Saturday, January 19, 2008

JOÃO ABEL MANTA – GRÁFICA

Por: Osvaldo Macedo de Sousa
O Prémio Stuart-Regisconta de 1988 foi outorgado ao Mestre João Abel Manta. Este Prémio Stuart não tem nada a ver com o criado posteriormente pelo Corte Inglês. O original foi criado por mim com o apoio da Câmara Municipal de Vila Real, contudo só viveu dois anos por falta de apoios económicos (1987 – Vasco de castro, 1988 – João Abel Manta).
Este prémio por carreira consistia numa exposição retrospectiva, e publicação de um álbum. O texto que se segue, é o que eu escrevi para esse álbum que tem por titulo João Abel Manta – Gráfica.

INTRODUÇÃO
Por detrás da obra há quase sempre um Homem, com a sua vida privada, com as suas vicissitudes existenciais. Entre ambos, a obra e o artista, há um jogo de sobreposições, ou de distanciamentos, de que o resultado é haver obras que se celebrizam mais que o seu criador, ou artistas mais prestigiados que o resultado do seu trabalho. Naturalmente, também pode haver o equilíbrio.
Neste caso, tanto a obra como o homem são personagens que se escondem do grande público, por vontade do próprio J.A.M.. Pela sua forma actual de ser, não é uma pessoa de sociedade, não gosta de se ver misturado nessas multidões de intelectuais que rodeiam os governos, que se mostram nas inaugurações, que comem e bebem nos cocktails. Tão pouco gosta de mostrar a sua obra ao público, nem mesmo aos amigos. A obra é uma criação sua que só mostra ao público quando as condições são adequadas, ou quando este sente necessidade, o que costuma ser raro.
Este jogo de escondidos entre o autor e o público existe fundamentalmente no campo da pintura, obra a que o público raramente tem acesso, mas que o projecta no grande mundo das artes.
Paralelamente, existe uma carreira gráfica que, pelas suas características intrínsecas de comunicação, é naturalmente mais conhecida. Trata-se de um género de que se afastou há alguns anos, para "triunfo" da pintura, mas que ficou marcado na memória das pessoas, devido à força, à qualidade estilística e de intervenção. Esta vertente, que se mantém viva na memória do público, desagrada-lhe, uma vez que João Abel prefere ser recordado essencialmente como pintor, o que o leva a lutar contra essa imagem que o tem rotulado, numa primeira abordagem do seu nome.
São obras de uma arte efémera, ligadas a estruturas frágeis, com uma lingua¬gem que muitas vezes tem de ser simplista, para melhor comunicação. Poderão ser talvez artes menores, por todas aquelas razões, por não terem a sacralidade do único. Porém, há artistas que, pela sua obra, tornam ridícula qualquer separação entre os géneros de arte.
Pode-se certamente catalogar João Abel Manta como um ilustrador, um gráfico, um satírico, ou, como agora se diz, um "cartoonista". Só que isso seria limitar a sua obra e não ter a percepção completa da sua criação, do seu estilo. José Cardoso Pires, em conferência, defendeu que ele é um artista de «visão global e poliédrica, e vejo-o em dimensão renascentista. Ele que me perdoe a lisonja, mas vejo-o. Por vezes tem para mim os vícios aristocráticos e individuais do espírito da Renascença, mas tem a imaginação, o rigor e a coragem que fazem a amplitude dos humanistas. Todas as técnicas e todas as expressões do nosso tempo o desafiam e lhe são dele enquanto traço e cor; toda a comunicação, todos os Media o provocam como partes duma exploração do homem global».
Esta perspectiva está dentro da própria auto-definição do artista, que se vê acima de tudo como um Artista Plástico, abrangendo com esse conceito a liberdade de trabalhar em todo e qualquer género de criação plástica. Desse modo João Abel Manta é Arquitecto por formação académica; Pintor por opção estética assim como é Artista Gráfico, Gravador, criador de trabalhos decorativos para integração na arquitectura, Cenógrafo por obra realizada.
É também de destacar o seu trabalho de "design" ligado ao livro e ao jornal, desenvolvido no âmbito tipográfico e caligráfico, um pouco na tradição de Stanley Morison, cuja obra J.A.M. estudou em Londres. O que está aqui em jogo é a destruição de barreiras entre definições de géneros, bem como a força de intervenção do artista na sociedade através da sua obra. Essa abordagem, ou «engagement», pode ser interpretada das mais variadas formas, com as designações mais díspares, inclusive com a de «cartoonista».
Um dos responsáveis pela divulgação e difusão deste termo - «cartoon» -foi João Abel Manta, tendo mesmo baptizado (com sentido auto-irónico) um dos seus álbuns com este anglicismo que veio suplantar os termos de "ilustração humorística" e "caricatura", reforçando o conceito. O «cartoon» não é apenas um "gag" cómico em sátira, ou ironia gráfica, mas uma intervenção de um artista plástico na sociedade, com um ataque-opinião a um dado momento datável.
