Sunday, October 01, 2006

Caricaturas Crónicas 8

PENÚRIAS

Por: Osvaldo Macedo de Sousa


Quando as mentes dos governantes não têm a tranquilidade dos homens honestos e honrados, quando os interesses da nação são apenas os de alguns, c não querem ser incomodados pela ralé que clama pelo seu, optam então pela censura, como se só por isso fosse possível calar as mentes livres dos outros, fosse possível matar a fome de justiça e verdade.
Para os que trabalham na Comunicação Social, a censura, sendo um entrave da sua labuta, não é o seu silêncio. Redobram-se então as canseiras, não vá uma palavra, assunto, magoar a sensibilidade das mentes estupidificadas dos censores, não vá algo sair do seu controlo. Isto, claro, para quem não se vende à comodidade dos vendidos, para quem a informação verdadeira tem mais importância que a mentira, e, se nada apaga as mentes caladas, também há fórmulas das palavras caladas, dizerem coisas importantes. E essa a ginástica que o profissional da escrita e da comunicação tem de fazer, sempre que as sombras obscuras da ditadura procuram sufocar a luz.
O humor, como indiscreto meio de dizer coisas alegre e preocupadamente, naturalmente, sofre também com a tesoura e o lápis azul da censura, e não raras vezes o «boneco» teve que ser refeito ou a sua legenda mudada. De todos os temas, é a ironia sobre os governantes e seus actos, a sátira à justiça praticada, que sofre mais com a proibição e perseguição, desleixando-se como contrapeso a anedota social, o humor com as pequenas dificuldades da vida, como é a penúria, a eterna companheira do povo.
A penúria, em palavras menos bonitas, é a miséria que não é exclusiva das ditaduras, e já na monarquia o humorista comentava em verso: «O pobre Zé depenado / tanto pagou o patau / que chegou àquele estado / d'escalado bacalhau.»
«E se isto vae n'este andar / e se a coisa mais caminha / há-de acabar por ficar / reduzido a magra espinha.» (J. M. Pinto, in «Charivari», de 18/2/1899.)
Na Primeira República, após o falhanço da mudança, interroga-se o caricaturista: «Como será que os pobres é que pagam tudo se elles não teem nada? --É que os pobres pagam com o melhor dos dinheiros, com a pellel» (Leal da Câmara, in «O Miau» de 4/2/1916.)
Com a revolução de Maio, a miséria não se alterou, apenas a penúria cresceu para alguns, e a ditadura tentou escondê-la melhor. O humor censurado teve então possibilidades, bem controladas, de fazer piada, como ironia dos sofredores, como humor das consciências ricas: «Grandezas dos Pobres: - Que estás a comer? - Fava-Rica. - Ainda não perdestes a mania das grandezas.» (Jorge Barradas, in «Sempre Fixe», de 14/10/1926)
«Quinta-Feira da Espiga - É bom apanhar a espiga neste dia, porque quem a apanhar terá pão todo o ano. - Sim?! E que ervas havemos de apanhar para termos bacalhau e batatas?» (Stuart, in «Sempre Fixe», de 23/6/1933)
Como melhor censura, o Governo proíbe a mendicidade, pensando que dessa forma acabava com a pobreza, que apenas não queria ver, mas que andava à solta pelos bancos de jardim e demais naturezas: «Onde moras agora? - Não tenho casa, moro por aí... - Tem graça... sou teu vizinho.» (Stuart, Ín «Sempre Fixe», de 2/4/1942).
Para que haja pobres, tem que haver ricos, nesse balanço social tão necessário para o equilíbrio estável, e, se uns «trinca-espinhas», outros «trinca fortes», no poema épico que é a vida: «As batatas e os feijões tão desejados / Que este Portugal outrora cultivava, / por sítios já de nós ignorados / passaram para o rol das coisas raras / e em perigos e guerras aturados / para as arranjar muito mais caras / certos gananciosos edificaram / mercado negro, que tanto exploraram!» (Sequeira, in «A Bomba», de 2/7/1946.)

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