Friday, April 10, 2009

Historia da Caricatura de Imprensa em Portugal - O PERÍODO DA RUPTURA NA TRANSIÇÃO DO SECULO (Evocação de Celso Hermínio por Leal da Câmara)

1895
Por: Osvaldo Macedo de Sousa
«/ ... / com saudade, como recordo com emoção todo aquele tempo, (palavras de Leal da Câmara em Conferência no Grémio Alentejano em 1938) tão distante, que hoje é história de Portugal e que, n' este edifício vivi com entusiasmo ainda que infantil, como foi o período do ultimato e do 31 de Janeiro.»
«Crianças, quasi todos os que estavam n'esse momento n'este Palácio, vibraram de indignação. Lembro-me que se organizaram extraordinários comícios de protesto e que os livros de latim e as tábuas de logaritmos, serviram para fazer verdadeiras barricadas!... »
«O nosso inimigo é que não era visível porque n'esse momento, o ponto nevrálgico, como agora se diz, estava em Lourenço Marques e a nossa indignada opinião levava-nos a afirmar que era lá e só lá que seria necessário ir combater!...»
«E a briosa academia decidiu, desde esse momento, formar um batalhão que fosse defender o nosso prestígio em terras d'Africa, mas alguém lembrou que, para tal, seria necessário que soubéssemos marchar convenientemente. que soubéssemos obedecer ao comando, que tivéssemos instrução militar e que conhecêssemos o manejo das armas de fogo...»
«E, a partir d' esse momento, um dos nossos colegas que era cabo de infantaria, o conhecido poeta Afonso Gaio, deu-nos, por estes corredores e pátios, o conhecimento dos segredos do "ordinário marche", do passo acelerado e do "esquerda volver"!...»
«Inútil é dizer que eu era um dos mais aguerridos e decididos pioneiros d' essa cruzada não só fazendo exercício com um pau da vassoura mas deixando por estas paredes e pelas carteiras das aulas, com a ajuda do lápis e do canivete, os vestígios da nossa colectiva indignação e que era representado por um inglês pirata a roubar um preto do bolso de um Zé Povinho.»
«Na minha carteira, a meu lado, apareceu por esse tempo, transferido de uma escola do Porto, um Sargento Cadête de caçadores, muito magro, de olhos enormes e sonhadores, bigode fino e comprido com um não sei quê de bigode tártaro, envergando uma fardeta castanha, muito apertada, de onde extraía, de vez em quando, com os seus finos dedos, um vidrinho redondo através do qual, manobrava os grande holofotes que eram os seus olhos.»
«Foi n'esta mesma sala, mais pequena então porque dividida em várias aulas, toda forrada com um grande rodapé de azulejos representando cenas galantes do século XVIII, que, na mesma carteira e, ao meu lado direito, encontrei esse sargento de caçadores que olhava com curiosidade, atravéz do seu monóculo a minha sanha de gravador de carteiras e o meu indignado empenho em ir combater os piratas para Lourenço Marques.»
«E, dizia-me ele, com o seu sorriso irónico, quando eu o quiz aliciar para o nosso batalhão: -Mas você tem uma ideia do peso de uma espingarda Kropatchek ? »
«Esse sargento, meu saudoso companheiro de carteira n' esta mesma sala em que tenho a honra de falar a Vossas Excelências, era Celso Hermínio de Freitas Carneiro que, mais tarde, abandonando a farda, na plena pujança do seu talento e envolvido na agitação da vida portuguesa de então, foi o colaborador de tantos jornais e revistas em que o seu espírito original deixou a sua marca profunda.»
«Celso Hermínio publicou, de colaboração com Tito Martins e Augusto Pina, o semanário "O Micróbio" que teve um grande êxito no meio lisboeta.»
«A sua actividade artística espalhou-se por publicações literárias e artísticas como o "Branco e Negro" de José Sarmento - Domingos Guimarães, pelo "Supl. Ilustrado do Universal", pelo "Diário de Notícias" no tempo da direcção do Dr. Alfredo da Cunha, da "Carantonha" e de várias outras publicações mas deve destacar-se na sua obra de grande jornalista do traço, os croquis que executou para o poema de guerra Junqueiro ''A Pátria", e os desenhos com carácter panfletário que publicou no semanário "O Berro" com a colaboração brilhantíssima de João Chagas.»