Apesar daquela responsabilidade, apesar de ter cultivado, em certo período da sua carreira, o «cartoon» com obras que marcaram a história da sátira política, sempre recusou esta filiação, por se considerar o artista plástico que, em determinado período político do país, sente a necessidade, por não haver outros na época a fazê-lo, de se expressar satiricamente pela caricatura política.
Com esta posição, João Abe1 Manta não rejeita o humor, a ironia ou a sátira nas artes plásticas; não rejeita a intervenção gráfica no quotidiano, mas a forma e o estilo que domina certos humoristas gráficos actuais. No fundo, também não rejeita o "cartoonismo", por ser uma intervenção necessária, no momento oportuno, e na forma correcta, contra poderes usurpadores, contra correntes filosóficas e políticas que põem em perigo a sociedade.
Ao defender a exclusão do seu nome entre os «cartoonistas», quando ele foi um interventor notável no estilo e na técnica, está a cair no erro daqueles historiadores que dividem as artes em maiores e menores, em vez de artistas maiores e menores; está a minimizar a sua obra gráfica, retirando-lhe as qualidades pictóricas e estilísticas que possui, confundindo-as com trabalhos menores de outros «cartoonistas».
Neste trabalho, onde vai surgir o «cartoonista», o ilustrador… o que está em estudo não são especificamente esses géneros, mas o homem-artista plástico, a globalidade da obra gráfica, a obra de um mestre em ironia e intervenção.

A VIDA E A OBRA
Q nascimento do artista, para os biógrafos e para o público, procura envolver-se quase sempre num ambiente de magia, onde poderão estar presentes sinais da sua futura genialidade, logo expressa em histórias anedóticas da sua espontanei¬dade artística.
São desconhecidas manifestações fantásticas, ou cosmológicas, a respeito de João Abel Manta, pois o artista, apesar de se deixar envolver em simbologias nos seus quadros, não gosta de expor ao público a sua vida privada. É avesso à coscuvilhice dos cronistas, de historiadores e demais vampiros das vidas alheias. Contudo, o halo da arte sempre o envolveu, que mais não seja por ser filho de artistas plásticos, por a sua casa estar aberta ao convívio de amigos intelectuais e artistas.
Mesmo sabendo desta aversão, por vício profissional, é necessário eu entrar no relato desses pequenos elementos que pontificam o colorido da carreira de um artista.
João Abel é filho da pintora Maria Clementina Carneiro de Moura e do pintor Abel Manta, tendo nascido em Lisboa a 29 de Janeiro de 1928, quando a ditadura e o Estado Novo lançavam o seu manto sobre o país. Se na rua as vozes tinham que calar, em casa João teve uma infância e adolescência felizes, rodeado pela arte e pela curiosidade do saber. Os pais levaram-no sempre nas suas viagens pela Europa, visitando assim a Espanha, França, Itália, Países Baixos ... registando na sua memória imagens inesquecíveis da Europa anterior à segunda Grande Guerra. Era uma Europa diferente, onde se recortam figuras, hoje míticas, da arte europeia, que ele viu nessas viagens.
Desde criança, ele era urna pessoa interessada sobretudo e consequentemente apoiado por seus pais com uma educação plástica e intelectual cuidada, com uma visão global da cultura.
Como já foi referido, a sua vida foi dominada pelas artes, seja no convívio quotidiano com o trabalho pictórico de seus pais, no conhecimento educacional das visitas familiares ao estrangeiro, como também pelos amigos que frequenta¬vam a sua casa, ou as tertúlias dos cafés da Brasileira e do Chiado, onde o seu pai tinha assento privilegiado. As tertúlias, na altura, eram os verdadeiros centros culturais (e de liberdade) na troca de ideias, de experiências, de transmissão de dados adquiridos e de revelações ainda desconhecidas. Por vezes, essas conversas tinham que ser feitas à surdina, mas faziam-se.
Num desenho de juventude, dos anos quarenta, João Abel retrata, em charge, uma das "bandas" de amigos que se costumavam reunir com o Abel Manta pai. O painel que nos é dado, é o seguinte: o maestro Fernando Lopes Graça dirige o grupo, composto por Abel Manta ao clarinete, Manuel Mendes ao saxofone, José Segurado na flauta, Francisco Keil do Amaral na tuba, Fernando Abranches Ferrão na viola, José Rocha no violoncelo, Albano Costa Lobo no sousafone, Dário Martins nos ferrinhos, Peres de Carvalho no bombo e Mário Novais Género Nadar a fotografar tudo isto. Claro que não é o retrato de um grupo musical, mas uma imagem simbólica da unidade harmónica destes intelectuais e artistas que, perante o ar tenebroso e afonia que dominavam o país político, encontravam na amizade e na troca de ideias a única porta de liberdade de pensamento. Eram as ilhas de sobrevivência possível, donde por vezes surgia a força de lançar uns arpões contra a ditadura.
