Tuesday, March 10, 2009

Historia da Caricatura de Imprensa em Portugal - 1893

Por: Osvaldo Macedo de Sousa

No ano de 1893 surge o jornal "Pontos e Virgu­las", mais um no Porto, com obras de um (Avelino de Sousa) Pires Guimarães, Raphael Gil, Nogueira... Também neste ano se destacam as colaborações de Raphael Bordallo no "Comércio do Porto".
Um dado constante, é a base dos editoriais dos primeiros números dos jornais humorísticos. Naturalmente aqui apresentam o seu editorial, as suas intenções. Só que estas, na grande maioria, não passam de banalidades, defendendo apenas que são porta-voz da Verdade. E no caso das orientações filosófico-humorísticas denota-se uma falta de consciência estético-social, de um desconhecimento da importância do humor na influência da opinião da sociedade. O humor existe apenas como divertimento, ou como fórmula jornalística de ser oposição. Isto não acontece com os jornais de Raphael, onde na maior parte das vezes são pequenos tratados filosóficos do papel do jornalismo e da crítica. Entretanto, apesar de nem sempre vir manifesto no editorial do jornal, surgem alguns humoristas de poderosa consciência política, que conhecem a arma que têm na mão, e que a vão usar nos seus objectivos ideológicos.
Como referi, surge então o "Pontos e Virgulas" onde Nogueira terá um papel essencial (entretanto já tinha pub­licado em a "Maria Rita" em 85, "O Pae Paulino" e "Comédia Ilustrada" de 91). Alberto Meira, nos seus Verbetes Biográficos em "O Tripeiro", esclarece-nos quem é este tripeiro, mais um raphaelista na arte do humor: António de Sousa Nogueira Júnior nasceu no Porto, freguesia de S. Nicolau, a 9 de Setembro de 1854, onde também faleceu, a 15 de Novembro de 1921.
Autodidacta, quer no estudo de vários idiomas, quer na prática do desenho, da litografia e da gravura. Sobretudo como desenhador, a sua obra é considerável. Por muitos anos desenhou para as oficinas de gravura química de «O Comércio do Porto» e serviu outros estabelecimentos industriais. Em 1 de Outubro de 1893 apareceu o semanário ilustrado «Pontos e Virgulas», tendo como redactores Augusto Pinto e Teotónio Gonçalves e logo no nº 8 apresenta Sousa Nogueira como ilustrador, em substituição de Avelino de Sousa Pires Guimarães, e nessa situação se conserva até ao último número, em 28 de Dezembro de 1895.
Mas, passados poucos dias, a 5 de Janeiro do ano seguinte, surge novo semanário de idênticas características, «Os Pontos», agora com Sá de Albergaria na Direcção literária e Nogueira na Direcção artística. Terminou a publicação com o nº 52, do 9° Ano, em 18 de Dezembro de 1904.
São, portanto, doze anos de actividade constante a ilustrar semanalmente as quatro páginas, das oito que compunham os periódicos do género, naquela época. A primeira dessas páginas era destinada ao retrato duma personagem em evidência, portuguesa ou estrangeira, e as três restantes à critica humorística, geralmente visando os acontecimentos da vida politica.
O feitio retraído, modesto em extremo, de Sousa Nogueira, o seu viver constante num ambiente familiar, muito recatado, não era de molde a dar-lhe possibilidades de se distinguir como caricaturista, mas em compensação, as suas belas qualidades, de desenhador sobressaem nos retratos, que constituem a valiosa galeria nos seus semanários.
Afora a obra referida, podemos indicar a colaboração artística de Sousa Nogueira n' «O Comércio do Porto», números ilustrados do Natal de 1907 a 1914, 1916 e 1917 e na mesma publicação, número de Carnaval de 1900.
Há também desenhos seus em «A Comédia Ilustrada» - Porto, 1891; «O Pae Paulino» (2a série) - Porto, 1891 e «O Cunha» - Almanaque, 6° Ano - Porto, 1911.
Como gravador, Nogueira conhecia todas as diversas modalidades, encontrando-se dispersas as suas produções, pois a maior parte destinaram-se a fins comerciais e industriais.
É interessante ver como fervilha o humor gráfico, parecendo até que não existem problemas com a censura (em 1890 foi publicada uma nova Lei de Imprensa, onde a opressão jornalística está bem presente, reforçada em Fevereiro de 1891 e em 1898) com a política. É como se houvesse boa saúde económica na sociedade, em vez da crise constante, em que o público anda quase sempre de calças na mão, e cheio de 'albardas' sobre os costados. De todas as formas, os jornais surgem (é verdade que também desaparecem de imediato), assim como artistas do humor. Se na grande maioria eles são medíocres, e não merecem referência histórica, mesmo que quiséssemos falar desses artistas, pela pacatez das suas vidas, muitos deles amanuenses anódinos, artesãos de casas tipográficas, vivendo o dia a dia na sobrevivência pacata, nada sabemos deles. De igual modo tem sido difícil falar da vida de alguns deles, que pela sua obra se têm destacado da mediocridade.
