Wednesday, December 01, 2010

O Modernismo e a República

Por. Osvaldo Macedo de Sousa

A arte, ao longo dos séculos, procurou ser a recriação do mundo nos padrões idealizados pela sociedade dominante. A caricatura nasce como uma ruptura a esses cânones de que a arte era uma criação humana, pois a humanidade é antes grotesca, ridícula. A beleza e a fealdade não são criações, mas sim conceitos.
Foi com o liberalismo que nasceu a caricatura em Portugal e com ele se desenvolveu. Primeiro, como uma reacção panfletária de artesãos tipógrafos politizados. Depois como imposição de uma vanguarda realista que reclama a sátira social como fim e objectivo do humorismo jornalístico. O realismo impõe a natureza como uma obra de arte que o Homem necessita captar para seu prazer, resolvendo copiá-la e transformá-la para que ela se imponha como uma criação do Homem na essência do real: «Quereis ser historiador fiel, moralista sagaz, filósofo profundo? – escreveria Caetano Alberto (in “Arte e Vida” 1905) – Nada mais fácil. Apresentai a verdade em expressão tão singela, ou em traço tão franco, como ela o é em si. Não a procureis, porque está em toda a parte, constantemente ao pé de vós, e em vós. É a planta, e a ave, e o homem, e todos esses infinitos milhões de seres que povoam e constituem o universo.»
«Tendes olhos para ver, ouvidos para ouvir, alma para sentir, boca para expressar. É quanto basta. Olhai os seres, dizei na linguagem comum o que vedes, o que ouvis, o que sentis, e tereis achado, descrito, mostrado a verdade a todos, mais rápida, mais fácil, mais positivamente, do que o sábio que consome anos inteiros a achar a solução dum problema, clara a poucos, e, muitas vezes errónea. É o que tem feito Gavarni, é o que fez Béranger, os poetas mais queridos do povo francês.»
Mas a intranquilidade do criador não se contenta com a realidade e se o naturalismo criou uma moldura mais irónica à sátira politica, na pintura o individualismo plástico divagará pelo impressionismo, expressionismo, fauvismo…
O liberalismo foi proclamado na segunda década de oitocentos em Portugal, mas nem sempre praticado. As dissidências aos ideais são comuns na política, se não uma característica, uma constante já que, na concretização do quotidiano, a intervenção humana colide com as teorias, com os sonhos, as utopias. O republicanismo, a República não é mais do que uma nova tentativa de recuperar essa revolução liberal, de recriar o sonho utópico de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Caricaturistas declaradamente republicanos, em oitocentos, foram dois: Celso Hermínio e Leal da Câmara. Declaradamente monárquico, foi Jorge Colaço. Todos os outros eram críticos dos governos que, na sua maioria, se foram tornando dissidentes do regime, nessa monarquia portuguesa que acabou por falta de monárquicos ou, pelo menos, de um bom núcleo de monárquicos convictos.
Coimbra, cidade de estudantes, de mentes cultas, foi sempre um paiol de irreverências. A contestação juvenil sempre pôs, e continuará a pôr, em causa o poder, germinando nesse campo de contestações as mais variadas utopias poéticas, filosóficas, ideológicas, sociais. Não é pois de estranhar que aqui o confronto entre a velha monarquia e a esperança republicana fosse vivida com alguma turbulência e confrontos. Por outro lado, a reforma do ensino, encetada no virar do século, também criou outras tensões que se confundiram com a questão republicana. Uma das reformas mais importantes foi o fim do bacharelato como grau académico, o que, na caricatura e nas manifestações académicas, ficaria conhecido como o Enterro do Grau.
«Não parece exagero dizer que – escreveu Nuno Simões em 1952 (Noticias de Lourenço Marques de 26/4/1952) – na década que abrangeu os fins da monarquia e os começos da República, Coimbra deu ao País um verdadeiro escol. /…/ Era o tempo em que uma das mais ricas e variadas gerações de moços assegurava a Coimbra uma última grande precedência nos quadros nacionais da inteligência e da cultura./…/ Curiosidades intelectuais, inquietação moral e social e ânsia de cultura para a busca de soluções aos problemas nacionais foram as características dessa geração que deixou, na actividade literária e artística do País, mostras iniludíveis de méritos, ainda não esquecidos nem apagados.»
É neste caldeirão de insatisfações e de criatividade exacerbada que se vão encontrar quatro jovens que, sem eles próprios terem consciência disso, vão simbolizar a ruptura republicana nas artes plásticas.
São eles:
Christiano Shepard Cruz (Leiria 6.5.1892 / Angola – Silva Porto 21.10.1951), um jovem que em 1909 se encontra em Coimbra a estudar no Liceu, acompanhando as migrações de seu pai militar.
Álvaro Cerveira Pinto (1893 / Coimbra ??.11.1910) a estudar no Liceu por seus pais estarem estabelecidos nesta cidade.