João Abel Manta desenvolveu-se nesse meio de arte, de gosto pela liberdade que não havia, de oposição ao regime. A oposição fazia-se por ideias, por atitudes, e nas artes, nessa década de quarenta, ainda dominada pelo modernismo pseudo-cosmopolita apadrinhado pelo Ferro, a oposição nascia também como neo-realismo ou surrealismo. Naturalmente, o jovem artista também comungou das mesmas influências de oposição estilísdca, e participou nas atitudes públicas, e nas Exposições Gerais de artes plásticas de S.N.B.A..
Os anos quarenta/cinquenta, quando João Abel gastava os últimos anos de "teenager", foram de rebelião, do despertar de uma juventude aliada a velhos republicanos com exigências de democracia. Foram anos de intervenção política e cultural. João Abel lá estava no meio, irreverente e actuante, em actividades múltiplas de arte e cultura. Essa irreverência levá-lo-ia à prisão da PIDE a 1 de Fevereiro de 1958, onde ficou alguns meses.
Enquanto estas actividades políticas e culturais se desenvolviam na vida do jovem que lutava contra a estagnação do país, que seria também a sua própria estagnação, o ciclo académico prosseguia, passando do Liceu para o curso de Arquitectura na E.S.B.A.L.. Fez o curso de 1946 a 1951, seguindo-se um estágio de dois anos num atelier de arquitectura, obtendo dessa forma o diploma em 1953. De imediato deu início à carreira profissional com projectos arquitectóni¬cos e urbanísticos.
A arquitectura foi durante largo tempo a sua profissão. Porém, a actividade cultural anteriormente descrita levá-lo-ia à intervenção social, através das armas que possuía, as artes plásticas, em que o desenho, o grafismo, é uma linguagem privilegiada para a comunicação fácil e directa com as massas. Foi nessa campo estético que se desenvolveu o contraponto à arquitectura.
O desenho é a chave mestra, tanto da arquitectura, como das artes gráficas, e esse elemento é a base forte da formação académica de João Abel Manta. Ele diz que sempre desenhou, já que os rabiscos são a expressão mais espontânea de qualquer criança, mas os primeiros trabalhos conhecidos datam do final da década de quarenta.
Nos anos cinquenta, o desenho ganha força de ilustração impressa, podendo-se descobrir esses trabalhos como ilustrador de Boccacio, Dante, Cervantes, D. Francisco Manuel de Melo, Padre António Vieira, E. Waugh, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Cardoso Pires... Também publica desenhos de humor no «Século Ilustrado». São os primeiros trabalhos, onde já se manifesta a versatilidade estilística do artista.
Influenciado pelo Modernismo, em resquícios da segunda geração que ainda dominava a arte em Portugal; enriquecido pelo espírito renascentista/humanista da sua educação cultural, numa apreensão total das correntes estéticas seculares; descobrindo as novas filosofias do pensamento artístico, que procuravam a resolução da ruptura no pós-guerra; inserindo-se no pensamento oposicionista ao regime... esta é a caracterização de João Abel Manta.
Para cada trabalho há uma linguagem mais adequada, um grafismo que se coaduna com o conteúdo e estilo literário da publicação, e ele sabe escolher. Por vezes, a esses elementos "pedidos" pela obra, aliam-se as experiências estéticas que o artista investiga no momento, fundindo-se elementos "arcaicos" com abstraccionismos, com a ironia surrealista, a colagem fotomontagem ... O resultado é o mais variado, sem nunca cair no banal, no já visto, e pleno de notáveis matizes neo-românticos, renascentistas-barrocos, clássicos-modernistas, realistas¬abstraccionistas...
Também como factor importante desta versatilidade, via educação académica, é a sua formação de arquitecto. Esta, como sugere a frase de Saul Steinberg ("Dottore in Architettura" pela Faculdade de Arquitectura de Milão, curso tirado antes de emigrar para os E.U.A. e aí revolucionar o mundo gráfico) que J.A.M. cita muitas vezes, «o estudo da arquitectura é um treino maravilhoso para tudo menos para a arquitectura. A ideia assustadora de que aquilo que se desenha se pode transformar num edifício faz com que a nossa maneira de desenhar se torne ponderada e racional».
Se se mantém a maleabilidade de traço ao longo de toda a sua carreira, existe também um respeito e influência por artistas como Goya, Rowlandson, Daumier, W. Buch, Forain, Gulbransson, Groz, Feliks Topolski, Saul Steinberg.
A década de sessenta, para J.A.M., é a continuidade de um trabalho, mais por imposição externa, um deixar-se levar pela onda do quotidiano, do que por verdadeira opção estética do artista. A par deste criar por instinto, há nestes anos a descoberta do gosto pelo mundo gráfico, que dará os seus frutos. Falaremos nisso mais tarde.
No âmbito daquela criação por encomenda, o artista trabalhava essencialmente na sua função futura e não pelo seu lado plástico. Construía algo que se destinava a um processo de reprodução em que o original é secundário e o impacto só é dado pelo resultado final, a reprodução integrada no meio para que se destina. São trabalhos que, por si só, retirados do seu contexto, perdem grande parte do seu valor.
