome indica, inimigo do regime republicano, era monárquico, onde reina a arte satírica do Jorge Colaço. São raros os que assumem publicamente serem anti-repúblicanos, e eis aqui partes do seu editorial: Embora peze ao illustre ministro da marinha que n'um mimoso discurso pronunciado ha dias no quartel dos marinheiros declarou ser necessario que desapareça da lingua portugueza a palavra thalassa, nós aqui estamos, não como um desafio, mas como uma necessidade.
/…/ Não vimos desafiar; vimos apenas registar os variados aspectos comicos d'este funeral alegre que tem tanto de macabro como de ridículo.
/…/ Porque se chama Thalassa este semanário ? /…/ Thalassa é todo aquelle que não é correlegionário do sr Afonso Costa; e nós, mercê de deus que nos formou de aspirações modestas nunca aspirámos, nem aspiraremos a tal culminancia. Thalassa é toda a pessôa que não faz pum! aos padres e não chama ladrões aos monárchicos, que não mimoseia com os epithetos de malandros e assassinos os jasuitas e não se incorpora nos cortejos do livre-pensamento; que não bebe os soluços gazozos da oratória fluente do sr. Estevão e não tem quota mensal do Centro de S. Domingos; que não vira as costas às egrejas e não dá vivas ao sr Bernardino; que não é inquilino das manifestações do largo das Duas Egrejas ou senhorio subscriptor dos banquetes ao chefe dos democraticos; que não é adhesivo ou consolidador do cavallo marinho ao som da Portugueza; que não cospe nas crenças; …
/…/ Assim como n'outros tempos o António Maria foi a Regeneração, o Fontes, o Ávila e o seu cachenez, o Sampaio e os seus pamphletos, o Arrobas, o Passeio Público, mundo findo, mundo morto. O Thalassa será, aparte a desproporção no valor do imortal Raphael Bordallo Pinheiro e do nosso, o sr. Afonso Costa e o seu liberalismo, o sr. Brito Camacho e as suas subtilezas políticas, o sr. António José e o seu lyrismo lunático o sr Nónes e a sua transcendente philosofia methafísica… Será enfim o mundo d'hoje, o mundo vivo, onde toda esta sociedade se debate com uma grande dose de inconsciencia, de cobardia e de mau cheiro da bocca.
Por outro lado, encontramos os jornais noticiosos a procurarem cada vez mais inserir no seu corpo redactorial caricaturistas. Ainda não será absolutamente regular, antes por épocas, mas é já o início da grande transformação. Inclusive, os próprios jornais regionais vão seguir esta necessidade jornalística, incluindo principalmente desenhos de artistas locais, mas tendo possibilidade de conseguirem colaboração de artistas de âmbito nacional agarravam-no com todas as possibilidades económicas possíveis.
Exemplo, entre muitos é “O Povo” de Viana de Castelo, que entre 1909 e 1913 vai publicar desenhos de Luíz Filipe, Couto Viana, Sanches de castro, Alberto Meira, Manuel de Passos, F. Passo, mas também de Francisco Valença, Manuel Monterroso… Como este jornal, existem muitos mais que nos passam ao lado na nossa grande ignorância. É que todo este levantamento ainda está por fazer. É fácil compilar os trabalhos nos jornais humorísticos, menos fácil nos jornais noticiosos nacionais quando as colaborações são muito irregulares, mas muito mais difícil na imprensa regional, principalmente quando não existem referências de neles ter colaborado durante algum tempo algum artista, e em que época. Por tudo isto, esta história tem-se baseado nos jornais humorísticos na compilação das imagens reproduzidas.
Voltando à imprensa regional queria destacar a figura de um professor, escultor, pintor, e caricaturista que trabalhou em Leiria. Natural de Ourém, segundo uns, de Guimarães segundo outros familiares, Luís Fernandes surge pela primeira vez  na imprensa, com um desenho no jornal “O Gorro” de 1909, quando os estudantes de Coimbra fizeram uma viagem a Leiria. Prosseguiria depois com alguma colaboração nos jornais de Leiria, e faria essencialmente um tertúlia artística importante nesta cidade, onde a caricatura era tema importante. Deste grupo destacam-se António Montês, Narciso Costa (de cujo artista Luís Fernandes fará uma magnífica caricatura pictórica, de âmbito cubista), Cortez Curado, Netto, Camilo Korrodi. Os caricaturistas Armando Boaventura e Octávio Sério Boaventura, naturais desta cidade, também de tempos a tempos frequentarão este grupo, assim como o Tenente-Coronel José Brusco Júnior, artistas sobre quem falaremos mais tarde.
Outro artista que rondará a caricatura, mas que não é conhecido neste âmbito é Abel Salazar. Natural de Guimarães (19 de Julho de 1889), desde muito cedo se destacou na Faculdade de Medicina, tendo sido convidado para Assistente de Anatomia Patológica ainda estudante. Doutorou-se em 1915 com a tese “Ensaio da Psicologia”, sendo posteriormente Professor da Faculdade, prestigiado investigador …. seria posteriormente perseguido e impedido de desenvolver a sua actividade cientifica pela ditadura de António Salazar, como represália ai seu espírito aberto e democrático.
