Saturday, June 04, 2011

:) Smiling Europe - A Europa em Cartoon a partir de 7 de Junho no Insituto Politecnico de Portalegre

Exposição de cartoons que o Parlamento Europeu reuniu em álbum, com o apoio da Humorgrafe (Osvaldo Macedo de Sousa) em 2007 para comemorar os Cinquenta anos dos Tratados de Roma, e que agora são apresentados em exposição numa organização do Europ Direct do Alto Alentejo.

Este o texto do catálogo (de 2007):
Smiling Europa - A EUROPA E A SÁTIRA


Por: Osvaldo Macedo de Sousa
Diz a lenda que a “Europa” foi raptada, violada… mas não por nenhum sátiro ou sátira. Foi-o pelo senhor todo-poderoso, o Poder travestido em Touro, a imagem da força e da brutalidade viril. O poder sempre teve dificuldade em não se desviar dos caminhos da persuasão, e muitas vezes caiu na tentação de se impor pela via mais curta.
O exercício do poder pode ser encarado como um acto de gestão, de patronato, militar… mas, de todos, o que melhor lhe veste a pele é a política, a arte suprema de governo da polis. Utopicamente, tal poder deveria ser entregue aos mais sábios e competentes, uma actividade exercida democraticamente pelos “melhores” entre os melhores. Sabe-se que infelizmente isso não aconteceu e que, ao longo dos séculos, o enorme fascínio pelo poder convocou, à luta pela sua posse, mesmo quem não possuía as aptidões ideais.
Não sabemos quando surgiu a primeira gargalhada satírica no Homem, mas de certeza que foi perante o acto ridículo de algum mau chefe. No registo histórico temos testemunhos de que o seu nascimento é contemporâneo ao das primeiras civilizações, como nos hieróglifos satíricos que demonstram um pensamento irreverente na civilização do Antigo Egipto. No âmbito gráfico, de referir as cerâmicas gregas e etruscas… Assim, mal nasceu o político, surgiu o primeiro crítico, como contraponto.
Porque o governante necessita de ter os pés na terra…. As Comédias, as “Falofórias”, as festas Dionisíacas, as “Saturnais”, os “Carnavais"… são a expressão pública desse contrapoder, a consciência junto à frequente inconsciência do poder. Não sabemos qual o seu nome no Antigo Egipto, mas ele já lá andava na corte. O Rei Salomão tinha um Marcoulf para zelar pela sua saúde mental através do riso. O grande conquistador Tarmelão não prescindia da companhia de Khoja (também conhecido por Nasr-Es-Din ou Si-Djoha). Os Gregos transformaram-nos em mimos, personagens da dramaturgia… O Truão, o Bufão, o Bobo, são designações que perduraram na civilização da Europa Ocidental.
O Bobo ou o contra-político é o Sr. Sátira, o irreverente que serve de consciência ao Sr. Político através do riso, uma expressão de comunicação que é exclusiva do ser humano. O riso é a mais poderosa estrutura imunológica do corpo humano, um antibiótico de largo espectro poucas vezes devidamente explorado. Em breves palavras, ele é o mais potente exercício aeróbio, que exercita dezenas de músculos faciais, peitorais… promove o exercício cardiovascular, activa a oxigenação pulmonar e cerebral, faz despoletar uma série de endorfinas e outros químicos que desenvolvem o sistema imunológico e combatem o stress, a depressão, o pessimismo. O riso é uma arma poderosa, razão pela qual os senhores do poder sempre a temeram.
Se há um riso salutar, saudável… encontramos também o uso maléfico do cómico, transformado em chacota, grotesco. Para separar as águas, é comum dividir a comicidade como proveniente do baixo-ventre (escatológico, grosseiro, vingativo), do alto-ventre (com coração, inteligência, sentido filosófico). A fronteira entre eles é diáfana, razão pela qual a irreverência desliza por vezes para a má educação e esta ultima, em algumas circunstâncias, indevidamente defendida como irreverência.
O humor é a comicidade encarada como o riso democrático, filosófico e inteligente. O verdadeiro humor deve ser um ECO da sociedade (Elegante, Conveniente e Oportuno). Deve o humorista rir COM o seu objecto, não torná-lo numa vítima ao rir-se DELE. Mas este também deve ter a inteligência de aceitar a crítica, de saber rir-se com o humorista e, fundamentalmente, consigo próprio.
Dentro do Humor há várias formas de usar a irreverência cómica, ou seja, a visão anedótica, irónica ou satírica. Na sátira a crítica é directa, a irreverência mais acutilante, numa crítica que não se deixa subjugar à censura do politicamente correcto. Por essa razão, a sátira é o género que se identifica com a verdadeira crítica politico-humorística.
Há testemunhos de críticas políticas desde o Antigo Egipto, mas a sátira política, tal como a encaramos na contemporaneidade, nasceu na Europa, na Alemanha de 1500. A primeira guerra satírica terá sido a luta entre o Vaticano e a Reforma Luterana. O desenvolvimento da gravura, que não está desligado da revolução da tipografia, foi um forte aliado para a exploração desta arma de opinião e panfletária, propícia a uma época dominada pelo analfabetismo das massas. Foi um século de transição entre as pranchas noticiosas grotescas, para a imagética da crítica ideológica.
