Monday, April 12, 2021

Festival Karika / Fete 2021 Centre Africain de la Caricatura Rep. D. Congo


 


Livros de Arte / A Arte em Livro: «Portugal: O riso e a Raiva» por Osvaldo Macedo de Sousa in «Artes Plásticas» nº 17 Maio 1992

Riso ou sorriso de prazer, é ver que as editoras finalmente dão valor à caricatura, editabdo livros de arte sobre a mesma. Pena é que os livreiros ainda não tenham compreendido o que é caricatura / humor. Por essa razão é normal ver os livros de humor, por serem de «bonecos», estarem nas prateleiras dos livros juvenis, em vez  das prateleiras de arte. O mais curioso é o que se passa na Bertrand com o livro «Caricatura Politica em Portugal», um livro sobre a historia da caricatura que não se encontra  na arte, mas nas ciencias políticas…

Voltando ao tema desta resenha critica, é com agrado que vejo a edição de um livro sobre a caricatura do final do seculo XIX. Da autoria de A. Farinha de Carvalho, «Portugal o Riso e a Raiva»  (Prefaciado por António Valdemar) é uma viagem pelos trabalhos de Leal da Câmara,  Trindade Correia, Chico Lisboa e J. silva nos jornais «A Marselheza» e «A Corja», dois periódicos fundados por Leal da Câmara, os quais foram uma pedrada no charco monárquico e republicano, ao levantar esta ultima ideologia como solução única para o país, ao impô-la como solução em revolução armada.  Estes dois periódicos transformaram o desenho irónico complacente que dominava a imprensa, em sátira panfletária.

O texto de Valdemar, como sempre, é precioso e cumpre a sua função de prefácio. Pena é que Farinha de carvalho não tenha ido tão longe na sua análise da época, do riso e da raiva. Deixou que os desenhos falassem por si só…

Se «glorifico» a editora e o autor por esta edição, o mesmo não posso fazer em referência ao preço. A qualidade dos artistas (salvo Leal da Câmara) e das obras não justificam tanto «luxo».

Uma edição mais simples, mais barata  seria o correcto, gastando-se esse precioso dinheiro na edição de outros livros sobre caricatura, que bem falta fazem… até mete raiva.

«Portugal: O riso e a Raiva» é um livro interessante, com o senão do preço.


Friday, April 09, 2021

«Carlos Corujo, variações em “Z”» por Osvaldo Macedo de Sousa in «Artes Plásticas nº 12 Julho de 1991

As variantes de coordenadas de um ser humano podem-se apresentar lineares, ou sinuosas como um «Z». Z de Zíngaro é uma variante de identidade de Carlos Corujo, de Carlos Magalhães Alves, uma alcunha que se impôs mundialmente e que hoje o próprio artista, que ele é, tem dificuldade em tornear. É como uma «fatalidade» de nomadismo de artístico que o músico Zíngaro impõe, contra a ambição sedentária do Carlos Corujo artista plástico.

Carlos «Zíngaro» é um dos nomes mais sonantes em todo o mundo (ressalvo Portugal), no campo da New Music. Para além de compositor-interprete, com espectáculos a solo ou parcerias (com sete discos editados no estrangeiro), Carlos «Z» é também compositor de múltiplas músicas para teatro e bailado.

Carlos Corujo «Z» apesar de conhecido no meio da BD, do cartoon, da ilustração (Premiado frequentemente nestes sectores), ainda é um desconhecido do grande público, não só no reconhecimento da mesma pessoa para as duas actividades artísticas (o músico e o artista plástico), como da sua obra real pictórica.

Essa falha pode ser alterada com a sua nova exposição individual, que se inaugurou a 29 de Junho na Galeria de Colares.

É este artista, atraente pelo seu mundo estético e pela sua imagem enigmática, que resolvemos ir descobrir.

OMS – É importante para ti a realização desta tua terceira exposição individual?

Carlos Corujo «Zíngaro» – Claro que é, apesar de viver o facto com uma certa distancia. A realidade está que não procuro uma Galeria, como não procuro uma Editora discográfica. Ao longo destes anos de actividade artística, e já são longos, nunca me preocupei com a noção de deixar obra. O que eu quero é tocar, pintar, compor. Depois se as coisas ficam num livro, ou são expostas ou não, é uma coisa sobre a qual penso pouco, talvez para não me deprimir.

Se aparecesse alguém empenhado em me lançar nestas “aventuras”, óptimo, e então é importante para mim. Eu até agora nunca preparei uma exposição e por isso as duas exposições anteriores chamaram-se “Páginas d’um Diário”, como mini-retrospectivas do que ia realizando ao longo dos anos.

OMS – Recuando nesses anos, quando surge Carlos Corujo Magalhães Alves, ou o Zíngaro?

Carlos Corujo «Zíngaro» - O «Zíngaro» surge com os meus estudos de violino, enquanto o Carlos nasce em 1948 e o pintor quase vinte anos.

OMS - É o final da década de sessenta, o período «psicadélico», em que chegas a participar num Salão de Pintores de Domingo no Estoril, onde vendes os três trabalhos expostos e ganhas um prémio. Qual tinha sido a tua escola?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Desde criança que eu desenhava e pintava, por mimetismo ao meu pai, de resto era um autodidacta com breves incursões turísticas em Belas Artes, já que aparecia lá de longe a longe a umas aulas de Desenho de estátua, para fazer o exame de admissão a Arquitectura. Depois, por vários motivos desisti. Na altura, a música já tinha uma preponderância, estava metido nos grupos rock… tinha o tempo muito ocupado.

OMS – Foi nessa altura que foste para África, onde mantiveste a tua actividade artístico-plástica. Como era esse mundo?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Nos anos sessenta eu sou influenciado pela BD, as correntes a que se convencionou chamar “underground” da Costa Oeste dos EUA, ou que lhes chamam também psicadélicas… pelo surrealismo… era uma enorme confusão. Depois, em África “adaptei” algumas dessas tendências para elementos africanos, a cor, a forma, sem andar à procura verdadeiramente de elementos étnicos. Era mais o espírito, do que uma vivência concreta da plasticidade do mundo estético africano.

OMS – Em África, chegaste a expor?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Fiz exposições numa livraria de Luanda, só que para mim não passavam de uma curiosidade, uma graça. Soube também que uns desses trabalhos, comprados por um colecionador, estiveram expostos numa colectiva em Durban.

OMS – A guerra colonial influenciou-te nessa tua linha surrealista?

Carlos Corujo «Zíngaro» - É uma das influências. Essa ideia de surrealismos praticamente não existe no meu trabalho, antes influências de pintores como Ives Tanguy…

OMS – A esse espírito “surrealizante” aliava-se um barroquismo…

Carlos Corujo «Zíngaro» - Sim, era minucioso, cheio, onde há um enorme barroquismo, que em África servia quase como exercício terapêutico. Era o andar às voltas num elemento indefinido, desligando-me da realidade da qual não podia fugir. Era uma realidade de tal forma deprimente, e presente que só extravasando, mesmo que de uma maneira muito frágil, através do desenho e pintura é que podia eventualmente chegar a um outro estado de consciência, o que era também relativo.

OMS – Esse elemento terapêutico ainda se mantém.

Carlos Corujo «Zíngaro» - Por outras razões, sim. É um facto de que se eu estou a desenhar ou a pintar, sem qualquer tipo de compromisso, é extremamente relaxante, como é a de músico e compositor.

Como compositor, tenho que satisfazer encomendas e algumas de las não são cem por cento coincidentes com a minha maneira de sentir, automaticamente provocando uma situação stressante; por outro lado, o compromisso de encomendas com prazo.

Depois, a actividade como músico concertista, que é uma situação traumática (enquanto stressante) de ir para cima do palco tocar perante um público, depois as reacções desse mesmo público, dos intermediários, etc. Com a agravante do alto risco em que me encontro, pela estética, pelo tipo de música, pelo tipo de opções que eu fiz. Uma opção em que estou sempre a forçar-me e a focar o ouvinte. Isso implica naturalmente uma tensão. Esta é uma actividade pública, enquanto que a pintura é isolar-me, desligar do resto, numa atitude íntima. Evidentemente que o trabalho gráfico, um desenho, poderá, através de uma publicação, de uma exposição, ter uma leitura pública, só que a distância é maior, não é directa, é uma outra reacção, onde o feed-back directo, executor-público não existe, tem outra dimensão.

