Saturday, January 09, 2021
Caricaturas Crónicas: «Carlos Zíngaro – um humor ausente» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 17/1/1988
Desenhador
por facilidade criativa, é humorista por necessidade satírica para se defender
de uma grande quantidade de coisas a que se convencionou chamar vida, rindo-se
delas à sua maneira.
É tradição sentenciar que «dos fracos não reza a história», o que não é verdade, pois é dessa
massa que se fazem os heróis. No mesmo sentido de pensamento se poderá dizer
que dos ausentes se esquece o público, os críticos, a História, mas também esta
filosofia pode ser contrariada quando os valores que se levantam são superiores
aos jogos mesquinhos do poder.
Quem anda ausente, apesar de já pertencer à história
da arte gráfica humorística, é Carlos Corujo “Zíngaro”, um artista com raras
oportunidades de mostrar o seu trabalho, um artista possuidor de um dos traços
mais interessantes e originais do humor actual.
Conhecido internacionalmente como um dos maiores
músicos mundiais no campo da música improvisada, da eletrónica, da… «É uma “música viva” contemporânea, uma
música que tem influências diversas, pois a maior parte da minha vida estudei
música clássica, passei pelo rock e pelo jazz. Lá fora chama-se “música Nova”,
“quarta vaga”, há “N” títulos».
«Eu continuo
a chamar-lhe “musica viva”, actual, que tem elementos concretos e uma
perspectiva também muito concreta de uma vivência de coisas do passado, mas que
se preocupa com as novas tecnologias, com coisas que estão para a frente. Não
lhe chamo de vanguarda, porque não gosto de estar na “crista da onda”».
Dividido entre a música (violinista / compositor) e as
artes gráficas, Carlos Corujo teve que optar fundamentalmente pela primeira,
porque «quando comecei a perspectivar a
minha vida profissional, pensei que as artes plásticas seriam a minha forma de
sobrevivência e a música fá-la-ia sem dar concessões. O que se passa é quase o
contrário, faço nas duas coisas quando há um convite, uma requisição. O risco
que assumo no tipo de música que escolhi, dá uma tensão constante, que eu
depois expurgo pelo desenho, é a minha «torre de marfim». Porém, se neste país,
tanto o músico como o desenhador, têm uma sobrevivência difícil, no estrangeiro
o músico é constantemente requisitado».
Mas o que nos interessa aqui é o artista plástico, que
nasceu em 1948, cursou música e cenografia, chegando a exercer funções de
assistente/professor da cadeira de Desenho do Curso de Cenografia do
Conservatório Nacional.
É um autodidacta no desenho, na pintura, da escultura,
tendo como estímulo o seu pai, também ele artista gráfico. Começou em 1968 a
participar em exposições colectivas, a ilustrar livros infantis, capas de
discos e posters vários para teatro e música. As suas ilustrações humorísticas,
assim como a banda desenhada, começam a ser publicadas a partir de 74/75, no “Ivaristo”,
“Visão”, “O Ovo”, periódicos de que foi co-fundador, assim como trabalhou no “Pão
com Manteiga”, “Bisnau”, “Revista São Carlos”, “Gazeta de Artes e Letras”,
“Artes Plásticas”…
Desenhador por facilidade criativa, é «humorista por necessidade satírica, por
necessidade de me defender de uma grande quantidade de coisas a que se
convencionou chamar vida, rindo-se delas à minha maneira, mesmo que o riso seja
às vezes um esgar ou um vómito do nosso interior. Para mim, humor é sair à rua
e ainda conseguir sorrir, razão pela sou inserido no tipo designado como humor
negro.
É obvio que
quando eu era miúdo não tinha estas filosofias, era uma necessidade de
expressão, o prazer de mexer nos lápis e nas tintas, fazer as grande anomalias,
imitar o meu pai ou todos os bonecos que eu via».
A sua obra adolescente parte das influências
psicadélicas da época, para se desenvolver num traço um tanto
«barroco-futurista», que agora se vai sintetizando, integrado nas correntes da
vanguarda internacional da BD e do cartoon. Não sendo indiferentes às correntes
estéticas que vive no seu constante viajar pelo mundo, é contudo a expressão de
um mundo individual, uma visão incisiva e mordaz, inconfundível, que o destaca
entre os artistas contemporâneos. Entre os vários “tiques”
gráfico-humorísticos, verifica-se a robotização dos indivíduos ou a sua
animalização, porque, mesmo «vivendo numa
civilização tão grande, tão civilizada, no fundo, nas coisas mais importantes,
reagimos como bichos».