«Datam d' esse tempo as minhas relações pessoais com Celso Hermínio com o qual tive o prazer de ter intimidade pois, não só a vida agitada da época nos unia em idênticos ideais, tendo por esse facto, amigos comuns, como éramos também companheiros inseparáveis da inevitável bohémia, própria da nossa idade e até pela circunstância da casa da minha querida Mãe onde eu morava, ser na Rua do Cardal à Graça justamente duas portas distante da casa onde morava. n' essa mesma Rua do Cardal, o Coronel Carneiro, pai de Celso Hermínio.»
«Não só portanto, uma comunhão de ideias, e uma admiração profunda pelo seu talento e ainda, uma amizade fraterna nos unia mas até um companheirismo de todos os dias, melhor dito - de todas as noites - pois vínhamos sempre ambos, até aos altos da Graça - ou nós não fossemos humoristas - depois de horas passadas na Cervejaria Gelo onde era o nosso quartel general.»
«A obra de Celso Hermínio não é contudo limitada à sua produção jornalística. As suas faculdades de sensibilidade e de observação, faziam d' ele um verdadeiro pintor.»
«As suas aguarelas e sobretudo os seus magníficos pasteis, representando tipos populares, a vida nocturna da cidade, com os tons amarelado das luzes de petróleo e o claro escuro violento que marca uma figura a sahir da sombra de uma rua, uma mulher formosa que ele chamou Mulher do Bairro Alto e outra, não menos formosa pela sua doce e poética evocação literária - A Maria do Céu - nunca tiveram melhor pintor do que Celso Hermínio e, se fosse possível descobrir e reunir a obra pintada d' este artista, aliás quasi desconhecida, estou certo de que ela representaria uma verdadeira revelação. Porque, Celso Hermínio, era antes de mais nada, um intelectual.»
«O seu trabalho mental era intenso e exteriorisava-se sob a forma d' aquelas páginas e d' aqueles desenhos de um decorativismo estranho em que os elementos mais variados se entrecruzavam, qual fora uma arte intercepcionista como as ideias que ferviam naquele cérebro de artista. Influenciado talvez pela beleza simples mas cheia de tradição e de encanto, d'aqueles artistas artífices populares que, por Viana do Castelo, por Braga, Barcelos, esgravatam a madeira produzindo aquelas maravilhosas obras de arte rústica que são as cangas minhotas, Celso Hermínio transplantava para as suas decorações o simbolismo dos mesmos corações atravessados por uma seta, aquelas estrelas, as luas e o sol que formam os ornatos dos jugos nortenhos.»
«Mas, não só esses elementos eram a base das suas ornamentações estranhas pois o seu espírito filosófico, intercalava no conjunto decorativo, uma lanterna de casa de penhores, uma mulher esquálida de seios ressequidos, simbolizando a tísica e outra recurvada a um canto, em um claro escuro digno de Rembrandt, representando a miséria ou a fome.»
«Havia nas páginas do Celso um misto de idealismo e de tragédia, como acontece nos Caprichos de Goya mas, dos seus desenhos evolava-se sempre, uma impressão de encanto, de firmeza de expressão e de maestria.»
«Foram essas qualidades, esse intelectualismo, que o aproximaram dos representantes da literatura nova de então, do poeta dos Oaristas, de Eugénio de Castro, de Justino de Montalvão, de Raul Brandão, de António Patrício e de Malheiro Dias, dos quais foi o mais preciosos dos colaboradores artísticos.»
«O seu talento, facultou-lhe o convite para ir desenhar para o Brazil, num grande quotidiano do Rio de Janeiro que se chamava o "Jornal do Brasil" e onde produziu uma obra notável.»
«Lá o acompanhamos até ao navio que o levava a terras de Santa Cruz, os seus companheiros de todos os dias e de todas as noites entre os quais me lembro que estavam Manuel Penteado, o ilustre humorista do "Ditosa Pátria", Júlio Dantas, Chaby Pinheiro, Chico Redondo, o jornalista Fernando Mendes, o Director d' esse grande diário do Rio de Janeiro para onde o Celso ia desenhar, escreveu um magnífico artigo de apresentação do artista nos Perfis Contemporâneos e que peço vénia de repetir em parte, porque esse define e retrata a figura de Celso Hermínio muito melhor do que o poderia eu fazer.»