Quando estou a desenhar ou a pintar, não estou a pensar que vou expor, é antes sem compromisso, relaxante, terapêutico. É a única altura em que me permito instalar, naquela ideia de torre de marfim.

OMS – Será que a tua pintura vive o mesmo experimentalismo que a tua música, a improvisação, a variação sobre uma ideia estética…

Carlos Corujo «Zíngaro» - A improvisação, como eu a entendo, baseada em determinados critérios e estruturas, a liberdade, é que me interessa na pintura. Por exemplo, quando eu vou fazer um cartoon, eu próprio me determino um tema, que depois vou «Ilustrar». Essa «ilustração» pode não ser literal e altamente dúbia, porque é essa a minha maneira de ver as coisas, sem uma leitura imediata de humor. Não é aquele trabalho para o qual uma pessoa olha e ri, há um sentido crítico na ironia e não na sátira. Eu gostaria que ficasse na mente das pessoas e, passados um dia, ou dois, se lembrassem e vissem diferentes leituras. Claro que quando faço um desses trabalhos, tenho uma ideia precisa do que quero fazer e como.

Quando pinto, raramente sei onde vou e mesmo que eu force o tema, de repente já estou a fazer algo diferente.

OMS – Voltando ao teu percurso biográfico. Algo de diferente foi o que fizeste quando regressaste da guerra, ou seja a cenografia. Como aconteceu?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Por acidente, como há uma quantidade e coisas que são acidentais no meu percurso. Chego em finais de 1972 e no início de 73 leio a notícia da inauguração da Escola de Cinema no Conservatório Nacional de Lisboa, e da remodelação da Escola de Teatro. Fui então falar com Seixas santos, o director da Escola de Cinema, porque me interessava o cinema de animação e julgava que lá poderia haver, mas ele desiludiu-me logo. Então, como queria fazer qualquer coisa, inscrevi-me na Escola de Teatro, Curso de Cenografia. Não porque me interessasse a cenografia de teatro, já que o teatro que conhecia cá não me interessava em nada, mas tinha a ideia de poder vir a fazer cenografia de cinema e bailado. O bailado tem outros princípios estéticos, assim como o cinema, mas uma coisa é o que uma pessoa diz gostar de, outra a realidade.

Acabo o curso, fico como assistente de Desenho e, entretanto, porque estou lá dentro, sou convidado como músico para a criação do grupo de Teatro Os Cómicos. Resumindo, a minha actividade como cenógrafo – fui assistente da cenógrafa inglesa Gilliam Daniel na primeira peça dos Cómicos (As Cuecas), fiz a cenografia de «A Noite dos assassinos», «Do Teatro ao Cais do Soudré», isto em 76, e em 80, no final dos Cómicos como grupo de teatro, «Retrato de um amigo meu enquanto falo». Há três anos, faço finalmente uma cenografia para o Ballet Gulbenkian (uma coreografia da Margarida Bettencourt) e nunca fiz cinema.

OMS – Foi nesse período que coincidiu a tua época de ouro da BD.

Carlos Corujo «Zíngaro» - Sim, um período áureo muito limitado, pois cinge-se ao aparecimento da revista «Evaristo» que durou quatro números; da «Visão» que durou uma dúzia; e o «Ovo» que durou um (estamos a falar de 1975/76). Claro que a «Visão» impõe-se, onde realizei a minha única BD a cor. Isto é tão pouco significativo.

OMS – Creio que depois há um lapso de 76 a 84, no aparecimento público, que só volta a acontecer na exposição «Páginas d’um Diário» na Galeria Stuart em 1984.

Carlos Corujo «Zíngaro» - Sim, há um período largo em que, não é propriamente desistir, mas em que desenho pouco. Na verdade retorno a desenhar e pintar a partir de 1981, altura em que colaboro no «Pão com manteiga» e, principalmente, começo a dedicar-me mais à pintura, e por isso essa exposição individual.

OMS – Chamou-se «Páginas d’um Diário», por ter aquele cariz terapêutico do dia-a-dia?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Era o estar a desenhar, quando via televisão, nos intervalos dos ensaios… em espaços em que me podia relaxar…

OMS – Hoje ainda fazes esse estilo de Diário criativo, de desenho quotidiano?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Ainda faço, mas agora, mas agora ao nível do esboço, coisas pequenas a pensar em coisas concretas do futuro, uma instalação, ideias para trabalhos de uma exposição, ou para o cartoon que tenho de entregar. Já não é um elemento do culto do lazer, mas um trabalho específico de preparação de. Isto tem a ver com o vislumbrar, na actualidade de novas perspectiva mais concretas de haver um fim possível para os trabalhos que crio.

OMS – Nessa quebra de 76 a 81 há uma alteração no teu traço, que tem evoluído até hoje. São novas influências, novas opções?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Não são novas. São épocas estéticas e não influências, porque essas sempre existiram. Mesmo nos finais de sessenta, quando estava mais ligado ao rock, já era atraído pela arte japonesa, pelos desenhadores do princípio do século, pela expressionistas alemães, pelos desenhadores de BD que fazem outro tipo de BD, mais próximo da pintura, do que de contar histórias… É esse elemento pictórico na BD, a página que é um mundo plástico, estético e eventualmente narrativo que me interessa… Com o andar dos anos, com o envelhecimento ou amadurecimento, como se quiser dizer, eu vou depurando, vou deixando de comprar BD e a comprar livros de arte, passo a pretender outra coisa. Comecei a apurar, em termos de referências àquelas linhas, correntes, estéticas que se desenvolveram muitas das vezes à marghem de modas ou de escolas, como Francis Bacon, Kokoshka… e a violência da imagem…

OMS – No teu trabalho há todo um mundo de seres, que naturalmente podem ser considerados fantásticos, surrealizantes…

Carlos Corujo «Zíngaro» - Eu não lhes chamo nada e não concordo com essas referências, porque o elemento que utilizo sistematicamente é o humano.

OMS – Mas deformado…

Carlos Corujo «Zíngaro» - Deformado, porque o elemento humano em si é deformado, e porque essa visão é eventualmente o que vem da minha ironia, sátira, ou da minha leitura pessimista. Eu gosto muito do ser humano, fascina-me, mas é obvio que quanto mais o conheço, mais crítico eu sou. Não estou a pretender, longe disso, de dar mensagens, é uma coisa intima, é muito a minha leitura do ser humano.

OMS – É o extravasar os teus demónios interiores?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Não propriamente os meus, mas os demónios de todos nós. Não os reivindico como meus.

Por que é que evito as designações de surrealismo e fantástico? Porque são sistematicamente conotadas com um transcender a realidade, um alheamento onírico. Não é nada disso, é a realidade, é visceral. É talvez ver o homem através do bisturi, da violência.

OMS – Ultimamente o teu trabalho tem deixado o predomínio do traço para investigar a cor.

Carlos Corujo «Zíngaro» - É uma coisa que me custa muito, o menosprezar o valor do desenho. Para mim o desenho é o fundamental de tudo.

OMS – Sempre foi, até este século.

Carlos Corujo «Zíngaro» - Tem um valor próprio. Devo dizer que é incomparavelmente mais difícil fazer um trabalho a preto e branco, e dar-lhe uma dimensão válida, do que a cores. Para mim, é mais fácil, e eu sou um fanático do desenho, fazer um quadro a cores. É mais fácil atingir uma série de emoções, expressão com cor, do que limitado a preto e branco. Isso faz com que quando trabalho a cor, limito a paleta.

É-me difícil considerar um desenho como preparação para a pintura, porque se vou pintar, estou a pintar como se estivesse a desenhar.

OMS – A investigação da cor, são variações do desenho em cor?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Exacto. Mas há outro problema. Eu tenho uma enorme facilidade em desenhar e essa facilidade por vezes torna-se demasiado perigosa na pintura. Isso leva-me, por vezes, a fazer coisas ostensivamente «guache», literalmente «guache», isto é, o desenhar com a mão esquerda. Como não estou habituado, falham, mas é este falhar intencional, esta não facilidade do traço que eu pretendo, senão as coisas saem demasiado limpas, demasiado fáceis.