Luís Filipe Gonzaga Pinto Rodrigues (Melgaço 21.3.1887 / Viana do castelo 10.8.1949) que estava a estudar Direito na Universidade.
Fernando Correia Dias (Moledo de Penajóia 10.11.1892 / Rio de Janeiro 19.11.1935), natural da zona de Lamego, teve de ir para Coimbra estudar já que não havia Liceu na sua região.
Coimbra não era um centro de criação plástica, mas um local que devorava o conhecimento possível, toda a literatura e imprensa que vinha do estrangeiro… A arte que estava em moda no início do século em Coimbra era a Caricatura, já que devido às Festas do Enterro do Grau, este género foi muito requisitado e vivido com profundidade. A sua influência permanecerá dando depois lugar à tradição do Livro de Curso em caricatura. O primeiro Livro data de 1903, mas só na década de vinte tomará a sua presença como uma tradição.
O feliz encontro destes jovens, no mesmo local e no mesmo tempo cronológico, fez com que surgisse um movimento plástico de grande importância, já que o diálogo, a troca de ideias e ideais fez aprofundar as suas irreverências estéticas, as suas opções sócio-artisticas. A sua inexperiência e procura da essência da função da sua arte criaram um movimento colectivo de que propagaria na década seguinte. A sua primeira opção foi enveredar pela síntese da linha.
Celso Hermínio e Leal da Câmara já tinham feito a ruptura com o naturalismo raphaelista na imprensa, e o traço caligráfico já vivia em experimentalismos caricaturais das caricaturas de Amadeo de Souza-Cardoso, João Almeida e Brito, Hugo Sarmento (com períodos de permanência na Alemanha), e em Emmérico Nunes (a viver primeiro em Paris depois na Alemanha, Suíça…), mas, para além da síntese, este quarteto procurou uma revolução também temática, de conteúdo.
O grupo de Coimbra nunca teve contacto directo com as vanguardas que germinavam em Paris ou noutros centros europeus, mas apesar da juventude deles, surgem logo com propósitos muito definidos no âmbito estético e ideológico. A síntese, perante o barroquismo raphaelista, foi o elemento revolucionário que se impôs no desenho, raiando, por vezes, a abstracção, a qual deu à pintura o tom cézaniano que dominaria o modernismo. O curioso é que estes artistas encerrados em Coimbra compreenderam melhor o que se estava a passar no mundo europeu das artes do que aqueles portugueses que viviam por Paris no contacto directo, mas ao qual passaram de lado ou muito superficialmente.
No campo estético, o naturalismo, o academismo estavam identificados com a Monarquia, com o passado. A síntese, que na altura ainda não tinha sido baptizada de modernismo, simbolizava uma nova sociedade, uma nova liberdade de expressão.
No sentido ideológico, o naturalismo estava ligado a um mecenato real, ou fidagal (mesmo que burguês à procura de se nobilitarem) que ainda sustentava parte dos artistas, que ainda era o núcleo principal da clientela dos artistas que queriam ser livres, mas que nunca o são sem clientes. O modernismo, naturalmente, também necessita de clientes mas o mercado será muito mais aberto, porque a grande maioria optou por alargar o seu mercado de trabalho dedicando-se também à imprensa (poucos pintores em oitocentos se dedicaram à caricatura como arte de sobrevivência económica), à publicidade, ao design, à decoração… São novas formas de estar na sociedade que se desenvolvem com o século, com o liberalismo republicano.
Em relação à temática também há uma ruptura desenvolvida por este quarteto e que se alargará aos outros artistas. A política, essa porca viciada nos compadrios, clientelismos, clubismos, partidarismos é um tema gasto e sem proveito real para a educação artística da sociedade. Como dirá mais tarde Christiano Cruz (entrevista em A Capital de 15.8.1912): «Depois de Bordallo ninguém fez nada na caricatura política que mereça menção: e embora a ela se dediquem muitos… E aos quais, note, eu não penso negar talento, mas ao examinar uma página dos jornais humorísticos actuais eu vejo sempre uma página no “António Maria” apenas virada do avesso…. /…/ A caricatura impessoal, a única que lá fora tem feito grandes artistas, não é conhecida em Portugal. O irritante e perspicaz quem é, acompanhando sempre a vista de um desenho impessoal, na esperança de ver surgir as convencionais figuras dos nossos estadistas, é um sintoma da mania política do nosso público. É preciso fazer-lhe desviar a atenção para a caricatura social, para a caricatura de costumes, enfim, para a verdadeira caricatura: a impessoal».
Neste trecho se centra toda a filosofia estética deste grupo, que depois tentará vingar ao longo das próximas décadas. Nunca houve um manifesto, nem sequer um editorial a defendê-lo, apenas a acção, a exploração dos conceitos em tertúlias e no papel de jornal.