Para além da vertente cientifica, foi prosador de mérito, no campo da filosofia da ciência e da filosofia da arte, tendo também sido um criativo plástico com obra ousada, irreverente e de grande qualidade estética no campo da pintura, gravura, desenho, escultura e na caricatura.
Os seus primeiros trabalhos humorísticos surgem na revista “Límia”, em 1910, sob o pseudónimo de C. Kasen, e a sua maior participação plástica no âmbito dos humoristas foi em 1915, no Salão do Porto com 47 obras. A caricatura será, na sua carreira, apenas como fugaz refugio, como esporádica colaboração jornalística, como entretenimento.
O sucesso da exposição dos Humoristas em Lisboa, levou a que o grupo partisse para a continuação do projecto, e a 6 de Junho de 1913, de novo no Grémio Literário, inaugura-se o II Salão dos Humoristas Portugueses.
Desta vez o Presidente, o poder não se fez representar, e não sendo tão mundano, os jornais já não se debruçarão tão profundamente sobre o evento. Contudo teve maior adesão de visitantes.
Participam  29 artistas, com 329 obras. Para além dos ‘repetentes’ Christiano, Barradas, Almada, Ernesto do Canto, Menezes Ferreira, Emmerico, Sanches de Castro, Alfredo Cândido, Cândido Silva, Nunes Ribeiro, Rocha Vieira, Saavedra Machado, Viriato Silva, F. Valença, Hipolito Collomb, Castañe, Alonso, Carlos Ribeiro, Manuel Gustavo. Novos surgiram Almeida Moreira, Francisco de Castro. Norberto Correia, José Luís Jr., R. Pacheco, J. O’Neill, destacando-se entre estas novidades o académico Jorge Colaço, finalmente o Mestre Leal da Câmara, e as jovens promessas António Soares e Mily Possoz. Não estarão presentes Stuart e Joaquim Guerreiro fundadores do Grupo. Hugo Sarmento também estará ausente, assim como outros dez artistas que participaram na primeira exposição. Guerreiro tinha partido para o Brasil, o que veio tirar um empecilho do caminho, e daí já a participação de Leal da Câmara, contudo os mestres de Coimbra, Luís Filipe e Correia Dias manter-se-ão ausentes. Carta deste último para Luíz Filipe comenta que é um solitário, um independente, e como tal tem progredido a sua arte. Na carta comenta quem vem ver a exposição a Lisboa.
Luíz Filipe, por seu lado já tinha terminado o curso de Direito, e ‘exila-se’ na terra paterna, Melgaço, com escritório de advocacia, abandonando aos poucos a colaboração na imprensa.
Num catálogo melhorado, com capa de Christiano Cruz, algumas autobiografias com humor destacam-se. assim como o prefácio de André Brun, num novo ‘manifesto’ A Propósito de Humorismo. Heis alguns excertos:
“O humorismo começou por não existir, tal qual o direito romano na douta opinião do doutor Assis. Um bello dia, descobriu-se que havia artistas da penna e do lápis que não pensavam como toda a gente - sobretudo como os outros artistas - e escolhiam para a expressão do seu pensamento formulas d’uma apparencia frivola, paradoxal, cujo effeito era o de fazer rir os habituados aos ritos, ponderados e graves, habituaes da grande arte, a quem persuadiram que deve ser sempre enfunada de pompas para ser immortal. E, como apenas se attentasse desdenhosamente na exterioridade extravagante das formulas, sem profundar o pensamento que as inspirava, succedeu que esses, a quem, por necessidade de classificação, chamaram humoristas - d’uma palavra inglesa que tem um sentido muito vago - passaram a ser considerados como creaturas agradáveis n’um contacto passageiro; mas incapazes de, pelo seu esforço creador, produzir uma impressão duradoura. Os humoristas foram tidos por farçolas, que cheios de excellente disposição, contavam historias ou desenhavam vinhetas com o fim honesto de divertir, durante cinco minutos, os seus concidadãos. As sucessivas greys litterárias iam-se succedendo, marchando de clarins em frente e estandartes desfraldados. A’s vezes, duas escolas simultâneas, uma que nascia, outra que já tinha cabellos brancos, encontravam-se n’uma encruzilhada e brigavam ferozmente. Eram os tempos do historismo, do romantismo, do piéguismo, do heroismo, que sei eu ?
O humorismo, desde que fôra reconhecido, baptisado e deitado à margem da arte séria, fôra sempre vivendo, e se bem que o não vissem senão sob o aspecto d’um garoto da rua, gracioso e impertinente, ia creando músculos e caminhando com serenidade.
Principalmente nos tempos do idealismo à outrance, quando a litteratura era toda fantasia e as almas de quem escrevia e de quem lia se encontravam ou nas nuvens ou em paragens que as geografias não demarcam, como podia ser tomada em consideração uma espécie de arte feita de analyse, de verdade, sempre precursora como é o humorismo ? Um dia - o de hoje - a Arte chegou enfim a uma franca simplicidade. Despiu-se de todos os falsos atavios que seculos tinham ido sobrepondo sobre a sua nudez deslumbrante e já não busca illudir com grandes gestos, mas convencer com raciocínio. Reduzir a vida ás equações claras e positivas, e quando a Arte, professada por pontífices solemnes e académicos, chegou a esta meta, encontrou, esperando-a tranquillamente e olhando-a com um sorriso, o Humorismo. Esse que ella sempre tomara, até então, por um gaiato irreverente, verificou-se que fôra quem sempre conduzira o facho da verdade, que tantos tinham tomado por uma lanterna de carnaval.