OMS – Essa facilidade de desenho levou-te a um trabalho híper pormenorizado, que por vezes atinge um certo abstracionismo.

Carlos Corujo «Zíngaro» - Foi isso que ao longo dos anos fui cortando, fui tentando retirar o exagero, a ornamentação, o supérfluo, procurando uma síntese, numa visão quase «zen» de precisão da pintura, ou desenho sumi. São meia dúzias de traços que tem de lá estar e acabou.

OMS – Isso faz-me lembrar um velho problema teu. Fazes esse trabalho com uma grande precisão mental, mas não literário, porque nunca pões nomes nos teus trabalhos.

Carlos Corujo «Zíngaro» - Isso é um drama, ou seja, utilizar a palavra em qualquer contexto. Se for obrigado, eu escrevo, falo, mas como tenho outros dois elementos de comunicação, a música e a pintura, eu evito utilizar palavras. Com os quadros é a mesma coisa, faço-os e acabou. Nunca penso num título antes. Faço-o no cartoon, porque é outra linguagem, outro objectivo.

OMS – O Cartoon nasceu como um derivado da BD?

Carlos Corujo «Zíngaro» - Sim, nas revistas de BD publiquei alguns cartoons, depois aconteceu o «Pão com Manteiga»; em 1981, o «Bisnau», «Gazeta de Artes e Letras», o «Europeu» (que não chegaram a publicar), «Liberal», «Rev. São Carlos» e «Artes Plásticas».

É na «Gazeta de Artes e Letras» que surge o lado visceral, abandonando gradualmente os barroquismos, para uma maior preocupação estética. Acho que cada vez mais procuro que o desenho de humor tenha conotações com a pintura, o triunfo do grafismo, do lado plástico.

É um facto que os cartoons para a a «Artes Plásticas» têm muito pouco a ver com a pintura ou desenho que faço para mim. O cartoon é um desenho a linha clara, de caneta, e isso dificulta-me a liberdade de traço. Acho fantástico que desenhadores como o Steadman, o Scarfe consigam ter aquele tipo de expressionismo, gestualismo com a caneta. Isso é o meu objectivo no cartoon. Curiosamente já consigo ter esse gestualismo e liberdade quando estou livre, quando desenho para mim.

OMS – Isso porque o teu desenho-pintura não sai de fora para dentro, como o cartoon, mas de dentro para fora, ou seja, as memórias e vivencias filtradas.

Carlos Corujo «Zíngaro» - Creio que é isso, já que nunca consigo pôr-me em frente de algo e desenhá-lo. Logo após os primeiros traços, introduzem-se uma série de elementos, que é já o meu mundo a «improvisar». Isso talvez seja uma falha de rigor conceptual, precisão temática. Por essa razão, penso dedicar-me com mais afinco à minha próxima exposição. Sempre tive ideia de realizar séries baseadas num tema, mas nunca tive essa possibilidade por falta de tempo. Agora gostava de realizar uma série sobre «Ex-votos», baseada numa tradição muito portuguesa.


Thursday, April 08, 2021

IOnternational Shiraz Metro Cartoon Festival 2021




 


International Salon of Press Cartoons and Satirical Visual Arts, Timisoara 2021

1. The competition is open to any cartoonist.

There is a free theme.

2. It is acceptable to enter with cartoons that have been published previously. However, they should not have won any prize/award in any other competition.

3. Any technique is allowed. The cartoonist can submit a maximum of 5 cartoons.

Originals or electronic versions suitable for printing in 300 dpi and jpg format sent by e-mail would also be acceptable.

No responsibility will be assumed for documents sent in different formats and documents that can not be opened.

4. All cartoons must be 30x40cm maximum.

5. The participants must write their names (first and surname) in capital letters, address, e-mail, country and telephone number; a brief CV should be submitted in a sealed envelope.

6. The cartoons must be sent to the following address, no later than the 15th of August 2021: 

office@tim-toons.com

office@popa-popas.ro

POPA’S FOUNDATION TIMIŞOARA adress:

Street Virgil Oniţiu number 5, postal code 300238, Timişoara, Timiş, România

Phone: 0040-(0)744 531 169.

7. The results of the competition will be announced on the 15th of October 2021.

8. The cartoons sent to the competition will not be returned. 

All cartoons, whether they have won a prize or not, may be used for cultural purposes and may be published.

Participation assumes acceptance of these conditions. All cartoons will be kept in the ‘International Salon Of Press Cartoons And Satirical Visual Arts'.

9. The cartoons selected by the jury will be displayed in the exhibition and will also be printed in the album.

10. The reward ceremony will be held on the 15th of October 2021. The opening of the exhibition will be held on the same date, in ‘International Salon Of Press Cartoons And Satirical Visual Arts' for cartoons which have won an award or have been selected for display.

The exhibition will be open until the 30th of October 2021. 

11. For participants the travel, accommodation and meals are provided by the organizers. 

12. SELECTION COMMITTEE: 

Judging will be made online in 6 capital cities of the world by great artists around the world. 

The honorary president of the International Salon Of Press Cartoons And Satirical Visual Arts is ANTONIO CALDERÓN de JESÚS, International Association of Art Critics (AICA).

13. PRIZES:

There will be 4 prizes of excellence of 1000 Euros each.


«A outra face de Júlio Resende» por Osvaldo Macedo de Sousa in «Artes Plásticas nº 12 julho 1991

 O Homem Público é sempre apenas um aspecto limitado do ser, tal como o drama é um lado restritivo da vida quotidiana. Existe sempre um outro lado oculto da lua, seja humorístico, sentimental, banal, anacrónico, anónimo… No caso do artista plástico, a face visível do iceberg é a obra, mas mesmo essa pode estar travestida sob pseudónimo, escondida na intimidade privada…

Por detrás de um mestre reconhecido em expressionismo irreverente, que explora a tela desde o geometrismo abstracionista, passando pelo neo-realismo, gestualismo… que se sensibiliza desde o populismo alentejano à citadina Ribeira Negra… está Júlio Resende.

Desde muito cedo que Júlio Resende foi reconhecido como mestre entre uma geração estética do pós-guerra. Não só pela expressão plástica da sua obra, mas também pela irreverência vivencial, numa acção dinamizadora de grupos artísticos independentes, numa perspectiva de veículo de experiências internacionais por ele bebida em Madrid, Paris…

O espaço pictórico de Resende, teve sempre como linha condutora a multiplicidade de tendências, o experimentalismo, a irreverência, a curiosidade no acto criativo, um guia que se reflecte na sua vida.

Desde muito cedo que a «aventura» se instalou no seu quotidiano, não como irreverência contestatária ou esporádica, mas como vivência telúrica, anti monotonia ou comodismo. Como parceiros destas suas «aventuras» da juventude, teve o seu irmão António e o primo Fernando Lanhas.

Uma das primeiras «aventuras» foi um jornal, feito ao copiografo e destribuido pela família, amigos, vizinhos, onde o humor era chave de sucesso.

OMS – O que é para si o humor?

Júlio Resende – O humor pode ser uma forma de estar, sentir e reconhecer o mundo pela óptica que se põe a descoberto, uma realidade transgressora das convenções.

OMS – Depois surgiu a Rádio e seus tempos de pioneirismo, onde mais uma vez o «Senhor Arrepiado» triunfava pelo humor, esse humor travestiu-se em «Juca», o palhaço pobre. Fazendo parelha com o seu irmão, tornaram-se palhaços amadores do sport Clube do Porto. Júlio explorava assim a súmula do humor, da aventura irreverente na humanidade, no sentimentalismo do bobo…

Júlio Resende – Para mim, era reconfortante e me bastava ver sorrir as crianças nos Sanatórios. Até cheguei a tocar na pista vários instrumentos, como o saxofone, o banjo ou até o insólito serrote…

OMS – è um género de pré-historia do «Nariz vermelho» nos hospitais. Era palhaço, humorista por necessidade interior?

Júlio Resende – Nos anos 30 e 40 a necessidade fez de mim um «humorista», mas certamente que já o era… Não tenho qualquer menosprezo por essa forma de comunicar, até por admitir que ela pode muito bem ser criativa.