Com o século XVII, os italianos Anníbal e Augustin Carrache desenvolvem o jogo dos exageros (caricare) faciais, criando a arte da caricatura. A junção da sátira sócio-política à caricatura deu-se com o fim do absolutismo, com o desenvolvimento do indivíduo político.
A Revolução Francesa foi a segunda guerra da sátira política, em que tanto os franceses como os ingleses exploraram à exaustão esta arma panfletária. O liberalismo deu nova alma ao animal político, do qual, como contra-poder, nasceu uma nova profissão, a do caricaturista político, do sátiro político.
A Europa da idade contemporânea cresceu, amadureceu com o desenvolvimento da imprensa, com a sátira gráfica e, desde aí, toda a sua história está registada nas páginas dos jornais. Durante o séc. XIX houve uma sã confrontação entre políticos e jornalismo satírico. Este último esteve na vanguarda, não só do comentário político, como de uma parte da revolução tecnológica e, fundamentalmente, da ruptura do pensamento estético. Na viragem do século, o lado plástico quase se sobrepôs ao político, liderando o modernismo até à implantação do abstraccionismo numa filosofia de maior crítica social que política. Com a abstracção, o humor gráfico perdeu o seu papel de vanguarda, embora o tenha mantido na luta ideológica e, de certo modo, política.
Durante o séc. XX, a Europa exportou a sátira gráfico-política para outros continentes (para os EUA já o tinha feito durante o séc. XIX) e outras culturas. Durante este século a sátira teve momentos pungentes e gloriosos, e momentos de quebranto, subjugada por ditaduras ou pela passividade social. Lutou contra duas guerras mundiais, e contra uma miríade de guerras regionais, locais, individuais… Sobretudo, deixou o seu registo, uma crónica histórica. Viajar pelos desenhos satíricos ao longo dos anos é viver o dia a dia do riso de uma sociedade, de uma comunidade, com as suas preocupações, os seus temores e as suas vitórias.
Com o séc. XX, a sátira foi-se desvanecendo em ironia, já que os caricaturistas deixaram de ser editores dos seus próprios jornais. Ao assalariarem-se na grande imprensa, tiveram de se submeter às directivas das linhas editoriais, dos interesses próprios dos proprietários da comunicação social. O “Politicamente Correcto”, a forma mais discreta de controlo da mensagem, foi-se impondo como pensamento dominante. A sátira política transmutou-se em ilustração (por vezes) irreverente.
O humor, como crítica satírica ou crónica sorridente, nunca foi um acto de ruptura política. Nunca um governante foi derrubado por um humorista, mas muitos humoristas foram presos, torturados ou mortos por ordem de políticos, ditadores e déspotas dos inúmeros totalitarismos da História. A sátira não destrói, apenas desnuda, alerta, reclama e incomoda as más consciências. O desenhador satírico é o grilo falante da alegoria do Pinóquio, é a consciência que nos faz rir das nossas desgraças.
É um grito em gargalhada de esperança, uma mentira que contamos a nos próprios. É bom continuar a acreditar que podemos rir do poder, que podemos desmascarar com um sorriso as corrupções, as injustiças… Uma mentirita que só nos faz ser mais optimistas.
A Comunidade Europeia, como organização vital na estrutura politica da Europa, é naturalmente alvo dos desenhos satíricos de todos os países europeus, e até de outros continentes. Poder-se-ia inclusivamente fazer a sua génese, evolução e história através dos comentários dos diferentes cartoonistas, um trabalho meticuloso e longo que poderia ser interessante. Contudo não foi esse o objectivo desta iniciativa do Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu. Não foi uma investigação exaustiva, antes um convite aos cartoonistas europeus - e de países terceiros - para enviarem trabalhos seus sobre a União Europeia. É apenas uma meditação, uma introspecção, uma paragem momentânea para reflectir como é que a sociedade vê esta Organização, na altura em que ela comemora os 50 Anos dos seus Tratados fundadores. É um convite para nos rirmos todos, em harmonia irreverente, uns COM os outros (os 27), e meditar sobre o futuro com optimismo crítico.
Nesta colectânea há hiatos, mas também há muita informação. Podemos sentir o que mais preocupa os Europeus, saber como vêem esse poder central, longínquo, mas que influencia as suas vidas. Talvez o factor dominante seja a União Europeia vista como um senhor poderoso cheio de dinheiro que os pode favorecer com um bom quinhão. Também alguma desilusão, porque ela não é a galinha de ovos de ouro, mas uma aliança político-económica entre países. Outra das críticas é precisamente a desunião de facto desse conjunto de países, aparentemente unidos.
Este álbum é um simples pulsar de pensamentos diferenciados de Europeus, mas os políticos podem daqui tirar conclusões. Eu desafiaria mesmo os parlamentos de todos os Estados-membros a estabelecerem um arquivo dos desenhos satíricos publicados no seu país, e convidaria o Parlamento Europeu a gerar e gerir um arquivo com os desenhos satíricos publicados na Europa.
Estou convencido de que o sorriso nos lábios é um bom bálsamo para o "stress", e uma injecção de endorfinas para uma democracia mais participativa.

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