Essas obras foram aparecendo em revistas como o "Almanaque", "Seara Nova", "Eva", "Gazeta Musical e de todas as artes", ou em livros.
Folheando trabalho por trabalho, e procurando um estilo único de ilustração, somos surpreendidos pelas constantes opções gráficas, transformando-se em característica a ausência de uma linha de continuidade. Podem-se dar várias explicações, como já foi referenciado, porém um dos elementos fundamentais é o seguinte: como os trabalhos não se sucediam, numa ansiedade profissional de sobrevivência, o artista, quando partia para um trabalho, já não se recordava muito bem das soluções desenvolvidas no trabalho anterior, e lançava-se para o novo projecto totalmente liberto de "tiques", vícios, ou amarras estilísticas. Cada trabalho é uma criação que surge na continuidade da sua obra geral, arquitectónica e pictoral, e não na simples evolução de uma linha gráfica.
Claro que, no subconsciente, havia um registo de dados, de conquistas ganhas pela experiência, desenvolvendo-se numa progressão de maturidade, reflectida no reconhecimento público e na atribuição de Prémios significativos. Ganhou, em 1961, o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, e, em 1965, na cidade de Leipzig, conquistou a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas. Para além destes certames, esteve presente na II Bienal de São Paulo, em mostras internacionais Di Bianco e Nero em Lugano, assim como nas exposições internacionais de Tóquio e Medellin - Colômbia. Expôs também individualmente em Londres, no I.C.A.

A ILUSTRAÇÂO INÈDITA
Estes prémios de desenho, e a sua participação em certames internacionais, relacionavam-se, não só com a evolução e maturidade gráfica do artista, mas também com a própria forma como João Abel Manta passa a encarar este trabalho. Se, até finais de cinquenta, há apenas uma intenção de encontrar a resolução plástica para uma ilustração, a partir daí, e em certas obras, há um fruir do gozo pela criação, esmerando-se no original, fazendo uma obra em si. Há mesmo o gozo de riscar pormenores que muitas vezes se perdem posteriormente na reprodução.
É por essa razão que, normalmente, os originais das artes gráficas são apontamentos, melhorados na arte final, ou na impressão. Porém João Abel, que tinha a mesma política dos outros gráficos, optou pelo gozo da criação desenhando pelo prazer, sem intenções directas de publicação. São desenhos-pintura já em função do durável.
É dentro deste grupo de trabalhos que surgem as obras premiadas, como "O Processo de Koch", "O Ornitoptero", ou as muitas colecções de desenhos temáticos, uns completos e outros incompletos, donde se destacam a série Shakespeariana, vastos envolvimentos cenográficos onde os actores são pequenos pormenores em contenção dramatúrgica, uma filigrana de traços em erotismo, tragédia e ironia. O erotismo será mesmo uma constante sub-reptícia nos trabalhos desta época.
Entre as diversas paixões de J.A.M., o Cinema é uma das que (talvez) se reflicta especialmente nestas obras. Não podendo descrever a acção em vários fotogramas, não deixa de expressar todo o movimento da história, o conflito dos personagens, o prazer. É um mundo com as suas vicissitudes, que dá o enquadramento ao personagem com os seus dramas. É a amplitude contra a pequenez do ser.
Destacam-se também as séries dos "Missionários", uma imagem simbólica dos portugueses "catequizando" os novos mundos; "Piazza", variações sobre a obra de Piero della Francesca; "Santo Ofício", cuja ideia era pegar em seis ou sete processos da inquisição, casos de bruxaria, e ilustrá-los. Aí, o pormenor cria um ambiente de erotismo, magia, e opressão.
Apesar de não estar abertamente manifesto, há sempre, por detrás da ideia destas obras, uma irreverência política, atacando a falsa moralidade da socie¬dade pelo erotismo, desmascarando os catequizadores das colónias, expondo os mecanismos de tortura. É a actualidade disfarçada de história, pela ironia, pelo surrealismo e magia do pormenor perdido numa vasta cena.
É preciso não deixar de reparar no poder técnico das obras, na qualidade estética do "miniaturista" e do cenógrafo, originando uma "realização" ímpar nas artes plásticas.

O CARTOON
À "síntese" seguiu-se o "pormenor", conjugado com a colagem, fotomontagem, influências da "Pop-arte", da "Op", da "Info-grafia", do puro grafismo; até que houve de novo uma necessidade de voltar a uma intervenção política mais directa, quando o novo Delfim da ditadura despontava, na possibilidade gorada de uma primavera de liberdade.
A partir de 69, e mantendo o "esquematismo realista", esboçado no primeiro período humorístico dos anos 40/50, esse grafismo se vai encorpando num traço que marcará a história da caricatura/humor, ou seja o contorno a traço grosso.