OMS – Nos anos de estudo de Belas Artes fazia desenho publicitário, para ganhat algum dinheiro e creio que também BD e «bonecos» humorísticos.

Júlio Resende – Não disponho de dados seguros, mas foi nos anos 30 que iniciei uma actividade colaborante nas secções infantis do «Jornal de Notícias», no que era acompanhado pelo meu irmão António. Sem dúvida que eramos motivados por uma necessidade interior, por essa razão sanguínea. Então assinava Resende em maiúsculas. Imagine-se!...

OMS – A sua irreverência, e «engagement» político nunca afectaram esse trabalho jornalístico?

Júlio Resende – Histórias e «bonecos» eram concebidos e tinham um destino que era o leitor jovem, que nos anos 40 e 50 se afeiçoara ao «papagaio». Nunca essa actividade foi contrariada, de tal modo inofensiva era….

OMS – No campo do humor houve uma série de heróis críticos, com destaque de um trabalho, ao longo da década se sessenta no «Primeiro de Janeiro»

Júlio Resende - O «Matulino Matulão», o «Senhor Arrepiado», o «Feli Feli» e tantos outros foram concebidos no entendimento humorístico. Matulão alimentando os caprichos do Matulino, certamente com uma intenção crítica, fez algumas gerações leitora do «Primeiro de Janeiro». Então já há muito assinava o pseudónimo «OVAS» como exteriorização de uma parte de mim própria.

OMS – Júlio Resende exteriorizava parte do seu ser no humor, no «boneco» ou na história aos quadradinhos, numa acção pública, mesmo que disfarçada sob pseudónimos. Só que nem sempre a vida pública aceita concorrências: «A pintura exige a totalidade do ser. Uma opção que se impunha».

Porém, nada morre, tudo se adapta e essa vivência humorística interior do quotidiano, transformou-se em apontamentos de viagem, em notas de diário que é escrito ao fim do dia como exorcismo, como «resumo», como gozo: «o registo do chamado «boneco» é um gozo para mim próprio. Apenas isso».

Esse gosto caligráfico do desenho é uma libertação, uma variante do seu traço estético, um espasmo de simplicidade que encobre outras irreverências, outras experiências… «O humor está onde menos se espera. A produção pictórica dos finais do ano transacto, por acaso ainda inédita em Portugal e que foi exposta na Galeria Bonino do Rio de Janeiro, é sintomática disso mesmo. A ironia não é desamor».


Saturday, April 03, 2021

10th International Cartoon Contest, Cyprus 2021


TERMS AND CONDITIONS OF PARTICIPATION  

1 – The contest is open to all (over 18 years) amateur or professional cartoonist or any one who could submit a cartoon regardless individual's race, gender, religion, national origin, disability, sexual orientation, age, or other protected characteristic.

2 – THEMES: 

A) Olive

Olive, Olive and Time, Olive and History, Olive and Mythology, Olive and Technology, Olive and Cyprus, Olive and Life, Olive and Peace, Olive and Conflict, Olive and War, Olive and Health, Olive and Women, Olive and Men, Olive and Children, Olive Oil, Olive Branch, Olive Tree, Benefits of Olive, Olive and Olive Mill/Press, Banning of Uprooting, Burning and Cutting Down Olive Trees and so forth. 

B) Free Subject

Any topic can be drawn.

3 – All Submissions must be in the form of cartoon. Any painting or illustrations will not be accepted and will be disqualified. Cartoons must be without words. 

4 – All submissions must be originals. Submission dimensions: A4 or A3 in any color or black and white. Each entrant must provide name and surname, address, phone number including country code, and email address on the back of the submission; each entrant should also provide short background and a photo (optional) on a separate A4.

5 – Submission of materials, which has previously been submitted and or presented and or published elsewhere, is welcomed providing copyright is not infringed, however previously any award wining material cannot be submitted.

6 – All work submitted for evaluation by the International Selection Committee and work of finalist will be published at official web page of the contest.

In addition submissions will be reviewed and evaluated for plagiarism by international associations.

If Plagiarism detected and or any previously award wining material submitted, submissions will be canceled and the next eligible entry will be considered for the prize.

7 – It is possible to participate in the contest with two works in both sections.

(2 + 2 = 4) However, one participant receives only one prize per episode. If any cartoonist has won the Grand Prize, he cannot receive another prize in that department. 

8 – All submission must be received by JUNE 30, 2021 at the address provided below. 

9 – All submission, awarded or not, will be kept and archived by Cypriot – Turkish Cartoonist Association at the newly established “International Cyprus Cartoon Museum.” 

10 – All prize winner submissions and selected works by the Steering Committee will be published in a album. In addition, the 20th Olive Festival will be exhibited in 2021. 

11 – The results of the contest will be published thru media and prizing winning entrants will be informed by contact information provided. 

12 – The transportation and accommodation expenses of the winners of the Grand Prize and First Prize will be covered by Kyrenia Municipality. The prize – winning cartoonist must respond to the prize ceremony invitation within 10 days. The responses outside of 10 days are not considered. 

13 – The Kyrenia Municipality and Cypriot – Turkish Cartoonist Association will have the publishing rights to exhibition, publish or print, in any media or format, any or all submissions.

14 – All persons entering the contest agree that the rules of the contest as set out in these terms and conditions are binding on them. And all submissions could be published and printed by the Kyrenia Municipality and Cypriot – Turkish Cartoonist Association as set out in these terms and conditions without any future compensation. 

PRIZES: 

Grand Prize: 1.500 Euro + Golden Olive Statue + Diploma. 

OLIVE THEME

First Prize: 750 Euro + Golden Olive Statue + Kyrenia Municipality Prize (Diploma)

Second Prize: Silver Olive Statue + Cyprus Turkish Cartoonists Association Prize (Diploma)

Third Prize: Bronze Olive Statue + Olive Festival Prize (Diploma).

50 Finalist Prize.

FREE THEME 

First Prize: 750 Euro + Golden Olive Statue + Kyrenia Mayor Special Prize (Diploma).

Second Prize: Silver Olive Statue + Olive Humor Festival Prize (Diploma).

Third Prize: Bronze Olive Statue + Ramiz Gokce Special Prize (Diploma).

50 Finalist Prize.

DEADLINE: June 30, 2021

SUBMISSION ADDRESS:

Kıbrıs Türk Karikatürcüler Derneği

10. Uluslararası Karikatür Yarışması

Posta Kutusu: 87 (Post Code: 99000)

Lefkoşa – Kuzey Kıbrıs (Via Turkey)

WEB PAGE:

http://www.zeytinkarikaturleri.com


«Carlos Botelho, um Eco de Lisboa» por Osvaldo Macedo de Sousa na revista «Artes Plásticas» nº 10 Junho 1991

 Houve tempos que Lisboa, como aldeia-mor de um país-província se podia gabar de ser tema predilecto para canções, pintores, humoristas. É certo que de tempos a tempos ainda se cantava o nome de Lisboa, e os pintores para poderem vender, retratavam os recantos ou as formas mais pitorescas. De qualquer modo perdeu-se aquele misticismo da cidade, tal como Stuart Carvalhais ou Carlos Botelho a viveram.

Ao Botelho referem-se sempre como o «pintor de Lisboa», não só pela temática preponderante na sua obra, mas também porque ele se apresentava como pintor – o retratista de Lisboa («sou um pintor de cidades, e retrato-as como retrataria pessoas»), apesar dos seus quadros alfacinhas estarem despovoados dessa fauna poluidora, dos construtores de cimento e detritos…

Só que, nem só de paredes, geometrismos urbanísticos vive o pintor e ele soube também ser retratista da sociedade, através do humor.

O «caricaturista» de Lisboa é também ele, e não é ele. Já o Nogueira da Silva, na década de cinquenta de oitocentos fez excelentes retratos sociais, a par do Manuel de Macedo; Bordalo Pinheiro não deixaria de apresentar a vida de Lisboa, através do cartoons políticos. Lisboa, no século XX teve já um Jorge Barradas e um Bernardo Marques a humorizar a sociedade cosmopolita, assim como um Stuart Carvalhais. Este, será talvez o titular mais certo para o epiteto de «Caricaturista de Lisboa», ao imortalizar as pernas das varinas, os garotos, os gatos, as escadinhas e vielas da cidade velha, os ardinas, os Zés alfacinhas… Assim, Carlos Botelho foi também um caricaturista de Lisboa, não como o traço lírico Stuartiano do povo, nem um arabesco modernista de uma sociedade pseudo-modernista de um Barradas ou Marques, mas como o cronista, um eco do quotidiano feito grafismo, num discurso possível na «não história oficial».

