Monday, March 14, 2011

Stuart Carvalhais o Desenhador de Bonecos Por: Osvaldo Macedo de Sousa

(Artigo publicado na Rev. Historia nº 29 Março 1981)

Vinte anos de esquecimento se passaram sobre a morte de Stuart Carvalhais e já poucos são os que se lembram dele. José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais foi um humorista transmontano que viveu Lisboa. O Stuart - como era conhecido - nasceu em Vila Real de Trás-os-Montes, a 7 de Março de 1887. Seus avós eram proprietários rurais do Alto Douro, e por via materna tinha ascendência numa família da alta nobreza escocesa - os Stuart Torrie. Seu pai, apesar de ter cursado engenharia agronómica, não quis fixar raízes, preferin¬do deambular de terra em terra e de profissão para profissão. Poucos meses após o nascimento de José Herculano, muda-se para Zalamea-la-Real (Espanha), seguindo depois para Alenquer, Montemor-o-Novo, Lisboa ... e com ele deambulará o jovem Stuart.
Em 1901, Stuart encontra-se já em Lisboa, onde frequenta várias escolas, completando assim a sua educação começa da em casa com professores particulares, à qual se tinham seguido dois anos no Liceu de Évo¬ra. Até que nível chegaram os seus estudos é impossível precisar. Por volta de 1905 entra para o estúdio do mestre Jorge Colaço, onde inicia a sua aprendizagem artística como pintor de azulejos, podendo ao mesmo tempo seguir a criação artística de caricaturista e de ilustrador do mestre. Jorge Colaço não só lhe abriu perspectivas estilísticas c conceptuais no campo da caricatura, com também o lançou nos jornais.
A partir de 1906 começam a aparece trabalhos de Stuart no Suplemento Cómico do Século. Será aqui, e nestes primeiro tempos, que ele abrirá novas perspectivas em Portugal na banda desenhada para crianças. Após várias experiências de interesse entre 1909 a 1911, será de 1914 a 1922, depois menos intensivamente mas com mesmo interesse, que, com as histórias ( «Quim e Manecas», «Manecas e João Manuel». «Cocó, Reineta e Facada» e outras histórias, Stuart imporá a história ilustrada para crianças na imprensa diária ou semanal. Stuart não foi só um introdutor, mas um inovador técnico.
A partir de 1911, Portugal vive um intenso movimento artístico - a introdução do modernismo. Stuart está na primeira linha da vanguarda e, como português, Pa era o seu sonho ... Em 1913, de maneira imprevista (como era o próprio Stuart) encontramo-lo perdido entre a massa de artistas de Montmartre.
Foi para Paris como um artista descon hecido, e regressa passado um ano como cartoonista famoso. Em poucos meses, Stuart conseguirá vencer no difícil meio parisien¬e, mas, como a estabilidade, o compromisso e as responsabilidades o incomodavam, acaba por recusar a fama internacional e fugir a um processo judicial por quebra de contrato de exclusividade com um dos maiores jornais humorísticos da época, o  «Ruy Blas», onde chegou a ser um dos principais artistas.
Regressou definitivamente a Lisboa. Mal chegou, e também de um modo imprevisto, casou-se e tem um filho (1914-15). Um casamento desigual e estranho.

Stuart regressou para a mediocridade do seu país. De Paris trouxera a saudade, a frustração, a revolta contra si próprio. Tinha perdido a oportunidade e as condições de «criar» ao seu nível, de ganhar confiança em si mesmo. Tinha recusado a ocasião de ser o pintor que sonhara ser. Em Portugal, a desilusão, a falta de oportunidades, a necessida¬de de sobrevivência, o vício, o álcool e as mulheres fizeram com que o sonho se tor¬nasse irrealizável e Stuart «não passou de um desenhador de bonecos».
A vida de Stuart nos anos 20, 30, 40 e 50 transforma-se na fuga à família e às responsabilidades, na fuga de si próprio. Foram a frustração, o vício e o excesso de trabalho para os jornais como caricaturista e cartoo¬nista; para livros, revistas e partituras de música, como ilustrador; como cenógrafo e figurinista para o teatro de revista; como de¬corador para a Feira Popular ... Este trabalho será galardoado com vários prémios interna¬cionais e um do SNl, o que não impediu que a insatisfação fosse o sentimento dominante de Stuart, e que os críticos e historiadores de arte se esquecessem da sua obra. Stuart viria a morrer com um ataque cardíaco no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a 3 de Março de 1961. Faz agora 20 anos.
O que terá tornado Stuart num artista a não esquecer?
Talvez que, ao se ler o que atrás foi dito, se pense que nada fez e que muito poderia ter feito. Talvez este pensamento esteja cor¬recto, principalmente depois de se conhecerem as suas potencialidades inaproveitadas, o seu génio, do qual ele nos deixou apenas uma sombra.
«Stuart tinha demasiado lá dentro», diz-nos Semke, e esta frase leva-nos a descobrir o mundo interior de Stuart. Tinha imensas potencialidades, frustradas por um espírito sem a mínima confiança em si, e por um mundo artístico para o qual não estava preparado. O meio das artes em Portugal, dominado pela concorrência, pela mesquinhez, pelo mal-estar entre os artistas, era-lhe adverso. Stuart, o mãos-largas, o homem que nunca se zangou com amigos, sempre pronto a ajudar toda a gente, não se sentia bem no meio artístico
A sua vida familiar foi também uma frustração, já que o seu espírito nada tinha em comum com o dos seus pais nem com o da sua mulher. Os amigos eram muitos ao balcão da taberna, mas raros no seu coração. Stuart, para além da falta de confiança, não teve o estímulo nem o apoio de que necessi¬tava. Em breve se foi afundando no álcool, de onde foi impossível tirá-lo.
Como se poderá falar das suas potencialidades escondidas, se aparentemente o que fez foi nulo? Teremos que destrinçar, de entre as milhentas obras de ocasião ou com o simples intuito de ganhar dinheiro, as obras de grande qualidade - e que não são poucas.
Após um período de tendência modernista, em que foi director de jornais de van¬guarda humorística como «Sátira» e «ABC a Rir», sofre um certo retrocesso estilistico, para se concentrar na pesquisa de um traço novo, inconfundível no qual vem a «retratar» a Lisboa antiga e o seu povo. Foi neste traço, tão característico, que ficaram grava¬das para sempre as belas pernas das varinas, das costureirinhas, das bonitas raparigas, e também os bêbados, os gatos matreiros, os «cães vadios» e suas prostitutas, os ardinas - enfim, Lisboa. Stuart fixou para sempre a cidade antiga que ia desaparecendo para dar lugar à Lisboa «cosmopolita» dos nossos dias. Ninguém como ele soube conhecer e retratar através do desenho a cidade e o seu povo.
Desperdiçou-se no «boneco» para o jornal diário, gastou-se no humorismo, do dia¬a-dia, no desenho de improviso, mas mesmo essa obra deverá ser reconhecida no seu va¬lor de análise psicológica e social. Stuart não foi um pintor de telas - como em parte gostaria ter sido -, nem de encomendas ofi¬ciais. Não foi um pintor ao serviço da burguesia, nem um artista da cor. Ele foi o mestre do preto e branco, o branco da folha de papel, e o preto da tinta da china, do lápis, do carvão, do pau de fósforo, da borra do café, da cinza, da graxa ...
A sua obra merece um outro tratamento não o esqueçamos! '
Será mesmo que faz 20 anos..(Agora são 50 anos) que Stuart Carvalhais «morreu»?

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