O grupo começou a organizar-se à volta do projecto de um jornal de Liceu. O mentor do projecto foi Correia Dias ao qual se associou logo Christiano Cruz. Desse modo, a 14 de Novembro de 1909 surge nas bancas coimbrãs o jornal “O Gorro”. Apesar de se apelidar de jornal de Liceu era um jornal com as características profissionais de qualquer outro hebdomadário da época, acrescido de grande qualidade estética. Teve como Directores Artísticos, no número um, Correia Dias e Christiano Shepard Cruz, sendo Cerveira Pinto o seu Director nos quatro números seguintes, apesar de nada ter mudado no interior do jornal, apenas uma questão de nomes. Todos os desenhos são dos três artistas, havendo contudo colaborações de um “Tiralinhas” que, no final de contas, não passava de um pseudónimo de Correia Dias numa linha gráfica diferente (mais naturalista) à da sua assinatura.
Por ser um acto público, poder-se-à defender que o Modernismo em Portugal foi implantado a 14 de Novembro de 1909 com a primeira edição de “O Gorro”. Alberto Meira, na revista “Prisma” (dos anos 30) defenderá em parte esta ideia: «Na realização da caricatura em Portugal marcou um ponto estranho a tudo quanto até então se produzia no género, a despreocupada falange de humoristas novos, que em Coimbra, cerca de 1910, se apresentava nas páginas duma revista da especialidade, infelizmente de curta duração.»
O Gorro desapareceu a 9/1/1910, mas esta não foi uma morte, antes uma transmutação já que a 20 de Dezembro de 1909 é lançado, também em Coimbra, o jornal “A Farça” dentro da mesma politica estética, dirigido por Luís Filipe. Quem eram os artistas colaboradores? Os mesmos: Correia Dias, Christiano Cruz e Cerveira Pinto enriquecida com a entrada de Luís Filipe no grupo e na via da ruptura estética. Também não duraria muito, algo muito comum na época em que os títulos se sucediam regularmente, e publicaria apenas 6 nºs até 27/4/1910.
Frequentadores de boémias turbulentas, tertúlias revolucionárias (onde também estão presentes M. Pacheco, Veiga Simões, Hipólito Raposo, Afonso Lopes Vieira, António de Monforte…) com infindáveis discussões desde o vómito rubro do vinho, aos conceitos estéticos das últimas revistas chegadas de França ou Alemanha; desde a criada da casa X aos conceitos filosóficos da nova teoria de sobrevivência intelectual… Este grupo não procurava a revolução, apenas ser diferente, ter uma nova postura pela arte, com a arte.
Diz-se que também, por essa altura, o jovem Almada Negreiros vagueou por Coimbra, num dos seus internados de estudos liceais, bebendo aqui as suas primeiras influências, e essa a razão de, em Lisboa, ter assumido de imediato Christiano como um mestre a seguir.
Em breve, o grupo dispersar-se-ia, com Christiano Cruz a mudar-se para Lisboa, por destacamento do seu pai para a capital; Luís Filipe regressando à terra onde seus pais viviam (Viana do Castelo) por ter terminado o curso; Cerveira Pinto morrendo no final do ano e Correia Dias, ficando sozinho em Coimbra procura sobreviver com a sua arte.
Luís Filipe, optou pela via profissional de direito desaparecendo no anonimato do quotidiano. Sobre ele escreveu Nuno Simões. Era «o mais velho da corja dos trocistas. /…/ Apreende a sua garra implacável as figuras e as almas, amolga-as, deprime-as, para fazer resultar o juízo final em que a alma e corpo se procuram, um como que toque de trombeta de apuro de contas, e conclusão de quem a vida espionasse, só pelo prazer de ver-lhe, em cada onda, toda a babugem de grande mar revolto.» Os seus trabalhos apareceram em O Gorro, Ilustração Portuguesa, A Águia, A Sátira, e ao apresentar-se no Porto, em 1916, no II Salão dos Modernistas, despedia-se da arte pública. No final da sua vida fará ainda uma exposição em Viana com caricaturas de figuras da cidade, mas a sua mão sempre manteve alguma argúcia de traço, rabiscando as margens de processos, de papéis de 24 linhas…
«Correia Dias, o mais fino, equilibrado e inteligente artistas (palavras de Virgílio Correia) imprimiu nas suas obras um cunho de delicadeza que o leva para bem longe da caricatura indígena em que Bordalo e Celso floresceram. /…/ Tudo na sua arte é ligeiro, transparente. Até quando magoa o faz com elegância, com linha, sem descompor as figuras em contorcionamentos borrachos de indivíduos alçados sobre botas de palmilhas bocejantes».
Veiga Simões acrescenta: «Afóra o Stúdio e os magazines estrangeiros que muita vez o surpreendi a folhear, creio que toda a sua arte resultou do seu temperamento bondoso e sensual como as pérolas saem do coração das ostras ou das penhas emana o cristal da água viva. A graça e a malícia são peculiares na sua obra em que o exagero consegue ter um sentido piedoso. E é por isso que ao mesmo tempo se amam os seus bibelôs, em que a ternura tem sorrisos formosos e as caricaturas pessoais, em que o artista prefere a cobrir de pacaro os modelos, dar ao lápis um ar de conselheiro moral, diríeis, um lápis comovido que sublinha somente para ver se corrige o que é aleijado.»