/.../ hoje só é um verdadeiro humorista aquelle cuja obra, se faz sorrir ou rir no primeiro aspecto, faz pensar no instante seguinte. Assim se realisará aquella ficção que Baldensperger tão bem soube exprimir:
- « La Joie et le Chagin se recontrérent la nuit dans uns forêt et s’aimeren parce qu’ils ne se connaisaient pas. Il leur vint un fils Qui s’appela l’Humour»
Demonstrado, como está hoje, que o humorismo - já que a palavra “morismo” ainda não foi completamente adoptada - é, no fundo, a menos frívola e a mais alevantada das correntes de Arte, a única que resistirá ao Tempo, porque a Verdade é immortal, devem todos aquelles que, com a penna ou o lápis na mão, julguem porder intervir nos conflictos da sua época, tomar como estrella guia o propósito de dar ao seu trabalho um fundo filosófico e procurar toda a inspiração no encontro da Alegria, que parte do coração porque é a ancia de viver, e do Soffrimento, que mora no cérebro porque é a angustia de morrer. Ai de quem for só alegre, porque construirá na areia um palácio cheio de luzes, que aluirá com um sopro ! Ai do que fôr simplesmente triste, porque viverá n’uma cisterna, onde não verá a vida nem poderá ser visto por ella, e dentro da qual cuidará que o seu immenso tem o restricto diâmetro da bocca da prisão onde jaz sepultado.
A arte do verdadeiro humorista deve ser feita da analyse e chegar à synthese. Do caso que observa deve tirar sempre uma conclusão e todos os processos de factura de que lance mão devem tender a pôr em relevo essa conclusão, que se deve apresentar nítida e clara.”
Em relação às biografias, é um documento importante já que era raro apareceram nos catálogos das exposições, assim como é raro termos dados biográficos sobre a maioria dos artistas que se dedicaram ao humor gráfico, deste modo vamos aproveitar o momento para publicar o que os próprios artistas apresentam sobre a sua vida/carreira: Alfredo Cândido - «…Consultei uma velha prehistórica de capote e lenço, que me diz haver sido nos últimos dias de Janeiro de1879, que eu cheguei sem dar por isso ás verdes margens do Lima, cantado por Bernardes e celebrado pelos rouxinóis..
Pouco se passou que não surgisse a maldita queda para os bonecos, o que me valeu sempre ser corrido das escolas. O primeiro desgraçado que conheci a manejar o lápis de Buch em danças macabras , foi morto à força de pancadaria. Por causa de uma caricatura, estando depois empregado em casa d'um judeu de cara de mogno polido, fui inesperadamente posto na rua.
Foi então que me fiz navegador e cheguei a atravessar as florestas incultas do Brazil, aonde fiz os meus estudos d'apré nature, pintando os retratos de vários surucucús que pousaram graciosamente.
No Rio de Janeiro estreei-me no Portugal Moderno e d'ahi por diante, uma caricatura representou sempre uma ameaça e uma espera; d' uma vez, foram suspensos três jornais e eu estive quase a ser também suspenso. Colaborei em  quase todas as publicações do Rio e de S. Paulo, desde a Cidade do Rio de José do Patrocínio até às capas da primeira fase do Malho. Fui fundador do Teatro, d' alguns outros com a vida das rosas de Malherbe, e da Larva, irreverente e feroz como o ruído d' uma cascavel.
Com Rafael Pinheiro, brasileiro, hoje deputado e nosso hóspede, que Lisboa vai ter o prazer de conhecer como um dos maiores tribunos do Brasil, tive o meu grupo de Café dos artistas (O Papagaio) onde atravessamos dias felizes de ousada e terrível mocidade.
Depois, (a minha inópia !) só me recordo que fechei os olhos e fazendo-me ao largo, vim dar com o costado na Rocha de Conde d' Óbidos. Cá, meu amigo, nesta cidade das iscas, tenho errado pelas páginas do Brasil Portugal, do Vira e das Novidades, deixando-me escorregar suavemente, distraidamente, pela manteiga de muitas outras que o público alfacinha, ainda mais distraido, se dignou gramar.
Em companhia dum amigo, ambos nascidos num país de navegadores, voltei ao mar, para só o auxiliar na descoberta… do novo caminho marítimo para Cacilhas, em que as pescadinhas marmotas, ainda hoje se mordem de inveja !
Se eu tivesse a alavanca de Archimedes ! Ponto d' apoio tenho eu - o Limoeiro.
Para mim, só um livro existe verdadeiro - o D. Quixote, uma peça de música que me comove - o Choradinho, e um caricaturista demolidor das idolatrias e dos homens - o tempo»
Almada Negreiros (José de) - « Dizem-me que nasci na ilha de S. Tomé a 7 de Abril de 1893, mas sobre tal não te posso dar a minha palavra de honra, porque já tanto tempo é passado e a minha memória não abrange este acontecimento. Consultei para certeza minha o «Arquivo das Celebridades» que não só me não elucidou nesta data, mas até em indesculpável esquecimento não arquivou o meu nome.
