Friday, November 17, 2006

Caricaturas Crónicas 17

O GOZO E A ARTE
Por: Osvaldo Macedo de Sousa

As artes plásticas, na observância caricatural, têm sido, não raras vezes, perspectivadas no e pelo gozo, que como visão objectiva da subjectividade de cada um, pode proporcionar as mais diversas análises visuais frontais, ou laterais, em que tudo começa no gozo da criação, qual deus genitor. Nesse acto individualista, ou não, pode realizar-se então o gozo da deformação como acto de rebeldia à natureza, na expressão mais expressionista, no conceito mais conceptual, no gesto mais gestualista, ou na «surra» (crítica) mais realista-paranóica da visão.
Num segundo passo, dá-se o gozo do autor perante o ar estupefacto do público visionário, que se questiona interiormente entre o gozo da obra visível, cuja visão por vezes é o gozo ao autor. ou o sentimento contrário, em que os observantes se sentem perante o «rei que vai nu».
A fronteira entre os gozos, como gozos recíprocos, o gozo independente ou unitário, é de difícil destrinçar, como uma trança que se perde nos cabelos rebeldes da criação.
Dessa forma, quantas obras de valor criativo têm sido mal recebidas pelos humores críticos, e tantas outras de simples oportunismo gozacional têm sido embandeiradas como génio de expressão artística.
O conceito de gozo-desfrute é um sentimento inerente à Arte, em passividade-paixão perante a obra, na divinização das regras fundamentais do prazer que a «educação» construiu no espírito de cada um. É um gozo «sério» e interiorizado, porque o gozo extrovertido e humorístico é, em princípio, social, contrário ao conceito de arte, séria, encarando-se consequentemente as artes de gozo como pertencentes ao mundo dos seres menores, como se a maioria da seriedade fosse apenas o domínio dos músculos faciais de expressão reservada em controle dos 18 músculos risíveis.
O mais curioso é que poucos são os criadores dessas artes do riso, que sejam gentes risíveis. Talvez por terem nos olhos lentes de ironia, fiquem com amargo de boca para a vida.
O gozo faz-se com tudo, mesmo com as Artes, principalmente as ditas sérias, e o primeiro gozo caricatural sistemático às ditas plásticas foi realizado por Francisco Valença e Nuno Simões, referentes aos Salões de Pintura. Nesses «Salões Cómicos» estes autores parodiavam os quadros expostos, alterando-lhes os títulos, criando «pensamentos» aos retratados, etc. Mais tarde, Valença fará uma nova paródia aos quadros modernistas da Brasileira, e no fundo o género ‘paródia’ sempre foi o gozo entre os companheiros de artes.
Mas o humor, como expressão do gosto do público e como seu reflexo irónico de pensamento, não fica apenas pela paródia, vai também ao anedótico da vida ou da obra dos artistas. Um dos temas preferidos foi o «modernismo», mais conhecido por futuristas, em que a incompreensão do público perante as «originalidades» do autor provocava os seguintes diálogos: «- No meu poema de imagens elevadas, tudo tende para a ascensão, terminando com uma finalidade que se resume numa elevação sempre crescente e ascensional.» «– Homem! Isso não é um poema é um ascensor...» (Jorge Barradas, in «Sempre Fixe», de 21 de Janeiro de 1932.)
«Convidei-o, meu ilustre artista, não só para ver a minha galeria de quadros, mas para sobretudo me dizer o que. representa este seu quadro.» «- É meu, efectivamente, está assinado, mas pintei-o há tanto tempo que já não me lembro.» (Rocha Vieira, in «ABC a Rir», de 10 de Julho de 1921.).
«Estes futuristas fazem uma pintura que a gente não percebe e, além disso não usam molduras.» «- Tens razão, a outra pintura, quando a gente não a percebe, ao menos percebemos... as molduras.» (Stuart Carvalhais, in «Sempre Fixe», de 5 de Fevereiro de 1942.)
Mas, de todos os gozos, o mais sublime é quando a inspiração não dá mais do que o riso de si próprios e das suas misérias: «Abertura da Exposição de Belas-Artes e 'fechadura' da bolsa dos compradores. - Os escravos de «Barata Salgueiro»: Ave, Matrerialão, os que vão morrer... de fome saúdam-te.» (Francisco Valença, in «Sempre Fixe», de 14 de Abril de 1937)
«Qual a sua profissão?»«- Pintor.» «- E o seu estado?» «- Como vê, é lastimável.» (Jorge Barradas, in «Sempre Fixe», de 13 de Outubro de 1927.)

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