A opção por este regresso à síntese deve-se à necessidade de leitura imediata do desenho de intervenção, ao diálogo directo entre o artista e o público no momento exacto, com intenção bem profunda. Se o simplificar a linguagem gráfica ajuda nessa comunicação, nem tudo fica resolvido graficamente como o J.A.M. disse em público: «A caricatura é um tipo de intervenção do artista plástico que acaba sempre por chegar a um beco sem saída, pois, para ser eficaz, tem de ser imediatamente legível, o que acondiciona; assim, ao contrário da pintura, da ilustração, etc., não tem horizontes ilimitados».
Mesmo condicionado pelo quotidiano, pelos acontecimentos políticos do momento («algumas vezes lhe pedimos "cartoons" ou "posters" de um dia para o outro, ou até de uma tarde para a noite» - José Carlos Vasconcelos), João Abel Manta mais uma vez soube resolver os problemas gráficos que se levantavam, com originalidade, tal como contornava os próprios problemas da censura.
O comentário de João Abel é incisivo, satírico e essencialmente irónico, surgindo quando os "clássicos" ou os jovens humoristas se reduziam, se subjugavam à simples anedota, à subserviência política do bêbado, da sogra, do racismo ou da bola. Ele encarna então a oposição inteligente que recusa o anedótico, ou a sátira de crítica aberta suscitadora de opressão e censura. A sua linguagem é irónica, jogando com o absurdo e o surrealismo da vida que se vivia, parodiando com os bastiões da nacionalidade teatral.
Comentando esses trabalhos, José Cardoso Pires, em prefácio ao álbum que os reuniu, diz: «... um pintor, João Abel Manta, ia anotando e construindo o seu testemunho do tempo. Construindo-o "por dentro", no todo mais íntimo, e com isso renegava uma aparência ordenada em mitos e glórias. As suas pinturas malditas (no belo contêm-se as fórmulas do horror, querem elas dizer) não são outra coisa, penso eu: em cada uma há avisos profundos de ameaças e de pavores que se escondem sob a unidade sedutora de uma existência formal - a da burguesia de então».
«Esses quadros e dezenas de outros que os antecedem dão em clima aquilo que os desenhos eruditos da mesma fase dão em descritivo no levantamento de uma paisagem social. E tudo junto, óleos, cenografias, cartões, séries programadas - bruxarias, guerras, inquisições - toda essa poderosa oficina existe e está mais viva do que nunca».
«/…! Nenhum pintor daqui e de agora resumiu com tantas subtilezas a temperatura social e política do fascismo agonizante... raros apostaram como ele na intervenção. Fez isso a dois planos paralelos, pode dizer-se: pintura a longo prazo e comentário urgente, directo pelo jornal, cartaz».
O seu jornal de oposição foi o "Diário de Lisboa", onde a par do comentário à política internacional e crítica social de cunho ousado, faz desde logo o ataque cerrado aos símbolos que se impunham como monumentos de estupidificação nacional (a televisão, o vinho, a bola), ou à História deturpada pelo sonho, como elementos aleatórios. Em 1970, com predomínio da fotomontagem, testemunha-se a invasão dos "turistas", assim como a presença de fantasmas do nosso passado no país de opereta.
Em 1971, colaborando com José Cardoso Pires, parte em «Peregrinação pelos territórios da comarca em demanda do BURRO-EM-PÉ, personagem difusa e muito local, mas difícil de apreender em razão das rebeldias e dos caprichos que oculta sob o martirizado pêlo da resignação». É uma viagem gráfico-satírica por este país de surrealismo. Deste ano são também várias experiências abstratizantes, em paródia pelo absurdo.
Em 1972 o jogo humorístico, com o desenvolvimento da cor, da colagem, da abstracção, atinge um dos momentos mais altos da intervenção irónica que, apesar de menos incisiva que outros trabalhos anteriores e posteriores, o leva ao confronto com a lei. Em causa esteve o "poster" Festival, onde havia uma utilização da bandeira para o humor, e que foi publicado a 11 de Novembro de 1972. Dois dias depois o desenho foi denunciado pelo jornal "Época", o órgão da A.N.P., levantando-se consequentemente um processo-crime.
José Carlos Vasconcelos, o advogado que tomou a defesa do artista, ao lado de Fernando Abranches Ferrão, recorda este acontecimento (in "O Jornal" de 19/12/75): «Logo a 21 de Novembro o director-geral da Informação (que o mesmo era dizer também: da censura ... ) Geraldes Cardoso, denuncia à Polícia Judiciária o pretenso crime de J.A.M., como autor da infracção». A infracção era o desrespeito ao símbolo da unidade nacional.