A data mais memorável da minha individualidade será por certo a de 1993, quando universalmente se festejar o centenário do meu nascimento.
Quanto ao meu indiscutível talento, preciso é dizer que o descobri no dia em que fiz ao meu barbeiro proibição de cortes á escovinha no meu cabelo.
Foi desde então que me estreei com ruidoso sucesso na Sátira, e colaborei em seguida na Rajada (Coimbra), na Bomba (Porto) e na Manhã (idem). Em Lisboa colaborei na Lucta, Século Cómico, Capital, e ainda no Jornal de Arganil, desta vila, e outros reputados periódicos.
Concorre este ano pela segunda vez, tendo feito há pouco uma exposição exclusivamente sua na Escola Internacional, à Rua de emenda.
Almeida Moreira (Francisco A. de) - Nasceu em Viseu em 25 de Novembro de 1873. Foi discípulo do ilustre pintor António Ramalho em trabalhos de aguarela, aos quais se dedica como amador.
Faz parte, como vogal, do Conselho de arte e Arqueologia em Viseu.
«Alonso» (J.G. Santos Silva) -  Natural de Lisboa, onde nasceu em 15 de Abril de 1874.
É caricaturista, decorador e ilustrador.
Foi colaborador efectivo de todas as publicações de O Século, desde 1896 até 1912. Colaborou ainda no Charivari, Jornal do Brasil, Novidades, Dia, Lucta, Os Grotescos, A Paródia, O Palco, Correio da Europa, Ilustrado, O Arauto, Os Serões, O Ocidente, Jornal da Mulher, e muitos outros. Trabalhou para a Companhia N. Editora, e ilustrou muitos romances e almanaques.
Teve uma 2ª medalha na secção de caricatura da Sociedade N. de B. Artes, e dois prémios pecuniários e menção honrosa em concurso de cartazes.
Barradas (Jorge Nicholson) - Nasceu em Lisboa, a 16 de Julho de 1895.
Bordalo Pinheiro (Manuel Gustavo) - Natural de Lisboa, e filho do grande artista Rafael Bordalo Pinheiro.
Foi seu pai quem o armou cavaleiro nas lides artísticas, entrando por sua mão no célebre António Maria (1879-98). Depois colaborou nos Pontos nos ii (1885-90), na Paródia (1900-04) e na Paródia-Comédia Portugueza, tendo ficado a dirigir o penúltimo destes jornais após a morte de seu pai.
Dedicou-se mais tarde à cerâmica, fundando nas Caldas da Rainha a fábrica Bordalo Pinheiro. Fez, sempre com sucesso, várias exposições de faianças, obtendo mesmo medalhas de ouro na exposição norte-americana de S. Luíz e na do Rio de Janeiro.
Ilustrou alguns livros, entre os quais de D. Maria Amália Vaz de Carvalho, de Coelho de Carvalho, um Manual de Esgrima de António Martins, etc., e tem páginas reproduzidas no Rire, de Paris, na revista alemã Lustige Blatter, e na obra de John Grand-Carteret.
Teve o primeiro prémio no concurso de cartazes aberto há anos em Lisboa pela Sociedade de Automóveis, e 2ª medalha numa exposição da SNBA.
Uma das suas paixões favoritas foi o sport, a que se dedicou apaixonadamente, tendo sido um dos mais reputados esgrimistas amadores portugueses.
É cavaleiro da Legião de Honra e de Izabel a Católica, e Presidente do Grupo de Humoristas Portugueses, onde expõe este ano pela segunda vez.
Cândido Silva - Nasceu em Macau (China) em 1875.
Cursou a cadeira de pintura histórica na Academia de B.A. de Lisboa. Colaborou no Dia, Ilustração Portuguesa, Tiro e Sport, A Sátira, etc., e ilustrou um livro de Alfredo Pinto (Sacavém).
Tem desenhado pata litografia grande número de cartazes.
Expôs no antigo Grémio Artístico e na S.N.B.A., e concorre pela segunda vez ao Salão dos Humoristas, de cuja direcção faz parte.
Castañe (Adolfo Rodriguez) - Nasceu em Madrid a 6 de Fevereiro de 1887.
Veio muito novo para Lisboa, matriculando-se no Liceu, assim como no então Real Instituto e no Conservatório. Filho dum arquitecto e dum soprano notável, foi sucessivamente poeta, músico e pintor.
Teve por mestre Emílio Ordoñez, pintor que vive ainda em Lisboa recolhido a um obstinado isolamento.
Colaborou no Suplemento do Século, A Lucta, A República, O Povo, Os Serões, a Ilustração Portugueza, etc.
Castro (Francisco de) - Nasceu em 1888.
Colaborou em alguns jornais académicos do seu tempo de escola, e modernamente na Sátira. Tem alguns desenhos na Revista Ilustrada da Sociedade Hípica Portuguesa.