«Desde que m'o apresentaram, simpatizei com ele. Quem nos aproximou, foi o Jayme Victor que é um entusiasta do talento do desenhista e do espírito do caricaturista. O entusiasmo tem razão. Celso Hermínio, desde os ensaios no António Maria, até ás scintilações do Berro revelou-se artista, em toda a extensão da palavra. Foi evidentemente nos 18 números d'este malogrado hebdomadário que eu pude apreciar a firmeza do lápis e a excelência da maneira do caricaturista. É abrir ao acaso qualquer dos números do pequeno semanário de combate e de propaganda republicana.»
«Ora vemos a sátira fina e pungente ora a charge terrível e envenenada contra um personagem, vibrante contra um sistema político.»
«Na crítica acerba contra um ministro, na objurgatória contra o responsável supremo, pelos desacertos da administração, na dardejante e fina agressão contra as instituições que ele combatia, Celso Hermínio jamais esqueceu a Arte e, na correcção das linhas, na fortaleza do desenho e na felicidade da inspiração achou o ideal do caricaturista, consubstanciando todos estes elementos e formando o mais temeroso dos libelos, o que mais cala no espírito popular, a caricatura verdadeira no retrato e real na reprodução gráfica do pensamento do propagandista.»
«O jovem artista conseguiu impressionar-me pela robustez do seu talento e pela gentileza do seu trato pessoal.»
«É uma alma viril nas delicadas feições de um adolescente. Os olhos são vivos, grandes e francos; a cabeça é sugestiva. Sem as exagerações decorativas dos falsos artistas, natural de gestos, sóbrio de ademanes, aparte o constante sorriso irónico que lhe brinca nos lábios, finos e descorados.»
«Quando estávamos a combinar a viagem para o Brasil, perguntei-lhe se, entre os trabalhos de que o incumbira o Jornal do Brasil, poderia incluir desenhos, como um cartaz cujo modelo tinha na mão... Não, respondeu-me. Isso é de uma regularidade matemática. Ao artista repugna sempre, essa regularidade... O meu lápis é essencialmente irregular...»
«Está definido o nosso jovem caricaturista português. A sua imaginação transmite ao lápis veloz e artisticamente as impressões que lhe transmitiam tal e tal facto, tais e tais sucessos.»
«Não lhe peças porém, o desenho fotográfico da fachada da Sé de Lisboa ou a reprodução gráfica da marca da fábrica da banha Suarez. Tal era Celso Hermínio.»
O "Micróbio" será um sucesso que se prolonga por 1895, só que era um sucesso local, o que não dava grandes margens de sucesso económico, morrendo nesse ano a 9 de Maio.
De destaque neste ano é o aparecimento do jornal "Os Ridículos", o jornal humorístico com maior longevidade da história da caricatura. Passou todos os regimes, desde o monárquico até à democracia de Abril, apesar de ter tido períodos vários sem publicar, e de ter passado a propriedade por diversas mãos. Foi uma longa vida, com altos e baixos, com a presença dos melhores caricaturistas, como dos piores, nunca conseguindo um estatuto entre as classes intelectuais, razão pela qual se tem sido tão injusto com este periódico.
Pela sua importância será de referir que ala série vai de 3/10/1895 a 1/6/96 (tendo tipo como ilustradores Leal da Câmara, B. Pereira, José Raposo, Humberto Morais): a 2º série vai de 6/1 a 17/2 de 1897; 3ª série de 12/4/1905 a 8/6/1963 (ilustradores: Silva e Sousa, Guilherme Cayres, Refilão, Alberto Sousa, Silva Monteiro, José Luís Júnior, A. Ribeiro, Jorge Colaço, Cândido Silva, Alonso...); 4ª série de 2/9/1967 a 31/7/75. Ou seja, cerca de 70 anos de existência, dando trabalho a 66 humoristas gráficos, para além dos da escrita onde pontuam Caracoles - José da Cruz Moreira), Esculápio (Eduardo Fernandes)...

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