Assim o defendeu, em Tribunal o seu advogado: «Este não foi o processo de J .A.M. - mas o processo dos seus denunciantes, da censura, do fascismo, de quem pretende impedir toda a forma livre e progressista de intervenção na realidade portuguesa, neste caso através da arte, da linguagem específica do cartoonismo. É, portanto, um processo político, que leva ao extremo do ridículo a farsa da pseudo liberalização marcelista, dessa "evolução na continuidade" a que desde cedo nos habitámos antes a chamar "continuidade na continuação". E é, também, um processo que felizmente chegou até este tribunal - porque permitirá à Justiça a absolvição com que necessariamente terminará este julgamento, cuja única sentença condenatória será, na consciência de nós todos, homens livres, para o regime que trouxe para este banco dos réus um grande artista e um cidadão como João Abel Manta. Que uma vez mais, nos tribunais portugueses, quem está num banco dos réus não é um criminoso, mas um homem e um artista de que o nosso povo se pode orgulhar; criminosos, são os que o trouxeram aqui, são os que se sentam nas altas cadeiras do Poder, não para servir o povo, mas para o oprimir».
«/.../ O "poster" tem um sentido que é exactamente o contrário do que a mentalidade censória, inquisitorial, dos acusadores, lhe quis dar. O "poster" é uma defesa da pátria e do seu símbolo, a bandeira, contra aqueles que a usurpam, servindo-se abusivamente dela em manifestações artísticas medíocres ou em certos actos ainda muito mais graves. Mas julgo que os acusadores e os seus chefes têm sobejos motivos para se sentirem atingidos pela crítica acerada de João Abel, pois ela atinge também, em cheio, todos os que vivem ao nível de um país de cançoneta, os que são a imagem viva, na política e na finança, no jornalismo, do cançonetismo mais baixo e que, pior, são capazes de todas as covardias e das maiores infâmias. Deles, porém, ficará apenas a memória da vergonha que foram para uma pátria e um povo que recusa os tiranos e a servidão que lhe querem impor; de um artista como João Abel Manta, ao invés, ficará a memória de um grande artista que desceu à liça e pôs a sua arte ao serviço da luta pela inteligência crítica e pela liberdade». As testemunhas de defesa foram Raul Rego, Cardoso Pais, Artur Portela Filho, R. Sá Nogueira e Fernando Conduto. Naturalmente, foi absolvido.
Em 1974 o artista anti-fascista em luta contra um regime transforma-se no revolucionário defensor das conquistas adquiridas com o 25 de Abril, aderindo como nenhum ao movimento, mantendo-se na actividade intervencionista de "cartoonista", "cartazista"... São célebres os seus cartazes, como símbolos do novo poder libertador, o M.F.A., assim como os "cartoons" que testemunham a vida escaldante dos primeiros anos do novo regime, constantemente ameaçado pelas forças externas e internas da reacção. Este testemunho-vigilância ficou registado sob os títulos jornalísticos do "Diário de Notícias" e "O Jornal".
João Medina resume esse trabalho nas seguintes palavras (in "O Jornal" de 19/1/1979): «João Abel Manta ficará associado dum modo particular ao melhor e ao pior do que em Portugal vivemos nesses dois anos, de 1974 e 1975. Refiro-me aos cartazes que de certa maneira resumem a quimera e, de algum modo, as ficções da nossa revolução dos cravos, e que servirão, para os historiadores do futuro, como "ex-libris" da abortada revolução de Abril. Seja como for, essas produções e as caricaturas reunidas no álbum de 1975, atestam que João Abel deve ser tomado como o artista máximo, talvez o único, afinal, que a revolução de Abril suscitou na nossa comarca das artes».
«A partir de 1976, o artista alistado João Abel eclipsa-se: os ventos são outros, o MFA dissolveu-se, os thermidorianos tentam salvar da revolução aquilo que ainda pode ser salvo, a CIA respira aliviada, Portugal consegue passar entre Sila e Caríbdis, escapando aos gregos que apressadamente gritam "morra!" e aos troianos que ainda urram "viva!". Durante dois anos foi o silêncio, quebrado por uma ou outra colaboração esporádica...».
Com o desmorecer das esperanças embriagadoras da revolução, perante as realidade da vida, das relações internacionais, do poder camaleónico dos senhores do antigamente, João Abel retira-se da batalha, voltando-se para o interior do seu "eremitério". Defende então que «a caricatura é extremamente eficaz para destruir qualquer coisa. Mas já é difícil fazer com que ela contribua positivamente para construir outra».
Lutou à sua maneira para o derrube do anterior regime. Alertou, nos primeiros passos do novo, contra os possíveis descaminhos da corrida galopante que se vivia. Mas estava impotente perante as forças que se iam apoderando do poder, em nome da democracia. Retirou-se então para a sua pintura, que ia tomando cada vez mais importância, desde os anos sessenta.
Não foi ainda a retirada total, antes a recolha a uma certa paz, que a obrigatoriedade do alerta jornalístico não lhe permitia. Nesse recolhimento nasceu a vontade de exorcizar os fantasmas que dominaram quarenta e seis anos da sua vida (menos dois dos que dominaram o país, e que ainda não estavam totalmente destruídos). Essa meditação originou um Álbum, como «necessidade de relembrar que houve fascismo, e em que consistia». Esse álbum, "Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar", foi feito de inéditos, desenhados como um todo em testemunho e testamento do fascismo.