Christiano Cruz - «Como notas biográficas, a mais interessante, a de maior relevo, é a minha certidão de baptismo; a outra, a segunda, pelo caminho que as coisas vão tomando, deverá ser a minha certidão de óbito. Assim, sempre te direi que nasci a 6 de Maio de 1892 na cidade de Leiria, tendo-me irrompido simultaneamente com o sarampo a neurastenia. Esse menino que tu advinhas linfático e triste, manifestou a sua vocação rabiscando na lousa extensos cortejos fúnebres de ultra-sintéticas personagens, marchando rígidos e aprumados como as figuras dum friso egípcio. De então p'ra cá a minha arte sofreu a seu evolução natural: primeiro, aquela a que eu chamo a fase da estilização; depois a actual, aquela em que eu fiz as pazes com a natureza, reconhecendo-lhe muito generosamente a posse da beleza.
Da primeira é testemunho a minha colaboração no Gorro, jornal de rapazes, na Farça (Coimbra) e na Sátira; da última, são-no os desenhos que publiquei nalguns números da Águia, nas Novidades, Garra, A Lucta, e a Rajada, os que expuz no Primeiro Salão dos Humoristas, e os que te mando agora.
Como vês, pouco tenho a dizer-te. Muito amavelmente querias uma biografia à Rubens; dou-te uma biografia à Christiano, serve-te ?»
Colaço (Jorge) - Nasceu em Tanger (Marrocos) a 26 de Janeiro de 1869. Durante sete anos estudou pintura em Paris no atelier Cormon, e teve por algum tempo um lugar reservado na «salle de dépêches» do Fígaro, onde expôs com sucesso alguns «portraits-charges»
Em Lisboa dirigiu o Suplemento do Século, cuja fundação promoveu. Fez há bastantes anos uma exposição de caricaturas e teve também uma primeira medalha.
Ultimamente tem-se dedicado à ressurreição da nossa antiga industria do azulejo.
Collomb (Hipólito) - Nasceu em Lisboa, a 1 de Novembro de 1892. Tem colaborado até hoje no Suplemento do Século, O Século, Novidades, República e Os Ridículos. É aluno da Academia de Belas Artes de Lisboa.
Correia (Norberto) - Nasceu em Viseu, a 9 de Novembro de 1888. Colaborou na Folha, jornal daquela cidade, no Imparcial, de Coimbra, e no diário lisbonense Novidades. Está seguindo o curso de arquitectura da Academia de Belas Artes de Lisboa.
Ernesto do Canto Faria e Maya - Natural de Ponta-Delgada (Açores), onde nasceu a 15 de Maio de 1890.
Frequentou em Lisboa a Academia de Belas Artes, e cursa actualmente em Paris a École de Beaux-Arts. «Não tenho nada de muito interessante a dizer ao público, a não ser, se por acaso isto o interessa, que o meu espírito, o meu carácter, o mau gosto artístico, toda a minha personalidade, são o longo e paciente trabalho de uma mulher, de minha mãe»
José Luíz Júnior - Nasceu em Aldegalega em 8 de Setembro de 1891. Tem colaborado até hoje, entre muitos outros jornais, nas Novidades, Lucta, Alvorada, Ridículos e designadamente em A Lanterna e no Suplemento do Século.
Leal da Câmara - Nasceu em Nova Goa (India Portuguesa) em 30 de Novembro de 1879.
Fundou e dirigiu os jornais O Inferno, o D. Quixote, O Suplemento da Marselheza, depois transformado em A Marselheza, e o panfleto de caricaturas A Corja.
Ilustrou os livros de D. Ana de Castro Osório.
Múltiplos processos de imprensa o obrigaram a emigrar para Madrid, onde começou a colaborar no Madrid Cómico. Foi director artístico da Vida Literária, com Jacinto Benavente como director literário. Dirigiu a revista Vida y Arte. Colaborou na Revista Vinicola, Nuevo Mundo, Illustracion Española y Americana, Barcelona Cómica, e nos quotidianos El Imparcial, El Heraldo e el Liberal.
Frequentou a aula de Moreno Carbonero na Academia de Belas Artes. Ilustrou vários livros entre os quais El Pajaro Verde de D. Juan Valera e fez nessa época uma exposição em um salão da Carrera de San Jerónimo.
Partiu para Paris como correspondente artístico de el Imparcial. Ali colaborou em La Vie Illustrée, e no Le Rire, o qual o enviou à Bélgica para fundar em Bruxelas Le Rire Belge, que foi dirigido literariamente por Franz Fonson. Regressou em seguida a Paris, de onde continuou desenhando para o Le Rire Belge. Colaborou no Assiette au Beurre, no Frou-frou, Gavroche, L'Indiscret, Vie pour Rire, La Caricature, Le Journal, Le Sans Gêne, La Marianne, Le Cri de Paris, Nos Loisirs, L'Humanité, Le Libertaire, La Raison, Le Petit Bleu, etc. Também fundou e dirigiu o jornal Le Diable. Desenhou numerosas estampas e centos de bilhetes postais, criando mesmo uma colecção-jornal - Le Carillon, da qual aparecia diariamente um postal. Dedicando-se à publicidade, desenhou inúmeros cartazes, catálogos, etc., e cultivando a arte decorativa, compunha frisos, papeis pintados, moveis e estofos estampados, lavrados e bordados.
Colaborou na Ilustração Brazileira, Tico-tico, e Imprensa, do Rio de Janeiro. Fez com Sancha, Rouveyre e Picasso uma exposição, e pouco depois outra somente dos seus trabalhos. Expôs no Sallon des Humoristes Français, e fez várias conferências em França sobre Arte.