Outra questão é se todo o desenho gráfico que surge na imprensa, mesmo com intuitos humorísticos pertence na verdade à arte da caricatura. Julieta Ferrão, no seu livro "RBP e a Crítica" diz-nos que "não é fácil ser cari­caturista, não basta o conhecimento profundo do desenho, das proporções, o aturado estudo! Para se ser caricaturista é necessário possuir um temperamento e uma visão muito invulgares, reunir ao conhecimento profissional do desenho, especiais qualidades de imaginação, de observação, de chiste. Com pertinaz estudo pode-se vir a ser um desenhador humorista, não um caricaturista. O caricaturista, na mais alta e mais complexa expressão da sua arte, tem de ser um sociólogo, moralizador, critico, sensatamente mordaz, sem nunca deixar de ser Artista. Alguma coisa complicada e rara."
Se do grupo que se segue nenhum chega a ser Caricaturista, neste âmbito conceptual, mais uma vez registamos aqui a série de nomes que têm aparecido nestes últimos anos na imprensa satírica: (Alfredo) N. Santos, Zé do Grilo, Zé da Rita, Gil, Braz, E. Castro, Raul, Albatróz, Pedro Selvas, Júlio Machado, Calado, Henri Grilló, Gama, Káran, S.Maurice, A.S. Guimarães, J. Galvão, A.S. Pires Guimarães, Raphael Gil, Augustos, Mariares, ,J.R., J. Con­stantino, J. Rebello ... Alguns deles ficarão posteriormente conhecidos na pequena história da pintura e do desenho, sendo o humor o primeiro passo de sobrevivência em início de carreira.
Em relação aos temas da caricatura, já referimos a importância de Fontes Pereira de Mello que dominará muitas das sátiras, mas será uma injustiça não fazer a referência a todos os governantes que ao longo destes anos dividiram entre si os destinos do país, procurando constantemente surgir nas páginas satíricas, para sua glória pessoal, e para castigar os pérfidos caricaturistas com mais trabalho. Nomes como Anselmo Braamcamp, António Serpa, Rodrigues Sampaio, Marquês D'Âvila, José Luciano de Castro, João Crisóstomo, Mariano de Carvalho, Hintze Ribeiro, Júlio de Vilhena, Serpa Pimentel, Barjona de Freitas, Tomás Ribeiro, António Augusto de Aguiar, Barros Gomes, Dias Ferreira ... um João Franco ascendente ... são uma constante nas páginas dos jornais, e nos desenhos aqui apresentados (gostaria de ter tido a possibilidade temporal de apresentar todos os desenhos com as personagens identificadas, pois conseguiria fazer facilmente alguns, e com muito mais trabalho outros, contudo a falta de disponibilidade temporal não o permite).
São nomes que se vão mantendo, ou alternando ao longo dos anos, pelo menos desde que Raphael se iniciou na caricatura em 1870. Alternaram os políticos, uns morreram, outros reformaram-se, e os tempos foram também mudando. A influência do 1848 francês já estava ultrapassada, e as influências do 1890 francês far-se-iam sentir de outra forma. As asneiras governativas sucediam-se, a monarquia não conseguia suster o aumento constante da crise do regime.
Mas existe uma personagem, com barba, um ar um pouco de 'judeu' que se destaca pela constante crítica que lhe é endereçada. É Henrique Burnay o banqueiro que, se por um lado conseguiu financiar as grande obras que trouxeram um pouco de progresso a Portugal, por outro lado levou os diversos governos à bancarrota, e consequente aumento de impostos sobre o lombo do Zé. Sendo um homem do progresso, é também o homem a quem chamam ladrão, oportunista, vendilhão do país... o Homem dos Monopólios, e verdadeiro senhor do país. Raphael Bordallo Pinheiro continuava a ser o grande mestre estético do humor gráfico, mas cada vez menos o virulento caricaturista da "Lanterna Mágica" e da primeira série do "António Maria". Naturalmente a presença de Guilherme d'Azevedo, Ramalho Ortigão... nesses primeiros anos incutia uma maior agressividade aos seus jornais, mas as diversas desilusões no meio jornalístico (com os jornalistas e não com·os políticos), no meio político (com os políticos e não com os jornalistas), e no âmbito económico que onde tocava, mesmo que fosse sucesso económico, Raphael tinha artes de perder dinheiro), a doença, o interesse cada vez mais crescente pela cerâmica, afastaram-no aos poucos do prazer da sátira, do humor gráfico. Os seus próprios jornais, onde o filho Manuel Gustavo não tinha alma de sátiro, antes de um ironista dandy, iam perdendo agressividade. Vivendo nos brandos costumes da época, verifica-se um aumento de assuntos da "high-life", entre cortados com momentos especiais de grande fúria satírico-patriótica ...
Se nunca conseguirão substituir a importância dos jornais dos Bordallos, novos artistas irão substitui-los na agressividade satírica, pondo-se à frente na luta contra o regime.

Comments: Post a Comment



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?