Para além deste Álbum (1978) ter sido um marco na história da caricatura portuguesa, e um acontecimento importante na vida gráfica do país, é um momento fundamental da política, como exorcismo de um século recente, e dos outros distantes vividos em inquisição. Tudo isto foi sentido pelo público, e expresso por alguns intelectuais portugueses.
João Medina (in "O Jornal" 19/1/79) comenta: «O humor faz-se todo negro. É a tristeza, a vergonha ou o masoquismo melancólico que obrigam João Abel - como nós outros, historiadores do "fascismo" luso - a relembrar as caras e as cenas, as pessoas, as taras, os ridículos e as coisas do defunto regime. /…/ Caricaturas de humor negro feito a cores, este livro recorda-nos a tristeza de termos tido o Portugal cinzento e medíocre do medíocre e cinzento minotauro de Santa Comba. Mas a evocá-lo, João Abel amarra-o também ao pelourinho da sua indignação, da nossa revolta e da nossa comum insubmissão como povo. Povo que, apesar de tudo, ressurgiu um dia e do gris quotidiano de tantas décadas de cativeiro fez rebentar o cravo vermelho e verde da nossa nacionalidade, cromatismo e emblema da nossa liberdade».
Na Revista "ARTE Opinião" (Março/1979) escreveram: «Manta pretendeu enterrar o fascismo, trazendo nus para a luz do dia os podres e os ridículos da forma de opressão mais cruel, pelo que, apesar do cómico, paira sempre um ambiente de tragédia, para o qual contribuem as cores suaves, que vão direitas ao inconsciente./…/ Ser mais importante que nunca, recordar a uns, explicar a outros, que o fascismo está à espreita por detrás da esquina em cada cruzamento da frágil democracia que conseguimos».
No "Diário de Notícias" (10/1/79) M.A. escreveu: «São, ao todo, 133 desenhos mordazes, risonhos, exemplares, implacáveis - e de um rigor de forma ou técnica que há muito fizeram de J .A.M. um dos grandes caricaturistas portugueses ou, para dizer melhor, um dos raros dos nossos artistas que fizeram que da personalização da sua obra um acontecimento artístico de interesse internacional». De todos estes textos, destaca-se a análise feita por Mário Dionísio em "O Jornal" a 29 de Dezembro de 1978.
Com este álbum, João Abel Manta encerra o seu ciclo de "cartoonista", demonstrando mais uma vez que a sua versatilidade lhe dá plenos poderes para investir em qualquer género artístico, com total mestria das técnicas específicas.
Com a sua obra, demonstrou haver um campo muito vasto para a intervenção do artista na sociedade, pelas artes plásticas. Etiquetando de "cartoon", por ser moda dar este epíteto ao género gráfico de intervenção humorística, ele não exerceu o "cartoonismo" simples, mas a arte de um "pintor" da sociedade, como o fizeram um Hogarth, um Daumier. Ele ultrapassou o anedótico e a sátira política, para exercer a inteligência irónica como uma arma gráfica mais profunda. E, tal como Raphael Bordalo Pinheiro se confunde com o Fontismo, João Abel Manta é a imagem viva destes anos de queda de um regime e nascimento de outro.
Esta imagem plástica e satírica veio provar que, mesmo reconhecendo na arte humorística um maior pendor de destruição do que há de mal na socie¬dade, e uma difícil formulação de soluções políticas para esses males, se pode atingir, pela intervenção plástica, a raiz dos fantasmas que nos atormentam, exorcizando-os; se pode esclarecer o público no momento próprio e vivencial, desmascarando-o.
Abandonando o "cartoonismo" por quebra de necessidade interior de intervenção, a sua obra permanece como um "mito" do humorismo de uma "terceira geração" modernista, que não existiu, permanecendo como uma "ilha" que (ainda) não fez escola entre nós.

O CARTAZ
Dentro do âmbito da intervenção gráfica, há um género que, apesar de uma obra diminuta, não deixa de ter relevo na criação de João Abel Manta - o Cartaz.
Género mais vocacionado para a publicidade comercial, ele soube fazer de cada cartaz um momento especial de intervenção social e gosto plástico. Vejam-se os cartazes que fez para o M.F.A., marcos da imagem do 25 de Abril.
Veja-se o cartaz que realizou para um encontro "anti-apartheid", cujo símbolo, criado nesse cartaz, foi adaptado por esse movimento.
Veja-se o cartaz que fez em homenagem a B. Brecht, que o Berliner Ensemble, o santuário da dramaturgia Brechtiana, mantém nas suas paredes.
João Abel Manta fez cartazes para o cinema português, para o teatro, a Sociedade Portuguesa de Autores, encontros políticos, culturais... procurando em todos eles ser incisivo na mensagem, nos símbolos.
De novo se encontra a versatilidade de técnicas, de estilos, procurando para cada um os elementos essenciais. Desse modo criou obras datadas, com a marca do momento para que foram criadas, e com que intenção. É a força da intervenção na sociedade, pelas artes plásticas, que de novo impulsionou a obra de João Abel Manta.