Colaborou no Suplemento do Século e na Sátira. Depois voltou a Portugal, onde realizou três exposições, sendo uma delas de mobiliário de pinho.
Ilustrou a Velhice do Padre Eterno, cujos originais foram comprados pelo Museu Municipal do Porto. Também o Museu de Arte Moderna lhe comprou dois trabalhos - um de figura e outro de paisagem.
Colaborou nos Grotescos e no Mundo, e tem ultimamente realizado várias instalações decorativas com mobiliário expressamente construído para as superfícies a decorar.
Também tem realizado numerosas conferências em Lisboa e em várias cidades de Portugal, sobre arte em geral, Humorismo e Publicidade.
Realizou exposições no Porto e em Coimbra.
Menezes Ferreira (João de) - Nasceu em Lisboa em 1890. Tendo sido aluno da Escola de Guerra, especializou-se na caricatura de assuntos militares, tendo com aplauso da imprensa colaborado na extinta revista humorística A Sátira, e no jornal A Lucta, onde, segundo a sua própria expressão, « a vasta família militar, desde o general ao soldado raso, eram chuchados desapiedadamente».
Mily Possoz - De origem belga, mas nascida em Lisboa em 1889. Foi em Paris discípula de Simon e de Ménard. Fez já este ano uma exposição com D. Alice Rey Colaço na Ilustração Portuguesa, e tomou parte da exposição da SNBA.
Nunes (Ammérico H.) - Natural de Lisboa, onde nasceu a 6 de Janeiro de 1888. Durante dois anos frequentou a Escola de Belas Artes, seguindo em 1908 para Paris onde continuou durante quatro anos os seus estudos artísticos. Expôs pela primeira vez em Lisboa em 1910, no certame desse ano da SNBA, onde obteve o prémio de 1ª medalha. Em 1911 expos com um grupo de camaradas de Paris na Sala Bobone, de Lisboa
Há ano e meio que está em Munich, onde fixou residência, e ali colabora no jornal humorístico Meggendorfer-Blatter, um dos mais antigos e de maior nome na Alemanha e Austria.
Nunes Ribeiro (Carlos Ernesto) - Nasceu em Lisboa em 23 de Abril de 1883.
Dedica-se à escultura humorística em barro, e expôs pela primeira vez há anos na Papelaria Ferreira, e o ano passado no 1º Salão dos Humoristas.
Ribeiro (Carlos Filipe) - Nasceu em Lisboa em 12 de Outubro de 1894. Cultiva a caricatura de animais.
Rocha Vieira (Alfredo Carlos da) - Nasceu em Angra do Heroísmo (Açores), a 21 de Outubro de 1883. Foi discípulo de Roque Gameiro, tendo cursado as aulas da SNBA, a cuja exposição de 1910 concorreu com aguarelas. Tem colaborado com desenhos e caricaturas em várias publicações tais como O Século, Suplemento do Século, Sports Ilustrados, Ilustração Portuguesa, etc. Publicou uma série de caricaturas em bilhetes postais
Saavedra Machado (João) - Nasceu em Lisboa a 6 de Outubro de 1889. Cursou a Escola de Belas Artes de Lisboa, e estudou desenho com Condeixa, Luciano Freire e Nunes Júnior, e anatomia artística com o Dr. Henrique de Vilhena. Tanto em Portugal como lá fora visitou museus importantes, o que lhe ajudou a completar a sua educação artística. estreou-se como caricaturista na Paródia em 1906, onde deixou numerosos desenhos. Na Semana Ilustrada (1906) criou a série «Glórias de Portugal», e arquivou várias caricaturas pessoais; e foi em 1909 redactor artístico do Suplemento do Século, para onde desenhou muitas páginas, 31 «Em Foco» e mais de 400 ilustrações de texto. Colaborou ainda no Archeologo Português do dr. Leite de Vasconcellos, e ilustrou o livro Religiões da Lusitânia do mesmo escritor, e outros. O resto da sua obra artística está ainda dispersa por muitos jornais e revistas.
Fez uma exposição de trabalhos seus em 1910, no  Salão da Ilustração Portuguesa, unanimemente elogiada pelos nossos mais cotados críticos de arte.
Actualmente é desenhador no Museu Etnológico Português.
«Quanto a mim, o artista que se preze de ser «moderno», deve ser única e simplesmente um producto sensível da Natureza e da Arte. Na contemplação da 1ª terá os temas que pode empregar na sua arte. Examinando e estudando toda a herança da arte passada, e toda a série de conhecimentos que lhe dá a moderna, poderá, com o tempo, com o estudo e com o trabalho, criar uma forma sua que nunca, verdadeiramente, será original, porque em arte não há único, e as obras de qualquer artista, por maior que ele seja, obedeceram sempre à influencia de outros mestres. Quero eu explicar que o estudo da arte passada e também as predilecções que um artista pode ter por este ou por aquele autor, são sempre os pontos de partida para a razão de ser da sua obra. É por esta razão que Puvis de Chavannes, o maior decorador dos tempos modernos, tem na sua obra toda a influência dos mestres primitivos - Giotto, etc. Columbano, o grande pintor português é um admirador de Franz  Hals.»
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«O meu pintor predilecto é Carriére, o poeta do Sonho e do Amor. Admiro a obra de Columbano e tenho por ela uma admiração sem limites. Dos escultores, são-me muito gratos Rodin, Soares dos reis e Teixeira Lopes. Dos Humoristas, Forain, Steilein, Ross e Sancha; Valença, Collomb, Emmérico Nunes, Christiano Cruz, etc., sinto por eles admiração e ainda uma leal amizade.»
Sanhes de Castro (A.) - «Nasci em 1888, e vivi até 2 de Junho de 1913, dia em que morri assassinado pelos críticos»
Sedas Pacheco (Ruy) - Natural de Estremoz, onde nasceu a 23 de Maio de 1894. Discípulo de Saavedra. Escreve numa carta que «a sua melhor tendência não será, talvez, para a caricatura, mas para todos os assuntos artisticamente interessantes que a Natureza lhe oferece, e que ele mais gostaria de reproduzir pelo óleo»
Silva (Viriato) - Nasceu em Afife (Minho) a 18 de Janeiro de 1874. Foi discípulo de Leopoldo Battistini. Dedica-se à escultura decorativa. e como diversão de espírito, - «nas horas vagas», segundo a sua frase - à escultura humorística.
Soares (António) - Nasceu em Lisboa a 18 de Setembro de 1894
Tonkew (José O'Neil de Bulhões) - Nasceu a 15 de Janeiro de 1896, e é estudante da Academia de Belas Artes.
Valença (Francisco) - Nasceu em Lisboa, a 2 de Dezembro de 1882. Começou a sua carreira artística fundando com Carlos Simões. André Brun e outros, o jornal O Chinelo em 1900, de que sairam 11 números, alguns dos quais lhe valeram ser chamado ao Governo Civil e ameaçado de querela.
Publicou em 1902 o Salão Cómico, álbum de 16 páginas, rapidamente esgotado, em que eram caricaturadas as obras de arte apresentadas na Exposição de Belas artes daquele ano.
Colaborou depois com sucesso, na Comédia Portuguesa, de Marcelino Mesquita (1902), Gafanhoto (1904), Suplemento do Século (1904 a 1908), Tiro e Sport (1905 a 11), Ilustração Portuguesa (1911), Diário de Notícias (Carnaval de 1906 e Natal de 1912), Arte Musical (1907 /8), Alma Nacional (1910), Sátira (1911), Comércio do Porto (Natal 1912), e outros mais.
Desenhou os figurinos para a engraçada comédia de André Brun e Carlos Simões O Tabelião do Pote das Almas, representada no Teatro da Rua dos Condes em 1900, e obteve os primeiros prémios em dois concursos de caricaturas organizados pela revista Tiro e Sport em 1900.
Fundou a luxuosa publicação Varões Assinalados (1909 a 1911) com a colaboração dos melhores escritores humoristas.
É premiado com menção honrosas e medalhas de 3ª, 2ª e 1ª classe em exposições da SNBA secção de caricatura, e concorre pela segunda vez a este Salão, de cujo Grupo promotor é tesoureiro.
Dirige actualmente um semanário de caricaturas, intitulado O Moscardo.
A critica dos jornais de novo realçará os jovens, os mais ousados, acusando-os contudo de pouco humor, e modernismo, pelo abuso do decorativo, das elegâncias. Por outro lado haverá agora outras críticas, daqueles que em 1912 surpreendidos pelas ousadias dos artistas, e do aplauso da crítica se calaram. Mas agora, passada a surpresa, e num ano que o poder não apadrinha a irreverência vêm à praça pública, e acusam os novos do abandono do portuguesismo, da tradição, para se deixar levar pelas influências estrangeiras.
Se nos alegra o número de trabalhos - escreve o crítico de A Capital a 6/6/13 - e a sua perfeita execução, e por vezes a originalidade das idéas, contrista-nos ao mesmo tempo vêr a subserviência com que a maioria dos expositores imita a caricatura extrangeira, despresando e deixando esquecer os typos e costumes genuinamente, portuguezes, e que caracterizam a nossa sociedade…
É o contra-ataque ás ousadias dos jovens, ao modernismo. O Salão continuava dividido, nas opções estéticas dos membros, e das criticas.
No artigo “O que será a exposição dos humoristas ? “ no “Diário da Tarde” de 26/3/13, eis como se apresenta esta dicotomia:…temos um rejuvenescimento da alegria, e vamos ver, em novos moldes, o comentário à vida, ao amor, à alma, à política ?
Vejamos o que dizem os próprios humoristas :
CHRISTIANO CRUZ:
“Aos caricaturistas novos, falta o concurso dos consagrados”
- Existe, de facto, um rejuvenescimento, e à prova d’isso está na quantidade de trabalhos e na quantidade dos expositores. De resto, esse rejuvenescimento acentua-se até na derrota infligida à caricatura política, estreita e cheia de limites. A caricatura dos novos é já hoje uma arma de combate cujo alvo não está - na arcada.
ALBERTO DE SOUSA
“Os novos estão desnacionalizando, erradamente a caricatura nacional”
Não sou expositor, mas nem por esse facto a minha opinião será menos sincera.
Reconheço que há entre os novos, rapazes de valor, mas também vejo que o que se faz é a desnacionalização da nossa caricatura. Aos processos do Rir prefiro o Bordallo, que é todo português. Em Lisboa não existem as figuras que constituem o assumpto dos novos.
ANTÓNIO SOARES
"O golpe na caricatura política é a melhor obra dos novos…"
- Sou um principiante, cuja opinião não tem, portanto, nenhum peso. Como apaixonado do lápis, acho que o golpe dado á caricatura política é o melhor gesto dos novos, e marca uma phase nova da arte.
JORGE BARRADAS
"Excellente, a exposição, e, ainda mais excellente, Christiano Cruz…"
- É claro que não fizemos uma cousa completa. Os velhos não prestaram aos novos o seu concurso, o que seria para nós excellente. Acho, ainda assim, que a exposição é bôa, avultando os trabalhos de Christiano Cruz, um novo que é já um mestre dos novos.
As suas legendas, a extraordinária harmonia que existe entre o commentario e a figura, e ,ainda, o traço original, pessoalíssimo, Impõe-n'o à minha admiração. Gosto também das audácias de Almada Negreiros, que será um grande artista e já hoje tem desenho, traço, individualidade. António Soares dá os primeiros passos e tem falta de convivência. Vivendo na intimidade dos artistas, e ensaiando, será dentro de pouco um dos melhores expositores do nosso salon
ALMADA NEGREIROS
"Aos processos de Raphael Bordallo Pinheiro, prefiro os de Celso Hermínio"
- A nossa exposição ? Excelente! Segundo o meu critério, os novos devem orientar-se, principalmente, no sentido de caminhar longe dos moldes de Bordallo Pinheiro. Perdôe a irreverencia, as eu, à fama do Bordallo, opponho a quasi obscuridade de Celso Hermínio. Celso foi um incomprehemdido, porque era um inovador. Ora, a exposição d'este anno orienta-se precisamente n'esse caminho.
Quanto, propriamente, à exposição, acho que, sob qualquer aspecto, porque a encaremos, ella avantaja-se à do anno passado, o que é já um bom sinal. Lamento, entretanto, que os caricaturistas consagradaos não prestem o seu concurso, collaborando com os novos, e veja que n'isto eu não queria provocar um confronto, mas um incitamento.
Esta critica de anti-portuguesismo, já é anterior à inauguração do Salão, sendo o aguarelista e caricaturista Alberto de Sousa uma das vozes conservadoras, “botas de elástico”. A sua posição será alvo de uma contra-resposta de Christiano Cruz, no Diário da Tarde de 27 de Maio de 1913, o qual escreve: “Diz o senhor Alberto de Sousa que nós, os caricaturistas novos, temos um traço pouco nacional.
No conceito desse senhor nós emparelhamos com os traidores à Pátria, negociando planos de mobilização e... fazendo caricaturas.
O traço nacional constitui, pois, para o senhor de Sousa um símbolo nacional ao lado do hino e da bandeira...
Mas este furor patriótico, assim manifestado, não é só do senhor Sousa: é de todos aqueles que não vêem numa obra de arte senão as tintas.
O Sr. Sousa, como esses outros cavalheiros, queria-nos eternamente agarrados ao tradicional, venerando fanaticamente os bonzos da arte, copiando-lhes a maneira de ser do seu espírito e, embebidos na sua obra, plagiando-lhes... o traço.
O traço !...
O Sr. Alberto de Sousa, porém, considerando esses mestres como modelos, como ponto de partida de tudo o que se fez e fizer, reconhecendo-lhes em suma, uma pureza de traço toda  portuguesa, mostra implicitamente desconhecer o paralelismo de estilo, na sua opinião, verdadeiramente comprometedor, entre os caricaturistas do jornal francês Charivari e os seus congéneres portugueses.
Esta analogia nada tem de desonra: o artista do seu tempo assimila e adapta ao seu temperamento o espírito da época, reflectida na maneira de ver dos seus camaradas.
Assim, ao passo que a caricatura moderna tem uma feição pessimista, rindo de um modo doentio e céptico, as charges dos humoristas, nosso avós, eram de um riso franco e saudável, revelador da mais enternecedora ingenuidade.
Temos o pressentimento de que o Sr. A. de S. nos acusará de outro crime: o de não pintarmos tipos portugueses !
Mas, digo isto já um pouco zangado, creia, quererá o nosso patriótico adversário que passemos a vida desenhando a mulher da hortaliça e o galego das malas ?
Que nos ocupemos da política com comentários de barbeiro ?
A nossa legenda é : A GUERRA À BOTA-DE-ELÁSTICO !
Nunca como durante estes poucos anos se escreveu tanto sobre o humorista e o humorismo em Portugal. No fundo, pela primeira vez este género artístico saiu dos jornais, saltou para as paredes das galerias, se impôs como fundo de conversa dos cafés, das tertúlias, de conferências diversas, e se Leal da Câmara defendia que “a caricatura ia na vanguarda das artes”, a nova geração assume plenamente esse papel, e o que está em jogo não é apenas uma reformulação estética do humorismo, ou uma reformulação temática, mas também uma reformulação estética de todas as artes em Portugal.

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