Este grande artista, apesar (ou por causa) das suas
qualidades estéticas e humorísticas, é um ausente dos periódicos, do contacto
com o público, e se em parte há uma certa culpa dele, ao consentir que isso
aconteça, também o é dos responsáveis pelas publicações insensíveis á
qualidade, á necessidade de dar humor a um público leitor que se leva muito a
sério na sua miséria de povo saudoso e brejeiro.
Caricaturas Crónicas: PENÚRIAS por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 2/11/1987
Quando
as mentes dos governantes não têm a tranquilidade dos homens honestos e
honrados, quando os interesses da nação são apenas os de alguns, c não querem
ser incomodados pela ralé que clama pelo seu, optam então pela censura, como se
só por isso fosse possível calar as mentes livres dos outros, fosse possível
matar a fome de justiça e verdade.
Para
os que trabalham na Comunicação Social, a censura, sendo um entrave da sua
labuta, não é o seu silêncio. Redobram-se então as canseiras, não vá uma
palavra, assunto, magoar a sensibilidade das mentes estupidificadas dos
censores, não vá algo sair do seu controlo. Isto, claro, para quem não se vende
à comodidade dos vendidos, para quem a informação verdadeira tem mais
importância que a mentira, e, se nada apaga as mentes caladas, também há
fórmulas das palavras caladas, dizerem coisas importantes. E essa a ginástica
que o profissional da escrita e da comunicação tem de fazer, sempre que as
sombras obscuras da ditadura procuram sufocar a luz.
O
humor, como indiscreto meio de dizer coisas alegres e preocupadamente,
naturalmente, sofre também com a tesoura e o lápis azul da censura, e não raras
vezes o «boneco» teve que ser refeito ou a sua legenda mudada. De todos os
temas, é a ironia sobre os governantes e seus actos, a sátira à justiça
praticada, que sofre mais com a proibição e perseguição, desleixando-se como
contrapeso a anedota social, o humor com as pequenas dificuldades da vida, como
é a penúria, a eterna companheira do povo.
A
penúria, em palavras menos bonitas, é a miséria que não é exclusiva das
ditaduras, e já na monarquia o humorista comentava em verso: «O pobre Zé
depenado / tanto pagou o patau / que chegou àquele estado / d'escalado
bacalhau.»
«E se isto vae n'este andar / e se a coisa mais caminha /
há-de acabar por ficar / reduzido a magra espinha.» (J.
M. Pinto, in «Charivari», de 18/2/1899.)
Na
Primeira República, após o falhanço da mudança, interroga-se o caricaturista: «Como será que os pobres é que pagam tudo se
eles não têm nada? --É que os pobres pagam com o melhor dos dinheiros, com a
pele» (Leal da Câmara, in «O Miau» de 4/2/1916.)
Com a
revolução de Maio, a miséria não se alterou, apenas a penúria cresceu para
alguns, e a ditadura tentou escondê-la melhor. O humor censurado teve então
possibilidades, bem controladas, de fazer piada, como ironia dos sofredores,
como humor das consciências ricas: «Grandezas
dos Pobres: - Que estás a comer? - Fava-Rica. - Ainda não perdestes a mania das
grandezas.» (Jorge Barradas, in «Sempre Fixe», de 14/10/1926)
«Quinta-Feira da Espiga - É bom apanhar a espiga neste dia,
porque quem a apanhar terá pão todo o ano. - Sim?! E que ervas havemos de
apanhar para termos bacalhau e batatas?» (Stuart, in «Sempre Fixe»,
de 23/6/1933)
Como
melhor censura, o Governo proíbe a mendicidade, pensando que dessa forma
acabava com a pobreza, que apenas não queria ver, mas que andava à solta pelos
bancos de jardim e demais naturezas: «Onde
moras agora? - Não tenho casa, moro por aí... - Tem graça... sou teu vizinho» (Stuart,
Ín «Sempre Fixe», de 2/4/1942).