OS ULTIMOS TRABALHOS
Em 1981, de novo ao lado de José Carlos Vasconcelos (com quem trabalhou no "Diário de Notícias" e no “Jornal", quando este era ali director) envolve-se no nascimento de um dos jornais culturais mais importantes do pós-25 de Abril, o “J.L. - Jornal de Letras, Artes e Ideias".
Nesse jornal, os dez primeiros números foram totalmente ilustrados por João Abel Manta, desde as capas até ao interior, onde a fotografias quase não existia. É o domínio total da palavra e do grafismo, como triunfo das artes plásticas num jornal de cultura. Ao mesmo tempo, é a expressão da capacidade incrível de produção do artista.
As capas, até ao n.º 5, são pequenas obras-primas de grafismo numérico, plenas de ironia, em foto-montagens de símbolos da nossa cultura universal levados ao extremo da mestria do humor surrealizante, da abstracção gráfica.
As outras ilustrações, do interior e das capas seguintes, são trabalhos a carvão, fundamentalmente retratos quase académicos, demonstrando pleno domínio do desenho, essa arma que sempre lhe deu força em toda a obra. Jogando entre o formalismo do retrato e o envolvimento, que cria o ambiente, a tonalidade psicológica da personalidade desenhada, cria um equilíbrio surpreendente e pleno de modernidade. Por vezes, a esse formalismo realista associa-se uma referência caricatural, como uma especiaria que condimenta a obra e cria uma melhor identificação do personagem. Este trabalho a carvão é o desenvolvimento de mais uma técnica, demonstrando de novo a sua versatilidade de traço e utensílios de criação.
Criar o grafismo de todo um jornal, mesmo quinzenário, como o era nr altura o J.L., era uma tarefa muito árdua e insuportável, mesmo para um artista com a capacidade criadora de João Abel. Além disso, essa obrigação, esse ritmo de trabalho, impedia-o de fazer outras coisas, com a pintura. Desse modo, as colaborações de J.A.M., após o nº 10 foram rareando até desaparecerem.
Com esta lição de mestria de grafismo, de ilustração e desenho, o artista despediu-se das Artes Gráficas. Ainda fez um ou outro trabalho, por amizade, por muita insistência, mas pode-se dizer que, há pelo menos seis anos, se mantém afastado desde género plástico, dedicando-se plenamente à pintura. O próprio artista afirma que esta ruptura é definitiva, o que é de lamentar perante tais criações.

CONCLUSÃO
«Já não via estes trabalhos há muitos anos e não são tão maus como eu pensava. Não me envergonham, apesar de já nada terem a ver com o que estou a fazer e que me interessa há largos anos».
Palavras que o artista referiu, após ter sido "obrigado" (pela atribuição do Prémio) a descer ao porão do seu atelier, e desenterrar estas obras esquecidas, não pelo público, mas pelo próprio artista, que as vai esquecendo à medida que as cria.
O que fica patente, na visão retrospectiva destes trabalhos, para além da dimensão global da obra, é a qualidade superior dos originais, em relação às reproduções a que o público tem acesso (já que aqueles são de dimensões maiores e plenas de pormenores, de traço delicado, de matizes que diluem nas máquinas impressores). Fica também patente a versatilidade do artista, na variedade de estilos, materiais e géneros criados ao longo de três décadas de criação. Nelas deslumbram-se as várias filosofias e estéticas temporais, apreciam-se as vicissitudes e histórias da sociedade portuguesa, numa visão satírica, irónica, mas sempre vanguardista.
Artista de alto poder de versatilidade técnica, possuidor de um total controle dos elementos gráficos de comunicação, uma precisão de intervenção na oportunidade certa e uma constante sombra de ironia, que dá um gosto, uma tonalidade de humor negro aos seus trabalhos.
Essa cor, feita de sorriso amargo, é o poder que o artista tem de sobrevoar o mundo, desde os sonhos até aos pesadelos, na consciência reveladora do absoluto feito arte. Pela sua mão, a frágil aparência das coisas é posta a nu, através de exorcismos mágicos, através da ideia feita traço, linha directa à compreensão humana, sem subterfúgios estilísticos, mais do que os necessários ao jogo plástico.
A sua ironia onírica expõe a futilidade do mundo, o anedótico das nossas vidas neo-realistas, perante a destruição da sacralidade de conceitos, de símbolos. Por todas estas razões, considero que a ironia é a arma fundamental de João Abel Manta, no jogo formal dos elementos gráficos.
A par da ironia, existe uma força pictórica que transcende o desenho. Se a arquitectura lhe deu a disciplina, o domínio dos espaços, a pintura enriqueceu toda essa estrutura base, conciliando todos esses pigmentos numa obra plástica invulgar.
João Abel Manta é um artista plástico que percorreu quase todos os géneros de arte, enriquecendo-os todos, enriquecendo-se a si próprio. E, seja na ilustração, no cartoon, no cartaz, na gravura, na pintura, existe apenas um artista, uno e global.

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