Creio que não é necessário apresentar o pintor/humorista Carlos Botelho, nascido em 1899 em Lisboa e falecido na mesma localidade em 1982. Se a pintura foi o género que melhor o projectou no panteão nacional das artes, não menor importância teve o seu lado humorístico, como fonte enriquecedora da visão gráfica e estética da cidade, do estilo modernista. No âmbito pessoal e criativo, também seria importante a sua faceta musical. Violinista amador, conquistava a harmonia e melodia interior, nos serões do seu quarteto de cordas semanais. São todas estas vertentes que enriquecem o homem-artista, o homem que sobrevive sempre sob o peso das tintas e das telas.

Como já referi, o lado humorístico foi importante para o homem-artista, foi importante para as artes nacionais. Como começou esta aventura? «Quem me recebeu foi o Pedro Bordalo, administrador, que era um homem muito atencioso. Eu levava uma folha com desenhos de crítica à vida de Lisboa. Ele viu, viu com atenção e só me perguntou assim: você é capaz de fazer esta coisa todas as semanas? – Respondo que sim. Fiquei vinte e dois anos no Fixe» (de Maio de 1928 até Dezembro de 1950, ou seja cerca de 8.000 pranchas de desenhos).

Assim nasceu um humorista, em 1928, num jornal que marcaria uma época com uma geração nova de humoristas, a geração do «Sempre Fixe» (a par com a velha geração), na qual o Carlos Botelho é um dos mais destacados representantes. A sua arte de humor era um pouco diferente da dos seus companheiros, já que estes a procuravam fundamentalmente pelo traço caricatural, ou pelo lado da crítica política, enquanto ele traduzia em grafismo linear as atmosferas, a vivência.

«A pessoa interessa-me no humorismo, no portrait-síntese porque aí sou livre. Pela caricatura nunca tive grande interesse. A caricatura é a anedota e não podemos passar o dia a contar anedotas. Com o humorista é diferente: é a crítica a factos, a situações /…/. De resto, está perfeitamente integrado na minha maneira de ser, porque me interesso sobretudo pelos ambientes: na pintura procuro traduzir os ambientes das grandes cidades ou de populações; no humorismo é ainda o ambiente que me interessa – a crítica à sociedade».

A sociedade era o tema da sua página de «Ecos da Semana» no «Sempre Fixe», onde «fazia um apanhado do que se passava no país, com especial interesse por Lisboa». Uma página onde o desenho não aparecia como interesse informal (apesar deste existir como criação gráfica), mas suporte, como «armação linear». A ironia reinava em crítica a uma sociedade que desejava ser mundana, quando era provinciana, que desejava ser política, quando tinha que ser apolítica, que desejava ser aberta, quando a censura reprimia.

Nos «Ecos» ficaram registadas as presenças de músicos famosos, políticos, desportistas, gente anonima… assim como ficções simbólicas dessa mesma sociedade rica em tipicismos castiços, provincianismos e más educações. Esses personagens da «Comédia dell’arte» alfacinha foram:

- «Piu» (que deveria ser, nem pio! Ou silêncio!) - «o mocho que ocupava por vezes o espaço dos desenhos censurados», ou aquilo que o artista gostaria de dizer e só mencionava entre linhas. Dessa forma, Botelho criava uma simbologia crítica à falta de liberdade de imprensa, um símbolo da inteligência que se opunha ao obscurantismo, que significava a castração das ideias. Foi criado a 2 de Julho de 1930;

- «Sr. Parecemal» - a crítica ao falso moralismo, tipificado no individuo de botas de elástico (tal como os Dantas – Salazar), sobrecasaca e gravata, como fachada civilizadora, que caracteriza os subservientes do Estado Novo. Foi criado em 16 de Julho de 1931;

- «Escarra & Cospe» - a Lisboa porca, onde a salubridade é posta em causa numa sociedade dita civilizada. Quem o personifica é o marialva, o fadista que não dispensa as tradições de má educação. Foi criado a 1 de Novembro de 1934;

- «D. Encrenca» - a senhora bojuda, que só complica a vida, representando o espírito intriguista do nosso povo, em especial da mulher pequena burguesa citadina. Foi criada a 6 de Junho de 1935;

- «Arrepiadas» - «inspirada nos penteados das senhoras refugiadas, que não tinham dinheiro para ir ao cabeleireiro e criaram uma moda de penteado: arrepiado». É a critica às novas modas, de uma sociedade sem capacidade económica de acompanhar os modernismos. Essa personagem passaria depois a chamar-se «D. Pôpada», pelo seu penteado com popa, o que também quer dizer entre linhas poupada. Foi criada a 19 de Setembro de 1940.

Estes anti-herois anónimos, mas universalizantes cohabitam com os possíveis intervenientes deste registo para-histórico. Era difícil fazer comentários à política nacional, principalmente com o correr dos anos e endurecimento da ditadura. O mesmo aconteceu com a política internacional, onde ainda se deslumbra umas críticas a Mussolini ou ao Hitler, mas onde não se vê  o registo da Guerra Civil de Espanha ou do fim da II Grande Guerra.

Sofreu muitas vezes com a censura, que retalhava uma prancha, que proibia a página inteira, obrigando-o a remendos de última hora e a uma constante auto-censura inicial, para não ter problemas posteriores. Ou seja, uma vida normal do jornalista de então.

Carlos Botelho, um «eco» humorístico da sociedade alfacinha e nacional, a não esquecer.


Friday, April 02, 2021

Caricaturas Crónicas / Visões do Mundo -«Brito – o humor além-fronteiras» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 23/6/1991

«Dar o salto» foi a opção de muitos portugueses, para não violarem ideais políticos, sociais ou económicos. Eram indivíduos de diversos estratos sociais e profissionais (inclusive humoristas) que clandestinamente procuravam a sobrevivência física e mental além-fronteiras, durante a ditadura salazarista.

Carlos Ferreira do Amaral, mais conhecido como Brito ou Carlos Brito, quando «deu o salto», em 1963 (por motivos político-militares, ou seja deserção para não ir para a guerra colonial) ainda não pensava dedicar-se ao cartoonismo. Natural de Lisboa (1943), a sua «construção artística começou nas paredes do quintal, passou pelos cadernos da escola e acabou nos jornais que se compram, leem e deitam fora…» Com 14 anos começou a trabalhar num banco, fazendo estudos comerciais de noite. Em França, passou pelas mais diversas profissões, de operário a empregado de escritório, secretário, agente comercial, criativo gráfico, sociólogo (estudou na Sorbonne Literatura e Civilização Francesa e Sociologia).

Sem nunca trabalhar com mestres, foi nos tempos de ócio que o seu lápis se foi preparando para mais uma experiência, a artística: «Lutei sozinho para não copiar os desenhadores que preferia. O que me levou muito tempo até me sentir capaz de enfrentar um Chefe de Redacção. Os primeiros desenhos que publiquei, por volta de 1970, não me foram pagos, para além do prazer de os ver impressos. Saíram em publicações militantes, como «Rouge», «Politique Aujourd’hui», «Politique Hebdo», «Fronteira» (jornal da LUAR em Paris), a «República» (antes de 1974)… Nessa altura assinava Carlos ou Amaral. Também assinei Carlos Brito em 1974/75 quando colaborei na «República», no «Diário de Lisboa», «O Diário», «Pé de Cabra», «Sempre Fixe». Em 1973e de 1976 a 79 colaborei em «La Gueule Ouverte», «Ecologie», «Le Sauvage», «L’Unité», «Temoignage Chrétien», assinando Carlos».

«Em 1976 colaborei em «Perspective» e «Le Jour» em Montreal, onde estive algum tempo aquando de uma longa viagem pelas américas. Mas só comecei a trabalhar exclusivamente como cartoonista em 1980, ano em que obtive a carteira de jornalista. Colaborava então em «La Vie Ouvriére», «Les Nouvelles Littéraires», «Diário de Lisboa» (até ao seu ultimo suspiro), «Politis», «J’Acuse». Actualmente, colaboro em «Le Canard Enchainé», «Le Monde», «Croissance», «Ouvertures», «La Vie Ouvriére» e «Finisterra»».

O Brito actual «nasceu» por volta de 1984, quando começou a colaborar em «Le Monde». «Para mim, o cartoon-humor é o comentário político-cultural do mundo em que vivemos. Pode ser ilustração de um artigo e, nesse caso, procuro ir além do que está escrito, propondo a minha interpretação do acontecimento ou da análise que é feita. E pode ser desenho editorial, isto é, comentário da cactualidade independente dos artigos impressos à volta. Creio que o impacto jornalístico do cartoon é bastante forte, porque o discurso implícito da imagem ataca directamente os sentidos, os sentimentos e a capacidade de pensar de cada um… como um murro no estomago e, simultaneamente, na cabeça. Dando lugar a um esgar que se poderá chamar sorriso».

«Não sei o que se passa em Portugal, mas em França o desenho desempenha um papel cada vez mais importante na vida da imprensa. Todos os jornais e revistas, até regionais, publicam cartoons, começando agora a descobrir a importância desta forma de expressão jornalística. É de dar um lugar de destaque a «Le Canard Enchainé», semanário satírico velho de 75 anos (e onde colaboro há uns três anos), que publica uma média de 30 desenhos por semana».

Brito, Carlos Amaral, é uma presença muito importante no meio humorístico francês que nos orgulha, pela sua ironia e traço caligráfico, como continuador da herança de um Leal da Câmara, em terras francas.


Wednesday, March 31, 2021

26th International cartoon exhibition Zagreb 2021

 


 A. PARTICIPATION  - The organizer of the 26th International cartoon exhibition ZAGREB 2021 is the Croatian Cartoonist Association. The festival is opened for everyone regardless of nationality, sex, or profession, over 18 years of age.

B. THEME: COMIC STRIP, COMIC BOOK (comic book heroes and their authors in caricature) 

Many cartoonists have tried their hand at comics and vice versa, so we invite you all to express through caricature and humor yet another way of experiencing the ninth art, the famous comic book heroes (Superman, Spiderman, Corto Maltese, Alan Ford, Martin Mystery, Batman, Asterix, Snoopy, Lucky Luke, Zagor, Prince Valiant...) and the painstaking process but also the pleasure of its creation.

C. ENTRIES - Conditions of entry: 

1. Original works and digital artworks will be accepted. Digital artwork is to be numbered in pencil on the front and pencil signed. In addition to the original works, works in electronic form, A4 size, 300 dpi, jpeg are also acceptable. 

2. Entries can be either black and white or coloured.

3. There should be the name, the surname and the adress on the reverse side of cartoons.

4. The cartoons must not have been previously awarded on festivals.

5. Maximum 3 entries will be submitted.

6. Size of entries is A4 or A3 format. 

D. DEADLINE  - Entry deadline is the 20th of May 2021.

E. ADDRESS - Send your cartoons to:  CROATIAN CARTOONIST ASSOCIATION  (HRVATSKO DRUŠTVO KARIKATURISTA), SAVSKA CESTA 100, 10000 ZAGREB, CROATIA

Or E-mail: hrvdrukar@gmail.com (Format: JPEG; Size: A4; Resolution: 200 dpi-300 dpi). Maximum 3MB for a digital work.  Name of digital work: name.surname.country.number (if the autor is submitting more than one work)

F. PRIZES AND AWARDS - First Prize - 1.000 EUR, Second Prize - 500 EUR, Third Prize - 300 EUR ,m Five Special mentions

G. EXHIBITION - The exhibition will take place in Gallery Klovićevi dvori in Zagreb.

H. OTHER CONDITIONS  - Authors of works that qualify to the exhibition are given a presentation copy of the exhibition cataloque. Only on explicit request will remaining (original) works be returned to the owners.

The organizer reserves the right to reproduce the works sent to the festival, Zagreb 2021, as the advertising material without being obliged to pay a fee to an author whose work may be used.

The prize-winning works become property of the organizer.

ENTRY FORM  Click the above link to download the entry form.


«Pedro Palma, a exposição esperada» por Osvaldo Macedo de Sousa na revista «Artes Plásticas» nº8 Fevereiro 1991

No princípio era a verruga, só depois viria o verbo. Pelo verbo, pode o ponto evoluir em traço, confrontando a realidade, como que na busca da alma de todos nós.

Das trevas saem todos os pesadelos políticos e só a magia do humor exorciza o verbo, dá poder à linha que segue as sombras das figuras, ora alongando, ora espartilhando, vincando nas linhas humanas o próprio riso.

A realidade actual anda pouco propícia ao riso, mas só pelo humor se consegue viver a vida com optimismo, esperança e sentido crítico. O sentido crítico é uma das características intrínsecas do ser humano, assim como o riso e o humor. Também só o homem é capaz de realizar a caricatura, a sátira gráfica… Mas, nem todos os homens são portadores desse síndroma criativo («o artista é como o diabético, tem humor, mas não sabe como o apanhou»). Se encontramos pintores, escultores, arquitectos… em profusão a sair da escola, nem sempre se descobre um bom humorista, com poder critico, com qualidade estética, com imaginação/criatividade lúdica para conceber o jogo alegórico da crítica.

O momento actual, em Portugal, é de riqueza humorística e caricatural, em variedade estilística e gráfica, em manifestações públicas, salões, publicações… Pedro Palma, neste mês é o artista em destaquem devido às manifestações  públicas que materializa – Uma exposição e um álbum.

João Pedro Palma (Serpa / 1959), veio para Lisboa estudar design gráfico, mas logo caiu nas malhas que a caricatura tece, iniciando-se no «Tempo» a sua profissionalização, em 1979. Em 1983 para para o «Diário de Notícias», colaborando também no «Bisnau». Em 84 vai até Paris, onde colabora no «Le Figaro Magazine» e «Jeune Afrique» (também assistente da direcção artística desta revista). De regresso a Portugal colabora no «DN», «Grande Reportagem» (responsável gráfico da revista), «Expresso», «Europeu», «Diário de Lisboa», «Primeiro de Janeiro» e «Exame».

Será o primeiro caricaturista português a ser distribuído por uma agência noticiosa nacional (Lusa), em 1988 lança para o mercado internacional a colecção «Faces of the World» e em 1990 assina contrato com a «Cartoonists & Writers Syndicate» de New York.

Participante em diversos Festivais Internacionais, em 1989 foi galardoado pelo Salão Nacional de Caricatura (Porto de Mós) com o Grande Prémio do Salão Livre.

Apesar de em 1986 ter dito aos jornalistas «não me falem em fazer uma exposição individual. Morro de medo só de pensar nisso», nunca se deve dizer deste humor nunca rirei, pois aí está ele com uma exposição no Hotel Meridien (Lisboa de 18/2 a 4/3, Porto de 24/3 a 6/4) a comemorar quase doze anos de trabalho.

Não é uma exposição antológica, porque tem o péssimo hábito de rasgar os otiginais («uma vez, num dia só, rasguei oitenta originais. Dos quase cinco mil que desenhei, devo ter para aío uns quinhentos. Só guardo aqueles de que gosto mesmo») mas uma galeria das figuras mais importantes da actualidade nacional e internacional, uma visita aos acontecimentos que chamaram a atenção do cartoonista. Em lugar de destaque, e com direito a edição de serigrafia (já que nunca vende os seus trabalhos), será a caricatura do Dr. Mário Soares, a figura nacional mais conhecida no país e estrangeiro. Com edição de um álbum, Pedro Palma mostra o máximo da sua arte.

OMS – Apesar daquele medo na realização de uma exposição e edição de um álbum, como aconteceu esta viragem?

Pedro Palma – «Isto começou por uma brincadeira, numa entrevista na televisão. As pessoas que me rodearam, interessaram-se de tal maneira do projecto, que exigiram que no final destes quase doze anos de trabalho mostrasse as coisas que tenho, e que não são muitas… e desde o princípio que tudo correu bem. Surgiu a ideia de publicar a serigrafia do Dr. Mário Soares, este mostrou interesse em inaugurar; o Banco Comercial Português, a «Exame» e o «Expresso» prontamente patrocinaram o evento… Desculpando-me pela imodéstia, nunca o cartoon teve uma realização com esta envergadura e prestigio, portanto não podia recusar».

OMS – Como surgiu a ideia da serigrafia do Dr. Mário Soares?

Pedro Palma - «Porque é a minha obra com maior componente artística. Uma caricatura normal dá vontade de rir e se fizesse uma serigarfia de qualquer outra caricatura já não funcionava com o mesmo impacto, era mais aquilo que normalmente costumam chamar o “boneco”. Esta tem o olhar mais directo, expressivo… Assim surgiu o Dr. Mário Soares quase como o ex-libris desta exposição e daí o convite para ser ele a inaugurar. Por causa das eleições, tivemos que adiar um pouco a exposição, para que não confundissem esta mostra com campanhas políticas, ou oportunismo da minha parte. Mesmo que não tivesse sido reeleito para Presidente da República, o Dr. Mário Soares era a figura que iria inaugurar a exposição».

OMS – Esta caricatura contradiz um pouco a tua linha geral de híper-realismo, optando pela síntese.

Pedro Palma – «Não te esqueças que é um trabalho de 1985, de uma fase experimental, quando conjugava a pintura, o cartoon… tinha gozo e necessidade de procurar técnicas, estilos. Hoje, não só não tenho tempo, como já optei por um estilo mais definido».

OMS – Foi essa indefinição que te fez recusar os trabalhos dessa fase e destrui-los, como que envergonhado?

Pedro Palma - «Não tenho vergonha de nenhum dos meus desenhos, sou pai deles, só que não me identifico com muitos deles, o que é diferente. Desenhos do passado, já não tem nada a ver comigo, e isso é bom porque quer dizer que evolui e estou sempre em evolução.

Até cerca de 1985 já não tenho nada, rasguei. À medida que se vai evoluindo o que fica para trás não me satisfaz já. Cada artista só tem uma obra-prima e a próxima anula a primeira. A minha, neste momento é a do Dr. Mário Soares no âmbito da caricatura, enquanto no cartoon creio que ainda não o consegui. Eu sinto a evolução constante e isso leva-me a fazer sempre melhor.

Destrui aquilo que considero os «bonecos», aqueles que não servem para mais nada, para além de serem publicados naquele momento. Os trabalhos que valem mais do que isso, os originais que vivem para além da impressão, guardo-os. Quantas vezes, publico desenhos que não assino, pois o desenho não tem a dignidade de ser assinado, mas são uma obrigação profissional com o jornal».

OMS – O caricaturista, ou cartoonista que componentes necessita ter para o seu trabalho?

Pedro Palma – «Tem que ser um artista plástico, tem que forçosamente ser jornalista, escrever, dominar as técnicas das artes gráficas. Eu mudo de técnicas por vezes por causa disso. Se uma impressão altera aquilo que faço, a seguir, com receio que volte a acontecer, mudio de técnica. Por exemplo, agora no meu trabalho nota-se maior diversidade nas técnicas da cor, porque procuro, segundo as impressões, a técnica que resulta melhor… só que tudo isso também depende de quem imprime, porque tanto pode valorizar, como destruir uma obra».

OMS – Por vezes não te acusam de ter um estilo mais parecido com este ou aquele artista estrangeiro?

Pedro Palma – «Sempre admirei o David Levine, mas nunca o tentei imitar. Há desenhos meus que podem ter alguma semelhança, mas as concepções são diferentes, ele tem um traço mais incerto, quanto eu sou mais “limpo” no traço. A maior parte das semelhanças entre cartoonistas é devida à técnica que se utiliza, a pena de pato, caneta de tinta da china, pincel… tudo isto dá Aspectos diferentes aos trabalhos, e a técnica que eu uso, por exemplo, é a mesma do Luri, que é o “radiograph”, a caneta de desenho técnico que dá um risco muito certinho. Assim todos os que uso o “radiograph” têm uma semelhança técnica, o que não quer dizer de estilo».

OMS – Sabendo quão barato são os desenhos que os americanos vendem, por vezes ao preço do selo de envio, como encaras a sobrevivência do artista português nesta concorrência desleal?

Pedro Palma – Os jornais portugueses, felizmente que chegaram à conclusão que um jornal para ter prestigio precisa de ter pelo menos um cartoonista próprio. Pode publicar uma coisa ou outra vinda do exterior, como complemento, mas ter um cartoonista dá-lhe prestigio, tanto mais que os cartoons importados têm sempre uma décalage com o que se passa no momento, são um tanto atemporais, já foram vistos e publicados em dezenas de outros jornais. Assim, os grandes têm um ou mais cartoonistas (o Sydney Morning Herold tem vinte e cinco), com opinião própria, em cima do acontecimento. Quem tem, fica em vantagem sobre o outro que não o tenha».

Pedro Palma, uma exposição que se esperava á algum tempo, assim como a oportunidade de adquiri uma obra sua, mais não seja uma serigrafia. Uma exposição a ver e rever.


Tuesday, March 30, 2021

«Fred Kradolfer, a inovação Gráfica no Modernismo» por Osvaldo Macedo de Sousa in revista «Artes Plásticas» nº3 Setembro 1990

Objectividade e subjectividade, a luta diáfana do historiador, a opção estética do artista. A História são factos, datas, mas também pode ser interpretação desses factos; pode ser a recriação desses momentos passados. Quantas vezes a história é mais importante na sua mitificação, na sua efabulação do que na sua realidade crua.

Lugar mítico da nossa história, é o Chiado, a Brasileira, o Martinho, a Bertrand, a Leitaria Garreth… e à sua volta a história desenvolveu-se num anedotário fabuloso e efabulado de tertúlias culturais, modas, vivências. Ali se conversaram projectos importantes, nasceram inspirações, se conspiraram obras que nunca chegaram a existir.

Lugar mítico da nossa história, é a década de dez, com as suas deambulações modernistas e futuristas: são as décadas de vinte / trinta com a segunda geração modernista. Com a luta pela política do «bom gosto».

Se a realidade era uma «difícil» sobrevivência de artistas (não é sempre?), a inglória luta por uma vanguarda que não conseguia impor no gosto nacional as estéticas do novo século; a história mítica é a realização de obras-primas das nossas artes plásticas, é a concretização (a possível) de uma revolução do gosto.

A opção estética do artista pode encarar a fixação nua da imagem, ou da sua interpretação. Pode ser a inspiração em conceitos filosóficos objectivos, ou a subjectividade feita estética. Pode ser a subjectividade filosófica ou a subjectividade plástica numa comunicação concreta e dirigida. O artista gráfico é um pouco disto tudo, ou seja, a união da objectividade com a subjectividade, a imagem real com a interpretação, e estética filosófica e os compromissos concretos de comunicação.

Dentro das artes gráficas, a publicidade é a arte que mais corta as liberdades subjectivas e até à década de vinte não havia criativos publicitários, mas um ou outro artista que realizava esporadicamente trabalhos neste campo, para sobreviver. Como fórmula sistemática de trabalho, de estratégia de comunicação conceptual segundo o produto / público-alvo, só se vai realizar verdadeiramente após a chegada a Portugal de um jovem mestre suíço.

Poderá talvez ser um exagero, e uma injustiça para os artistas que até este momento fizeram publicidade, poderá ser uma mitificação?

Fred Kradolfer (segundo apontamentos biográficos dados pelo artista ao Arquitecto Jorge Segurado em 1967), nasceu a 12 de Julho de 1903 em Zurique, filho de Henri Kradolfer e Helene Bietenholz. Após os estudos primários e secundários, fez o curso da Escola de artes Aplicadas de Zurique (ourivesaria e cinzelagem). Em Berlim faria o curso de Artes Gráficas na Escola de Belas Artes, e frequentaria a Academia de Munique.

Em 1922 está em Paris a decorar montras («Inovation»), passando posteriormente por Roterdão , em 1923 está em Bruxelas como pintor de automóveis (da Ford). Aqui conhecer o fotógrafo português Serra Ribeiro Pai, para o qual trabalhava à noite, como retocador.

Agora, as histórias variam. Instigado por este fotógrafo, influenciado por um amigo português que conheceu em Paris… o que se sabe é que em 1924 as suas deambulações pela Europa trazem-no a Portugal.

O que é que o atraiu neste país distante dos centros de irradiação artística, sem perpectivas para quem quisesse «conquistar» o futuro? O jovem que aos 16 anos sai de casa à procura de novos caminhos para a sua arte, em vez de prosseguir em busca de mestres, vem com apenas 21 anos, instalar-se como mestre dos mestres deste pequeno país: «Esse estrangeiro, mais novo que Bernardo Marques, quatro anos – escreve Selles Paes em 1966, in “Renovação” – mas sem mestre foi, em verdade, não só o grande renovador mas o grande professor de quantos, nas decorações e nas artes gráficas, andavam aqui a querer gatinhar»,

Como convém em Portugal, a chegada nevoeirenta de um mestre está envolta de um certo misticismo boémio. Ele próprio dizia que tinha imigrado para Portugal antes de nascer, porque o primeiro a imigrar para Portugal tinha sido o seu avô, muito antes dele nascer. Depois, há a tal história de vir a pé desde a fronteira.

Carlos Botelho narra-nos essa vicissitude, em 1968 (in «PubliClube»): «lembro-me dele. Um dia, me segredar que tivera a ideia de emigrar e de ir caçar leões para o Oriente, como bom descendente, que era, de Guilherme Tell. Afinal trocou o Oriente pelo Ocidente /…/ assim, decidiu-se a vir por aí abaixo, mas pensando que Lisboa ficava a dois passos da fronteira de Espanha, tirou só bilhete para Vilar Formoso e o resto do caminho fê-lo a pé. /…/ Depois veio todo o caminho (como o dinheiro não era muito), a comer uvas com pão e a dormir onde calhava. Mas chegou!»

Em Lisboa era fácil encontrar o meio artístico, bastava aproximar-se do Chiado, e aí conheceu de imediato Bernardo Marques e José Miguéis (escritor). A seguir foi apresentado aos arquitectos Jorge Segurado e Carlos Ramos, os quais o ajudaram, dando-lhe trabalho no atelier (criou uma técnica de gauchar os trabalhos de perspectiva).

Esta não era porém a sua verdadeira profissão (ou o que ele mais gostava de fazer), e o primeiro trabalho gráfico foi para a Casa Domingos Lavadinho (caixas para envelopes com um cravo, que é ainda hoje a mascote da casa), seguindo-se a Bertrand Irmãos, a Companhia da Costa do Sol (a primeira publicidade internacional da Costa do Sol, é dele)…

Em 1927 fica estabelecida definitivamente a sua radicação em Portugal, ao conseguir um contrato de trabalho no Instituto Pasteur de Lisboa, onde, como refere Tom - Thomás de Mello, Fred realizou obras «dignas de uma antologia, mas o desleixo que os fez desaparecer torna impossível essa divulgação – felizes daqueles que tiveram o prazer de os ver».

Fred Kradolfer chegou e não teve dificuldade em encontrar trabalho, porque como refere o mesmo Tom (na altura também recém imigrado do Brasil), «existia uma grande necessidade de produção, por isso havia trabalho para todos nos anos 20/30/40. A falta de dinheiro de certos artistas era snobismo de genialidade».

Se havia trabalho (nas ditas artes menores), não havia organização, nem directrizes estéticas, visto o que dominava era o academismo bolorento dos Dantas desta terra, ou o conhecimento de uma certa vanguarda através de breves visitas ao estrangeiro, através das más reproduções absorvidas nas revistas estrangeiras. Não havia uma cultura (educacional) suficiente para compreender (teoricamente e experimentalmente) as novas estéticas, apenas uma intuição, um sentir os novos ventos do século.

Este sentir registou-se nas ilustrações das capas de revistas da moda, nas decorações dos Clubes, cafés (e posteriormente das montras de lojas) onde reinavam o Bernardo Marques, o José Pacheco, o Jorge Barradas… que navegavam num modernismo cezaniano ou expressionista. Esse sentir, viria a reflectir-se na publicidade.

Fred Kradolfer, apesar de ainda jovem e sem grande experiencia profissional, trazia uma formação académica forte, enriquecida por várias fontes de ensino, que lhe dava o domínio total das técnicas gráficas e a perspectiva estética adequada a cada ocasião, prevalecendo o purismo formal bauhausiano, de rigor geométrico. Ele traria a consciência de síntese na comunicação gráfica, deixando de valorizar o anedótico, a saturação de informação, como acontecia até então. A publicidade deixa de ser um «relatório», para se transformar num diálogo imediato e estético.

Assim, a sua acção, aliada à criatividade do atelier «Arta» (a primeira agência de publicidade gráfica do país), vai transformar as artes gráficas, vai fomentar as artes da publicidade, vai criar uma «escola moderna de Artes Gráficas», influenciando artistas consagrados, instruindo jovens artistas.

No campo da publicidade ficaram como marcos da arte portuguesa, não só os cartazes, como rótulos, «Stands» comerciais, ou maquetes de projectos publicitários que, infelizmente se perderam, ficando apenas a admiração dos seus confrades pelas qualidades técnicas excepcionais, pelo gosto estético na resolução dos problemas levantados pela mensagem comercial a transmitir. «Era um artista espantoso – afirmou-me Jorge Segurado – com uma mão e uma cabeça extraordinária, um criador, uma facilidade de pôr as coisas em equação e resolvê-los».

Mas o seu trabalho não se limitou à publicidade, aliando-se à política desenvolvida por António Ferro (uma estética modernista, no meio de políticos anti-estetas ou conservadores), da «política de espírito», das campanhas do «bom gosto», das promoções turísticas, das potencialidades nacionais.

Este trabalho (vanguardista numa sociedade conservadora e retrograda) foi desenvolvido pelo grupo criado por António Ferro, institucionalizado depois de responder aos trabalhos internacionais requisitados pelo regime. Thomás de Mello descreve-nos esta constituição do grupo. «Ferro nunca protegeu directamente o Fred. Ele adorava o Bernardo Marques e após a vergonha da Exposição Colonial de Paris (1931), chamou-o para a criação de uma equipe. Bernardo era primo de José Rocha e chamou-o, este trouxe-me para o grupo. Eu e o Bernardo adorávamos e necessitávamos do Fred, chamámo-lo. O Emmérico Nunes foi imposto e o Carlos Botelho entrou por amizade. Assim se formou o grupo que teve relevo especial nas Exposições Internacionais de Paris (1937), de Nova Iorque (1939) e de São Francisco (1938). As melhores obras do Fred são as do “Mundo Português” (1940)».

Esta década de trinta foi o auge da sua carreira em Portugal, não por uma maior qualidade estética, que manteve sempre no seu trabalho gráfico, mas pela quantidade de encomendas. Após este hiato de prosperidade e ousadia estética, a «política de espírito» caiu em desgraça, assim como o seu fomentador, António Ferro, desvanecendo-se o apoio estatal aos artistas. A cultura vanguardista, como consequência, foi-se esvaindo, levantando graves problemas de sobrevivência aqueles.

Fred, para além das crescentes dificuldades de trabalho, suportou outras contrariedades conjugais, já que os seus dois casamentos se afundaram em alcoolismo. Como consequência, foi-se também degradando a qualidade das suas obras.

O que ficou destas décadas de trabalho, foram magníficas ilustrações e capas de livros para editoras como Portugália, Ática, Guimarães… sendo também neste campo, o mestre assumido, de uma série de artistas nacionais.

Para sobreviver fez cartões de tapeçarias, fez guaches, foi pintor de retratos e paisagens. Apesar de um trabalho vigoroso e personalizado, de um domínio da paleta com gosto e simplicidade, estes trabalhos nunca atingiram a genialidade da sua obra gráfica.

Fred Kradolfer foi um inovador, um mestre da modernidade das nossas artes gráficas, hoje um tanto ao quanto esquecido e morreu apenas há pouco mais de vinte anos. Fred Kradolfer morreu em Lisboa, a 16 de Junho de 1968.


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