Para
que haja pobres, tem que haver ricos, nesse balanço social tão necessário para
o equilíbrio estável, e, se uns «trinca-espinhas», outros «trinca fortes», no
poema épico que é a vida: «As batatas e
os feijões tão desejados / Que este Portugal outrora cultivava, / por sítios já
de nós ignorados / passaram para o rol das coisas raras / e em perigos e
guerras aturados / para as arranjar muito mais caras / certos gananciosos
edificaram / mercado negro, que tanto exploraram!» (Sequeira, in «A Bomba»,
de 2/7/1946.)
Friday, January 08, 2021
Caricaturas Crónicas: «Cândido Costa Pinto um caso de surrealismo» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 20/12/1987
Cândido Costa Pinto foi um homem que conjugou
a terapia do humor com o jogo surrealista dos sonhos; se não na vida, um tanto
ao quanto mística, pelo menos na concretização / expressão estética.
Conjuga-se muita das vezes a terapia do humor com o jogo surrealista dos sonhos, em que ambos são a catarse da vida, que pesa sobre o ser humano. Rir é tão magnífico como sonhar, principalmente quando se realizam ambos os momentos em estado de «acordados».
Cândido Costa Pinto foi um homem conjugador dessa catarse, se não na vida, um tanto ao quanto mística e depois depressiva, pelo menos na concretização / expressão estética. Nascido na Figueira da Foz, a 20 de Maio de 1911, altura em que os Humoristas, em Lisboa, se preparavam para a primeira «campanha» modernista. Passaria depois por Coimbra, antes de seguir para Lisboa, onde, em 1932, fundou o grupo dos «Divergentes» (na oposição à «Presença») em defesa do tal «modernismo» que, apesar de passados vinte anos, ainda não tinha conseguido impor-se como a cartilha dominante.
Oriundo de uma família com tradições nas artes decorativas, desde muito cedo se viu ligado a todos os segredos da técnica e efeitos plásticos, adquirindo grande facilidade de execução e ecletismo.
As artes decorativas eram o género que melhor acompanhavam a vanguarda possível, e foi nesse âmbito de «modernidade», em que a linha é a síntese caligráfica da expressão, que Costa Pinto se integrou no mundo da caricatura.
Explorando a exageração, que seria designada por «biomorfismo», de traço negro, ele criará uma obra impressa no “Sempre Fixe”, “Diário de Lisboa”, “Diário Popular”, “Vida Mundial”… caricaturando as grandes figuras da política internacional. Nesses tempos de censura ditatorial, era esse o campo possível desta arte, sem grande abertura para outros voos risíveis, senão o sonho do pesadelo terminado. Nesse trabalho de humor gráfico encontramos um surrealismo consciente onírico de critica caricatural.
Tal como os outros companheiros de sobrevivência artística, a caricatura era apenas um dos vários ramos de criação, paralelo à actividade de decorador de salões, salas e montras; publicista de cartazes; ilustrador de selos postais; colaborador de jornais na defesa / debate de questões de urbanismo e turismo… Se, de todas as actividades, a de pintor foi a que lhe deu mais nome, certamente não foi a que lhe deu mais dinheiro, já que nesses tempos a pintura ainda era uma arte pouco requisitada perlo colecionadores.
Pintor de grande habilidade técnica, produziu uma obra irregular, em que as melhores experiências o levaram a ser admirado, em 1947, na Exposição Internacional de Super-Realismo, em Paris, e de conquistar o Prémio Amadeu de Souza-Cardoso no Salão dos Modernistas – SNI, em 1951.
Ele surge na pintura em 1942, numa visão de «fuga à realidade», em que o surrealismo de inspiração daliniana lhe traduz uma atitude profunda de visão mística, e em que a poética do sonho se confunde com os pesadelos do mundo, turbos nesses anos quarenta.
Foi provavelmente dos primeiros pintores «surrealistas», numa opção consciente, a trabalhar em Portugal sob aquela visão estilística, porém isso não impediu que na formação do Grupo Surrealista, em 1947, ele fosse impedido de integrar-se no grupo, como banimento da estrutura que queria assumir uma certa oposição ao regime. É que ele havia cooperado com os artistas que expunham regularmente no SNI – