Monday, October 04, 2010

HISTÓRIA da arte DA CARICATURA de imprensa EM PORTUGAL - 2º Volume - Na República

Por. Osvaldo Macedo de Sousa

Introdução
1910 - 1933
A política domina a sociedade, toda a nossa vida, e naturalmente toda e qualquer História. Na Caricatura, como em muitas outras secções da História, os tempos sectoriais nem sempre coincidem. Só que, entrarmos em ruptura com a normalidade do conhecimento geral, quando os elementos de ruptura não são conhecidos pela maioria, pode ser perigoso.
Assim, 1910 nada significa para a arte da caricatura, e o mesmo acontece com 1933. Como opção historicista do humor, o primeiro volume poderia ter acabado em Janeiro de 1905, aquando da morte de Raphael Bordallo Pinheiro, já que com a sua morte termina um período importante, e bem caracterizado. O mundo bordaliano já estava em ruptura desde o final da década de noventa, com o aparecimento de Celso Hermínio e Leal da Câmara, porém estes artistas pouca repercussão tiveram numa alteração estética das artes do humor, nos anos subsequentes. Essa ruptura só se verificou concretamente a partir de 1909, com o Grupo de Coimbra (Christiano Cruz, Correia Dias, Luís Filipe, Cerveira Pinto…), com os jornais “O Gorro”, “A Rajada”, “A Águia”…
Assim, este segundo volume deveria ter começado em 1909, e não em 1910. 1912, com a realização do I Salão dos Humoristas, e a defesa pública de forma teórica e conceptual da ruptura com o conservadorismo e defesa do modernismo, também é uma data que pode ser defendida. Mas não, 1910, com a queda da monarquia é que fica. Não interessa a síntese abstraisante. As naturalistas cuecas borradas, de D. Manuel a fugir, é que marcam a História.
Optou-se pela divisão: Monarquia, Primeira República, Estado Novo… Esta segunda data é mais difícil de defender. Segundo a maioria dos historiadores a Primeira República, cai em 1926,com o golpe do 28 de Maio. Dois meses antes inicia-se a publicação do jornal “Sempre Fixe”, um marco importante da História do Humor, e da sobrevivência desta arte nos tempos subsequentes. 1926 era o ano ideal, discutindo-se pelo meio os dois meses que separam o nascimento do jornal e o Golpe de Estado.
1933 o que é ? Para mim, e para alguns historiadores, é o verdadeiro início do Estado Novo, com a aprovação da Constituição da República Portuguesa, e solidificação da ditadura, não dos militares, mas finalmente de António Oliveira Salazar. De 1926 a 33 é o período intermédio, onde nem a Primeira República está totalmente enterrada, nem a Monarquia está totalmente afastada. Onde tanto a esquerda como a direita ainda sonham poder virar a política a seu favor, e onde um maquiavélico economista procura ludibriar os militares, e assenhorear-se do poder. O que aconteceu, sem retorno possível a partir de Abril de 1933. Com a promulgação da nova Constituição (11 de Abril) termina a Primeira República.
Por outro lado, temos o problema de divisão de número de páginas dos quatro volumes. No primeiro estão incluídos mais de seis décadas de História. No segundo, se optássemos por 1926, ficavam apenas 16 anos, e o Estado Novo com quase cinco décadas de História. Com a inclusão de sete anos mais, neste segundo volume, as volumetrias ficam mais equilibradas.
Um segundo volume, um segundo passo nesta edição de uma História difícil de escrever, já que nela se encontra uma evolução estética, uma sequência de biografias de indivíduos, entrecortada com acontecimentos políticos que despoletaram esta arte, e sua publicação na imprensa.
A forma mais correcta de escrever esta história seria a de complementar todos estes elementos numa sequência lógica e o mais abrangente possível. Para isso seria necessária uma equipa pluridisciplinar, que com as diversas achegas conseguisse dar essa perspectiva abrangente. Para isso seria necessário tempo. Só que em Portugal, ou não se faz, ou se improvisa, como acontece neste caso. Perante a oportunidade facultada pela Secretaria de Estado de Comunicação Social, que subsidia o papel, e o patrocínio da Grafilis e Lisgráfica para a pré-impressão e impressão, não podemos olhar ao dente do cavalo dado…

1910 - A CARICATURA NA PRIMEIRA REPÚBLICA

Como referi na introdução, o novo período da História da Caricatura já se iniciou em 1909, por obra e graça do Grupo de Coimbra, que Nuno Simões tão bem homenageou em Conferência, no primeiro serão de arte do Salão dos Humoristas do Porto, em 1915, e que posteriormente foi editada em livro com o nome de Gente Risonha.
Esta ruptura, ou tentativa de ruptura com o academismo, que em caricatura denomino raphaelismo, não foi sob a bandeira do panfletarísmo, ou do regresso à sátira mordaz, e desapiedada, como aconteceu na primeira expressão de ruptura, encabeçada por celso Hermínio e Leal da Câmara. Esta, como tão bem poetisa Nuno Simões, deu-se pela elegância, pelo estilismo feminino, pela redescoberta da beleza. Cansados do fundamentalismo político, estes artistas - Luíz Filipe, Christiano Cruz, Cerveira Pinto e Correia Dias - viram-se essencialmente para o quotidiano, procuram o sorriso na vida, e na essência das questões. Mesmo crítica à política, que deve ser caricaturada, o humor deve optar, não pelo achincalhamento dos indivíduos, mas pelo ataque aos sistemas.
Quatro nomes fundamentais nesta viragem, com um pequeno grupo de títulos de revistas a fundamentarem a sua acção: “O Gorro”, “A Rajada”, “A Águia”, “A Sátira”…
Mas antes de prosseguirmos nesta deambulação pela introdução do modernismo, regressemos a 5 de Outubro de 1910, e à caricatura política, e raphaelista que prosseguia sem sobressaltos o seu caminho.
A revolução estava no ar, com constantes apelos à revolta na imprensa, com greves constantes. No dia 4 de Outubro Machado Santos inicia o golpe com o ataque ao Regimento de Infantaria 16, e Artilharia 1,dirigindo-se posteriormente para a Rotunda e Parque Eduardo VII onde as forças revoltosas se aquartelaram. Houve muita confusão de ambas as partes, mas com maior anarquia pela parte monárquica, onde apenas Paiva Couceiro tenta resistir. Nesse dia 4 já Loures tinha proclamado a República, mas Lisboa apenas a 5 declarou oficialmente a República instituída, apesar de no resto do país muitas das vilas continuarem sem saber o que se passava, ou a não aderirem de imediato à República. Só no dia 9 todas as povoações do continente tinham aderido, e Angra do Heroísmo apenas o fará no dia 16.
O rei fugira no dia 4 para a Ericeira, e aí embarcará no iate Amélia, partindo para o exílio. Na realidade era um favor que lhe faziam, já que não tendo sido educado para Rei, não lhe agradava ser obrigado a governar um país que não o queria.
Os “Ridículos”, logo a 8 de Outubro (o número anterior foi a 4, sendo o 8 o normal cumprimento do calendário de saídas) saí com sátiras ao que se vivia no momento, vendo-se o Zé no meio das bombas e tiros, idealizando o sol resplandecente da liberdade.
O “Xuão” (que creio ser uma paródia ao nome do João Franco, tal como Raphael tinha baptizado um seu jornal com o nome do Fontes, “António Maria”), que tinha sido proibido no início do ano, com a revolução reaparece rebaptizando-se em “Zé”, reivindicando contudo ser o sucessor de "O Xuão". Este, desde logo vaticina que as albardas vão sair finalmente dos costados do Zé Povinho, que vai haver liberdade… mas também, desde logo satiriza as divergências que no dia 6 de Outubro se revelaram entre os revolucionário republicanos.
É que, se até Outubro de 1910 uma vontade férrea de derrubar a monarquia conseguiu diluir algumas divergentes, e uni-los num objectivo, com esse objectivo conseguido, de imediato o Partido republicano, e afins se pulverizam nas mais dispares facções, e jogos de interesses.
Das principais questões, a religiosa, pelo peso que a Igreja tinha sobre a sociedade, principalmente rural, foi a que maiores celeumas criou. A questão operária, que tinha sido importante para destabilizar a monarquia, torna-se um problema grave, necessitando o reivindicador transformar-se em opressor, tentando de imediato disciplinar, regulamentar a contestação, para não triunfar o anarco-sindicalismo, ou o socialismo.
Teófilo Braga foi escolhido para Presidente interino, por imposição de Afonso Costa, entre alguma polémica. Logo a 8 sai um decreto que expulsa o Jesuítas, e o encerramento de todos os conventos (a 10 de Outubro há já 46 padres presos no Limoeiro, 82 no Forte de Caxias, e 233 freiras no Arsenal da Marinha). A 3 de Novembro é estabelecido o direito ao Divórcio, e a 25 de Dezembro o Casamento civil passa a ter a ser um contrato de validade exclusivamente civil.
A 12 de Outubro é criada a Guarda Nacional Republicana. A 12 de Novembro é publicada a Lei do Inquilinato.
A 15 de Novembro a Carris inicia uma vaga de greves, que no prazo de um ano registará 237 greves diferentes. O elemento fulcral da movimentação operária é o horário de trabalho, a luta pelas 8 horas, e o aumento dos salários. O governo republicano reage de imediato e regulamenta o direito à greve a ao lock-out.
A 29 de Dezembro sai uma nova Lei de Imprensa, que deveria dar total liberdade de expressão, só que esta andará ao sabor das ondas e marés políticas.
Uma das figuras caricaturais que logo se impõe é o "Adhesivo". Este, como político na concepção filosófica e realista, adere facilmente, está habilitado à metamorfose das conveniências, está preparado a estar presente em todo o lugar que se abra uma porta para o poder, principalmente nos momentos de 'crise ideológica'.
Se existem, como uma consequência política, em todas as estruturas da vida quotidiana, da vida social, denotam-se mais nos momentos «trágicos», quando a magia do «vira casaca» não tem tempo para disfarçar as metamorfoses, quando a viragem é mais extremista. Como o transformar-se de um dia para o outro de monárquico convicto em republicano da Rotunda… ou seja aderir nos momentos após vitória revolucionária, obrigando o alfaiate a ficar sem mãos a medir ("Grande Alfaiataria Nacional dos Vira-Casacas", Jorge Colaço, in Ridículos 13/12/1912).
Após a revolução, todos lutaram contra o regime deposto, toda a gente esteve na Rotunda, e por acaso não foi nos dias 4 e 5 de Outubro, podia ter sido em qualquer outro dia (in "O Intransigente" nº20 de 1/12/10), e dessa forma o Zé republicano fica sufocado, e parasitado pelos adesivos - Pobre Filho! tão novo e já cheio de adesivos (in o Intransigente de 1/12/10)
Co'os adesivos (é) outro cantar: / Qual nuvem de vorazes gafanhotos / Que um campo inteiro acabam d'assolar / Roendo até os mais pequenos cotos / E que, ao verem a mesa levantar, /levantam voo pelos ar's ignotos / Para irem abater em outras estâncias / Onde haja de comer em abundância." (Marco António, in Republicaniadas, Lisboa 1913)
Quanto ao Júlio dantes monárquico (in Papagaio Real 14/4/1914), tornou-se ministro da República, político influente dos novos partidos republicanos, defensor da divergência ideológica, defendendo a pureza do seu republicanismo.
Mas havia também os que sempre foram republicanos.
Cristiano de Carvalho foi um dos caricaturistas mais arregimentados que lutaram com o lápis satírico, não só pelo derrube da monarquia, como pela criação de uma nova sociedade igualitária. Como refere João Freire (numa carta que me endereçou a propósito deste artista), embora Cristiano de Carvalho fosse certamente um republicano, no sentido de opositor ao regime monárquico e à influência então exercida pelo clero católico em Portugal, ele era sobretudo um anarquista ou libertário que perseguia o ideal de um regime político marcado pela socialização (ou dissolução) do poder político, associado a um regime económico e de propriedade marcado pela socialização da riqueza e dos meios de produção.
É certo que Cristiano de Carvalho se colocou entre aquele grupo de libertários que mantinha estreitas relações com os republicanos “avançados”, ou seria um republicano que se considerava libertário e sempre manteve fortes laços com o movimento anarquista portuense.
Com a implantação da República, o seu trabalho não esmorece, pois tinha caído o regime monárquico, mas não a estrutura política de governação. Para ele, e para muitos outros mantinha-se a esperança idealista da construção de uma nova sociedade igualitária. Prossegue com a publicação de textos e desenhos em periódicos como “Pardal” (1911), “A Águia” (1912/14), “A Bomba” (1912 - de que era director), “O Miau” (1916), “O Garoto” (1917), “Nortada” (1923), “Pirolito” (1932).
Entretanto, a chama irreverente foi-se apagando perante as frustrações do quotidiano, perante o caminho da utopia para o abismo da ditadura. Pouco antes de morrer escreveu ainda as suas memorias em livro, falando de homens que conheceu e admirou. Morre em 1940 um idealista que usou a pena gráfica e literária como arma fundamental de irreverência e sonho na criação de um mundo melhor… sem políticos.
Outro revolucionário, não politica, mas esteticamente é Luíz Filipe (Gonzaga Pinto Rodrigues) (Melgaço 21/3/1886 - Viana do Castelo 10/8/1949) o mais velho da corja de trocistas dos pioneiros do moderno.
Segundo Alberto Meira (in Revi. Prisma), na realização da caricatura em Portugal, marcou um ponto estranho a tudo quanto até então se produzira no género, a despreocupada falange de humoristas novos, que em Coimbra, cerca de 1910, se apresentava nas páginas duma revista da especialidade, infelizmente de curta existência. Lá nos surgiu o nome de Luíz Filipe, ao tempo, preparando-se para o bacharelato em leis. De tal forma se evidenciara o seu mérito que o Engenheiro António Arroio, crítico eminente, se propusera apadrinhar a carreira na Capital, o que em breve o consagraria, se os sucessos políticos, então desenrolados, não se reflectissem em tantos elementos espirituais que no momento enfrentavam a vida pública.
Ele é o ironista da elegância, possuidor de um traço caligráfico expressionista, de influência germânica. Seria o director artístico de “A Farça” (Coimbra), e colaborou na “Ilustração Portuguesa” (Lisboa), “O Povo” (Viana do Castelo), “Límia” (Ponte de Lima), “A Águia” (Porto), “A Sátira” (Lisboa), “A Montanha” (Porto), “Folha de Viana” (Porto), “A Rajada” (Coimbra), “A Bomba” (Porto)… ou seja, espalhou a sua arte por diversos pontos do país, fugindo contudo da Capital. O tal protector não o convenceu, e findo o curso em 1911, regressa à terra paterna, Viana, e iniciará a sua carreira de Notário e advogado por Melgaço, Viana e Monção.
Foi um criativo irreverente nestes anos de 1909 a 12, para abandonar as artes e dedicar-se às Leis. De todas as formas ainda o iremos encontrar de tempos a tempos, na imprensa regional. No final da vida deixar-nos-á a galeria caricatural da sociedade vianense dos anos 30/40, e será um brilhante cartazista das Festas da Sª da Agonia.
Entretanto Cerveira Pinto tinha morrido em Setembro, e Christiano Cruz vem para Lisboa, já que em consequência da Revolução seu pai, militar, é transferido para a Capital. Em Coimbra, do grupo pioneiro do modernista fica Luíz Filipe (por pouco tempo) e Correia Dias. Hoje à distância, vendo o resultado do desmembramento do Grupo de Coimbra, onde se entre ajudavam e orientavam, faz-nos sonhar como teria sido o futuro artístico desses artistas, se se tivessem mantido juntos…
Infelizmente cada um foi para o seu canto, e perderam-se…
Nesta linha de revolução estética, ainda neste ano de 1910, encontramos a fundação de “A Águia”. Com capa desenhada por Correia Dias (um dos estetas do grupo de Coimbra), será o porta voz da Renascença Portuguesa, que lutava contra a “abulia e pessimismo nacionais”, contra o obscurantismo e a ignorância, editou obras dos principais pensadores e escritores da época, assim como ilustrações satíricas e sérias de Correia Dias, Luís Filipe, Christiano Cruz, Cristiano de Carvalho, Jaime Cortesão, Sanches de Castro, Virgílio Ferreira, António Carneiro, Cervantes de Haro, João Augusto Ribeiro, Júlio Ramos…

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