Wednesday, November 22, 2006

Caricaturas Crónicas 19

FERNANDO PESSOA CARICATURAL
Por: Osvaldo Macedo de Sousa

Há fisionomias mais caricaturáveis do que outras, seja por integrarem elementos anatómicos preponderantes ou ausentes, seja por se rodearem de uma iconografia tipificada, mesmo que vulgarizada em outros indivíduos. Este é o caso de Fernando Pessoa, um poeta ilustre, mas vulgar de feições.
Porém, se as suas obras literárias ficaram para a eternidade, o mesmo aconteceu a uma imagem sua, que em caricatura síntese se reduz a um triângulo capilar facial, igual a muitos outros bigodes; uns óculos que muita gente usa, principalmente os que vêem mal; um chapéu preto que se encontra em qualquer chapelaria, para protecção contra o Sol e outras intempéries. Dos olhos, boca, nariz, cabelo... nada reza a história. Talvez o queixo ainda se salve.
É na base dessa iconografia que se têm realizado múltiplos retratos, caricaturais ou não, que agora proliferam na busca do poeta perdido.
No caso de Fernando Pessoa, artista, a questão caricatural agudiza-se, porque ele é muitos e um só Pessoa. É na multiplicidade de seres que ele é, dividindo-se por Caeiro, Reis, Campos, Soares... criadores que existiam dentro dele; mas dos quais não há retratos, para além de uma descrição literária feita pelo Campos. Após a morte e desaparecimento daqueles, e na base desse texto, Almada Negreiros deixaria a sua interpretação plástica dos três primeiros.
Portanto, foi só o Pessoa que se manteve como fonte fisionómica para a criatividade caricatural, que durante a sua vida não foi muita. Dos caricaturistas que o conheceram, apenas quatro o transpuseram para o papel. Foram o Stuart Carvalhais, Bernardo Marques, Almada Negreiros e Teixeira Cabral. Stuart num breve retrato/ilustração para um artigo literário; Bernardo Marques em dois desenhos alegórico/satíricos; Almada em múltiplos desenhos e telas; Teixeira Cabral numa genial caricatura síntese.
Pela sua importância no meio artístico, pode-se considerar que ele não teve a repercussão caricatural que merecia. Só que este elemento não é de estranhar, quando se sabe que só muito recentemente se tem vindo a descobrir a verdadeira dimensão da obra e a sua importância. Essa descoberta tem sido tão intensa que, por vezes, lhe é prejudicial na popularidade.
Por outro lado, e apesar dele ter sido amigo e companheiro de tertúlia de muitos dos caricaturistas que dominavam os periódicos desses tempos, que impuseram o modernismo em Portugal, ele não era um amante da caricatura. Pessoa, por questão estética, ou política, não soube reconhecer a importância do humor no âmbito da irreverência que os do Orpheu reivindicavam no âmbito estético; não soube reconhecer a importância estética e sociológica na difusão de conceitos e ideias modernistas. Ele defendia a concepção filosófica de Baudelaire, em que o humor provém do lado diabólico do homem, que é o triunfo da futilidade. Esquece-se que por vezes a futilidade é mais incómoda que a monotonia, a passividade quotidiana.
Posteriormente, seria o mestre João Abel Manta a fazer uma caricatura de interpretação filosófica. Vasco (de Castro), no princípio desta década (de 80), viveria um período dominado pelo Pessoa, organizando diversas exposições com caricaturas, desenhos, pinturas suas, assim como a publicação de serigrafia e livro biográfico. Nesses anos foi o artista que melhor difundiu a personagem de Pessoa, o que não impede de ser ignorado pelas instituições do Poder, quando expõem os artistas que pintaram Pessoa.
Agora, com a aproximação do centenário (que entretanto já passou), com a transformação do artista em noticiário, em actualidade de eventos, poucos são os artistas que ainda não foram obrigados a retratá-lo/caricaturá-lo. Assim se poderão encontrar obras de António, Maia, Pedro Palma, Relvas, Zíngaro, Cid, Rui, Artur...
Os centenários, na actualidade, são uma moda, um retrato caricatural de como o povo português vive a cultura, ou seja, celebra a morte, quando os artistas já não podem ser incómodos para o poder.

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