Infelizmente, não é conhecida a sua obra, que se dispersa por vários géneros criativos, como se pode comprovar pelo anúncio publicado em A Rajada: "Caricaturas e Desenhos Cartazes; Vitrais; Capas de Livros; Pastas; Ex-líbris, Pirogravuras; Móveis, etc. Coimbra - L. da Feira, 16.» A luta pela sobrevivência fazia-o caricaturista, publicista, cartazista, ilustrador, ceramista, vitralista, designer de móveis, de tapetes, de encadernações, e até de monumentos funerários e de jardins. Toda uma obra por descobrir e catalogar. Na imprensa deixou trabalhos no Gorro, na Rajada (de que foi Director Artístico / Coimbra -1912), Século, Ilustração Portuguesa e Águia.
Entretanto, em 1915, «Correia Dias vai para o Brasil expor os seus trabalhos, tentar aplicar as suas aptidões de artista decorador». Partiu e lá ficou a conhecer o êxito que cá não tinha. Trabalhou como caricaturista, ilustrador, ex-librista, capista, caligrafo, gravura sobre couro, ceramista… No campo decorativo desenvolveu uma série de motivos de cerâmica marajoara (dos Índios da ilha de Maràjó), criando um estilo de raízes brasileiras, que explorou na cerâmica e na tapeçaria. Casou-se com a poetisa Cecília Meireles, para a qual fez ilustrações dos livros. Suicidou-se a 19 de Novembro de 1935
Cristiano Cruz acabaria por ser o novo messias do modernismo em Lisboa - «a este homem demos nós sem prévia combinação, o lugar primeiro» (Jorge Barradas, Diário de Lisboa 1963), aquele que, através do humorismo, o meio mais fácil de chegar ao público, a forma mais fácil de ganhar dinheiro para a sobrevivência, divulgou o que motivou o grupo de Coimbra, o ideal do modernismo: «Eu sei bem que o público não sente a necessidade de arte, da mesma maneira que não sente a necessidade de lavar os pés. Mas as necessidades criam-se e essa tarefa só nos pode caber a nós, dada a impossibilidade de mandar o meio, a Paris, educar a vista…»
«Façamos Arte onde os nossos predecessores só têm feito arqueologia. Tratemos com largueza os gestos do cidadão Acácio, a vida do povo e o burguesismo. Não deixemos estiolar as nossas faculdades ajudando a viver jornais pulhas, onde eu já vejo o prognóstico assustador de impotência criadora. Não façamos crítica, façamos Arte!» (in A República” de 22/5/1914)
Ao mudar-se para Lisboa, em 1910, veio influenciar pessoalmente uma geração de artistas, como Stuart, Almada, Soares... que continuariam as experiências do modernismo. Christiano abandonou a arte em 1921, desiludido com o meio, desiludido com os companheiros das artes que, para captar um simples trabalho, não se importavam de atraiçoar a amizade. «Exilou-se» em Moçambique, como Veterinário e recusando-se trabalhar como pintor de domingo, como amador. Viria a morrer em Angola durante uma deslocação de trabalho, em 1951
Entretanto, a República foi proclamada. A caricatura que tinha acompanhado sempre as vicissitudes da política monárquica, os avanços do republicanismo fez toda a crónica da revolução. O raphaelismo mantinha-se como a escola dominante do traço da imprensa, por isso não se poderá dizer que havia uma caricatura pró-republicana na imprensa ligada ao modernismo. Este só se desenvolverá após a revolução.
«Feita a República, os artistas mais jovens resolveram proclamar a revolução do seu sonho. – escreveu Diogo de Macedo (in O Ocidente, vol. XLII – 1952) – Juntaram-se aos poetas e cantaram os primeiros hinos. Em Coimbra, na Rajada (1912) do Afonso Duarte e do Correia Dias, agruparam-se alguns desenhadores, cada qual com a sua expressão: Christiano Cruz, Luís Filipe, Almada Negreiros, Sílvio Duarte, Balha e Melo.. Em Lisboa, António Solares, Jorge Barradas, Stuart Carvalhais, Hipólito Collomb e outros ilustradores deram a sua adesão ao movimento. Nos livros, nos jornais, nas exposições, nos cartazes, em toda a parte onde se reclamasse a reforma dos novos gostos, essa plêiade alegava a razão de modernidades da Arte. Fora o período do sacrifício e dos grandes sonhos. Tanto como aos pintores, deve-se-lhes o êxito do chamado Modernismo»
Em relação à proclamação da data do nascimento do Modernismo em Portugal, os historiadores das “artes sérias” procuram não dar grande importância a esse grupo de Coimbra, mas antes a uma exposição conservadora, naturalista que se realizou em Lisboa (Salão Bobone), em Marco de 1911 e que se intitulou como “Exposição Livre”. A Liberdade como conceito de ruptura é a mais correcta, e imbuída do ideário liberal / republicano, contudo de Livre essa exposição só tinha o titulo. Coordenada por Manuel Bentes, teve a participação também de Francis Smith, Domingos Rebelo, Francisco Álvares Cabral, Alberto Cardoso, Eduardo Viana, Roberto Coin (brasileiro) e Emmérico Nunes. Alguns destes artistas conseguirão, mais tarde, ser considerados modernistas, mas o mais vanguardista deles era, precisamente, o único humorista que participou, Emmérico Nunes a viver então na Alemanha. O argumento que dá força intervencionista a esta exposição é o objectivo de ruptura contra os mestres das Belas Artes Nacionais. Manuel Bentes declara: «A Arte não tem sistemas, tem emoções. /…/ Queremos ser livres! Fugimos aos dogmas do ensino, às imposições dos mestres, e, quando possível às influencias das escolas, porque cremos que os artistas têm uma só escola – a Natureza; um dogma único – o Amor». Palavras que nada trazem de novo, e muito menos as suas pinturas estão livres das influências dos seus mestres. Souza-Cardoso está no oposto deste conceito: «Hoje os artistas preocupam-se com a realidade, pretendem imitar a natureza como se ela fosse imitável, não sentem emoções grandes, porque são neutras de nascença as suas almas – em suma, é o ocaso duma religião que passou.»
No dia seguinte a esta inauguração a Academia de Belas Artes inaugura outra exposição com outros artistas bolseiros que também andavam por França à procura de mestres, de inspiração. Não reclamam nada, não expõem teorias, mas, dentro desse grupo, Dórdio Gomes e Santa-Rita serão mais tarde importantes nomes do modernismo português.
Estes artistas pouco se davam em Paris com o “velho” republicano Leal da Câmara, ou com o jovem Amadeo de Souza-Cardoso, dois expoentes opostos da modernidade em terras francesas, artistas que lhe poderiam ter ensinado algo sobre a revolução estética que se vivia no principio do século e ambos praticantes da arte da caricatura.
Souza-Cardoso escreverá sobre os seus compatriotas: «marcham numa rotina atrasada. Arte é bem outra coisa que quase toda a gente pensa, é bem mais que muita gente julga. Tudo quanto para aqui se faz é medíocre, aparte raras coisas»
Numa conferência em 1912, Leal da Câmara defende, em parte por outras palavras, a tese de Manuel Bentes: «Eu não sei com que compasso mágico ou com que centímetro misterioso mediram eles a distancia que separa a Arte Séria da Arte Cómica. Eu só sei que certos destes artistas sérios têm feito caricaturas admiráveis e que vários caricaturistas têm conseguido fazer obras mestras da pintura e de escultura que forçaram a admiração dos próprios críticos.»
«Chego a acreditar que a Arte não é o apanágio de uma teoria, de uma fórmula ou de um processo, mas a universal manifestação do desejo de Beleza, de Correcção e de Progresso.»
«Não há arte séria e não existe arte cómica. Há somente uma Arte como há uma só Natureza, como há só Amor e não deveria existir senão uma Justiça.»
«São as manifestações de esta Arte suprema que são diferentes, mas a essência é sempre a mesma admirável Natureza que faz vibrar temperamentos diferentes.»
A relação de Leal da Câmara é muito curiosa. Perseguido pela monarquia pelas suas sátiras panfletárias, o seu republicanismo foi ferido pela forma como o seu exílio foi apoiado em terras madrilenas, ou seja, se o encobriram na fuga e na sua instalação, abandonaram-no à sua sorte enquanto os outros exilados políticos viviam abastadamente. Isso levou-o a desenvencilhar-se e a crescer como artista e triunfar tanto em Madrid, como depois em Paris. Manterá sempre contacto com Portugal enviando, de tempos a tempos, algum trabalho, mas sempre de política internacional.
Saudou a revolução com um magnífico desenho: Um Zé Povinho vitorioso com chapéu frígio, empunhando uma espingarda com baioneta e a bandeira da republica. Mas, ao contrário de muitos outros exilados, não viajou logo para Portugal. Só o fará em 1911 depois de vários convites para vir expor e realizar algumas conferências. Para a juventude irreverente que se agrupava à volta de Christiano Cruz e à volta da recém-criada revista humorística”Sátira”, Leal da Câmara era um ídolo, uma referência. Organizaram a sua vinda, um jantar de homenagem (que se esqueceram de pagar), exposição no Grémio Literário, Conferências… o caricaturista vinha como mestre, como pedagogo. Na realidade, nunca mais caricaturou a política portuguesa e, uma vez, perguntaram-lhe a razão. Ele explicou que durante a monarquia tinha “batido” em políticos que não conhecia pessoalmente, mas na República como é que ele conseguia ir para casa fazer uma sátira sobre um indivíduo que tinha acabado de tomar café no mesmo local, que frequentava as mesmas tertúlias, as mesmas ruas??? Um dilema que a república trouxe a esta arte, já que os políticos eram, na sua maioria, jornalistas, profissionais liberais que viviam no coração do país, o Chiado, aldeia onde se faziam e desfaziam governos, com os seus cafés, livrarias/tertúlias onde se inventavam dissidências de amizade e de ideologias, de estéticas e boémias.
Leal da Câmara acabaria, mais uma vez desiludido com o país republicano: «…ainda não havia lugar para artistas; - escreverá a Aquilino Ribeiro – um homem de letras é um boémio; um pintor, escultor, desenhador, profissionais, mais ou menos, parasitários. Um desenho não se chama vinheta, cul de lampe, caricatura, retrato, chama-se boneco; todos nós lá vivemos por favor; somos tolerados; falta meterem-nos a matrícula na mão.» Leal da Câmara esquecia-se que a revolução só muda o regime, não as pessoas, nem os costumes.
Esse ano de 1911, como já verificamos pelos diversos acontecimentos, foi de suma importância artística. Se, na politica foi a precipitada tentativa de por em prática, o mais rapidamente possível, alguns dos desejos do manifesto do republicanismo pelo governo provisório, antes que as dissidências barrassem a revolução, no grupo de caricaturistas foram também anos de tentativa de criar uma revolução.
Para além de “A Sátira”, esse grupo procurou criar uma Fraternidade de artistas dentro do ideário republicano. Criar uma Associação de classe que os defendesse, igual a muitas outras associações de profissionais criadas pelo movimento republicano e socialista. No seu manifesto, a Sociedade dos Humoristas Portugueses explica os seus intuitos: «”A união faz a força”, diz a velha filosofia das nações. Nesta conformidade, o humorismo português, empunhando o lápis e a pena, as suas armas de combate, agremiou-se, para melhor continuar a sua campanha de riso de ironia. /…/ Os rebeldes, e indomáveis humoristas, boémios e vagabundos, despreocupados do dia seguinte, acabou de prender mais curtos os seus instintos de vid’airada e resolveram dar-se as mãos. A caricatura não serve só para desmandibular as multidões n’um riso animal. Tem a grave responsabilidade perante a história, qual seja a da concepção dos costumes.»
«É o fiscal da virtude contra o vício do mérito contra o cretinismo, do bom senso contra o ridículo o como sorriso na boca, aqui prende uma lata às abas da casaca, crava um alfinete sua anca postiça, mete n’uma boca inepta uma grossa rolha de trapos. Era preciso restituir à caricatura o humorismo, à sua missão moralizadora? Pois bem: serão os sacerdotes d’essa religião quem vai reerguer-lhes os altares meio-destroçados. /…/ Bases _ /…/ Os fins da associação são: 1º Despertar o gosto pelo humorismo em Portugal, levando ao conhecimento do povo o seu papel social na correcção dos costumes; 2º Obstar à concorrência de artistas estrangeiros, e o plagiato e contrafacção das suas obras, pedindo a intervenção e protecção do governo para os artistas nacionais, 3º Protestar contra a pornografia grosseira que invade o humorismo deprimindo, e até anulando a sua acção moralisadora; 4º Regularizar a remuneração das caricaturas; 5º Fundar uma revista da especialidade que seja órgão da Associação, revista onde podem colaborar todos os sócios; 6º Promover exposições anuais e conferencias sobre arte em lugares oportunamente anunciados; 7º Organizar uma biblioteca e museu caricatural; 8º Criação d’uma academia livre de modelo; 9º Fundação d’uma caixa de socorros e pensões aos caricaturistas e escritores humoristas necessitados… » É impressionante a actualidade deste documento.
Tal como a República, muitas eram as intenções, poucas foram as concretizações. No campo dos caricaturistas, a Sociedade apenas conseguiu realizar dois Salões, o primeiro em 1912, com a presença do Presidente Manuel de Arriaga na inauguração, e o segundo em 1913 com muito menos participantes, menos apoio oficial e menos público. Haverá uma tentativa de realizar um terceiro Salão em 14 que só aconteceria em 1919, mas que não passou de uma sombra do projecto. Tal como na República, após a proclamação das intenções as dissidências pessoais começaram a minar a estrutura, boicotando-se uns aos outros: « /…/ Tire o Cardoso Martha os nomes do Valença, do Emmérico Nunes, do Carvalhais, do Christiano Cruz, do Collomb e de possíveis mais alguns – escreve Saavedra Machado a Cardoso Martha, secretário da organização - , e o que lhe restará mais? – Uma horda de famintos seuiosos de brilharem; amadores sem a mínima preparação, desconhecendo a história do humorismo mundial e que baixarão a caricatura ao insignificante mamarracho que vemos para aí todos os dias»
Noutra carta a Cardoso Martha, Christiano Cruz também faz os seus comentários: «Recebi postal de Correia Dias, participando-me que não participa na exposição, e que igual resolução tinha tomado o Luís Filipe. A razão desta sua resolução é eles não quererem emparelhar com o ingramável Guerreiro. Isto tudo não é mais do que o resultado da política de atracção aplicada à arte. Segundo me disse o Amarelhe, o Leal da Câmara também não expõe pela mesma razão do Luís Filipe e do Correia Dias. Deves convir em q’isto tudo é um grande transtorno, pois temos de sacrificar três bons artistas, e ter o Guerreiro com as suas pecegadas. Se não fosse por coisas, fazia o mesmo. Fizemos muito mal em não “separar o trigo do joio”. O público não é o tal juiz, como tu dizes: o público é besta, o público é incapaz de separar o bom do mal.» Joaquim Guerreiro era o caricaturista / capitalista que sustentava a “Sátira”, as instalações da Sociedade e, por isso, impunha os seus trabalhos académicos aos outros que queriam a revolução modernista.
Esta cruzada dos novos por uma nova estética, por uma nova temática mais social não foi bem recebida por alguns sectores da caricatura instalada, e a essa posição Christiano Cruz responderá no Diário da Tarde a 27 de Maio de 1913: « Diz o senhor Alberto de Sousa que nós, os caricaturistas novos, temos um traço pouco nacional. No conceito desse senhor nós emparelhamos com os traidores à Pátria, negociando planos de mobilização e… fazendo caricaturas. O traço nacional constitui, pois, para o senhor de Sousa um símbolo nacional ao lado do hino e da bandeira… Mas este furor patriótico, assim manifestado, não é só do senhor Sousa: é de todos aqueles que não vêem numa obra de arte senão as tintas. O Sr Sousa, como esses outros cavalheiros, queria-nos eternamente agarrados ao tradicional, venerando fanaticamente os bonzos da arte, copiando-lhes a maneira de ser do seu espírito e, embebidos na sua obra, plagiando-lhes… o traço. O traço!... O Sr. Alberto de Sousa, porem, considerando esses mestres como modelos, como ponto de partida de tudo o que se fez e fizer, reconhecendo-lhes em suma, uma pureza de traço toda portuguesa, mostra implicitamente desconhecer o paralelismo de estilo, na sua opinião, verdadeiramente comprometedor, entre os caricaturistas do jornal francês Charivari e os seus congéneres portugueses.»
«Esta analogia nada tem de desonra: o artista do seu tempo assimila e adapta ao seu temperamento o espírito da época, reflectida na maneira de ver dos seus camaradas.»
«Assim, ao passo que a caricatura moderna tem uma feição pessimista, rindo de um modo doentio e céptico, as charges dos humoristas, nossos avós, eram de um riso franco e saudável, revelador da mais enternecedora ingenuidade»
«Temos o pressentimento de que o sr. A. De S. nos acusará de outro crime: o de não pintarmos tipos portugueses! Mulher da hortaliça e o galego das malas? Que nos ocupemos da política com comentários de barbeiro?»
«A nossa legenda é: GUERRA À BOTA-DE-ELASTICO!»
Bota de Elástico era um calçado usado, normalmente, por pessoas de uma certa idade como os políticos do antigo regime, e também do novo, já que a maioria também tinha a idade para ser pai destes artistas (Salazar usará este calçado), sendo este “grito” um predecessor do manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros.
Almada não entrará no grupo da Sociedade, mas apresentará os seus trabalhos em exposição em 1912 e a 14 surge como director do semanário humorístico “Papagaio Real” numa postura anti-republicana. O normal da irreverência é ser da oposição, portanto, se a República estava instalada, a forma de ser mais crítico era optar pelo lado oposto.
As críticas à República surgem logo após a sua proclamação e um tema comum será a questão de onde está a Liberdade, Igualdade e Fraternidade? A turbulência política, com a sucessão dos governos, com a intranquilidade das divisões entre os republicanos, a incapacidade de dar rumo a uma nova sociedade só provocava desilusão, em vez de esperança no futuro
Stuart Carvalhais, um dos geniais artistas do séc. XX que pautará a sua vida pela anarquia e pelo desbaratamento do seu génio, numa entrevista em 1916 (Ideia Nacional 6.4./1916) declararia: «a vida portuguesa caracteriza-se pelo estado de anarquia… devido – honra lhe seja – à geração nova. Mas, estamos ainda na primeira forma de uma acção libertadora: Destruímos… Vamos agora construir!» Só que essa construção não se concretizou na plenitude.
A imprensa humorística, na viragem do século com a mudança de geração de humoristas teve um pequeno desaceleramento de número de publicações (principalmente no Porto, cidade que nunca mais terá a dinâmica de oitocentos) e, em parte, também na qualidade estética. É por essa altura que os jornais noticiosos começam a integrar caricaturistas no seu corpo redactorial como o Diário de Notícias, Comércio do Porto, Século…. Todos os jornais de líderes republicanos usarão a caricatura como suporte crítico e, em 1921, o aparecimento do Diário de Lisboa (e o seu grupo empresarial) torna-se num marco de exploração do humor gráfico na imprensa.
Também na viragem do século tinham surgido os dois jornais humorísticos de maior impacto e durabilidade: o “Suplemento Humorístico de O Século” (1897 – 1921) que em 1913 passa a chamar-se “Século Cómico”, e os “Ridículos” (1900 – 1963). O primeiro morrerá em 1921, mas o segundo aguentará várias crises até ao período mais difícil do humorismo no Estado Novo, a década de sessenta. Durante o Estado Novo os “Ridículos” terá de dividir com o “Sempre Fixe” a preferência do público.
Paralelamente, múltiplos títulos satíricos nascem e desaparecem numa constante roda viva de sobrevivências e desejo de intervir humoristicamente na sociedade. Só por curiosidade, entre 1910 e 1926 surgem (e na quase totalidade desaparecem) setenta títulos. Os mais importantes, para alem do “Supl. De O Século” e os “Ridículos” são a “A Sátira”, “A Garra”, “Rajada”, “O Zé”, “Papagaio Real”, “Os Grotescos”, “A Bomba”, “O Thalassa”, “O Mathias”, “O Moscardo”, “Miau”, “Riso da Vitória”, “ABC a Rir”, “Espectro”…
Nesta revolução modernista vão pontuar Almada Negreiros, Jorge Barradas, Hipólito Collomb, Francisco Castro, João Valério, Armando de Basto, Balha e Mello, Emmérico Nunes, António Soares, Cotinelli Telmo… O genial Stuart Carvalhais vogará entre a modernidade, as extravagâncias estéticas e técnicas e o conservadorismo económico consoante os seus humores e necessidades. Para além da sua profundidade filosófica de muitos dos seus trabalhos, em 1915 (21/1) cria, no “Século Cómico” o primeiro herói da BD portuguesa, o “Quim e Manecas”. A narrativa gráfica foi-se desenvolvendo pela necessidade de desdobrar a vinheta satírica numa narrativa mais extensa que o simples flache humorístico.
Para desespero da nova corrente filosófica do humorismo gráfico, o que vende os jornais, o que o público prefere é o anedotário político, a caricatura achincalhada dos homens da governação. Neste campo o raphaelismo continua a ser escola estética preferida. Há artistas que estão na fronteira como João Menezes, Francisco Teixeira, Castro Lys. Grandes nomes se impõem no raphaelismo desta altura a sua Alberto Souza, Manuel Monterroso, Jorge Colaço, Cristiano de Carvalho ou que se iniciam como Amarelhe, Alfredo Cândido, Rocha Vieira, Francisco Valença, Alonso... Silva Monteiro, contudo, é a figura que mais tem direito ao título de cronista dos “Ridículos” da Primeira República.
Silva Monteiro surge na imprensa pouco antes do fim da monarquia. Será durante a primeira década da república, a capa semanal de “Os Ridículos”, deixando-nos um registo impressionante do quotidiano dessa época. Na década de vinte vai-se afastando, para se perder o seu rasto no início da década de trinta. Deixou também trabalhos em “A Época”, “Diário de Lisboa”…
Após o fracasso da continuidade dos salões de Humoristas em Lisboa, o Porto tenta recuperar o espírito revolucionário desta nova geração e cria o Salão dos Humoristas e Modernistas em 1915, seguindo-se em 1916 o Salão onde o termo Humoristas desaparece e para dividir, mais uma vez os artistas, surge também no Porto, em 1916, o grupo dos Fantasistas liderado por Leal da Câmara que persegue os mesmos objectivos que orientaram a criação da Sociedade dos Humoristas. Criou o jornal “Miau”, mais uma referência importante do Modernismo mas efémero como todos os outros… Contudo, a semente estava lançada, a nova geração, mal ou bem, conseguia sobreviver, e o futuro estava à sua frente. Amadeo de Souza-Cardoso, de regresso de Paris fará uma grande exposição no Porto e em Lisboa, obrigando a sociedade a ter conhecimento real da profunda revolução artística que se vivia na Europa. Claro que foi um grande choque e em entrevista (in Dia de 4.12.1916) ele proclama o seu manifesto: «Sou impressionista, futurista, abstraccionista? De tudo um pouco. Mas nada disso forma uma escola. O Impressionismo foi o primeiro passo na nova senda. Mas logo surgiu o cubismo, homenagem calorosa à forma geométrica. Era porém preciso caminhar, mais e mais. D’ahi o futurismo, d’ahi o abstraccionismo. Depois da nossa mediunidade comparável ao raio X, quem crê ainda na opacidade dos corpos? /…/ A nossa vida é toda para diante. Glorifiquemos o grande explorador mecânico e geométrico, a grande industria, o luminoso “reclame”, o “Music-Hall” como o grande Teatro moderno e a arte como a única expressão universal da sensação dinâmica»
É a Arte que faz a Sociedade ou a Sociedade que faz a Arte?

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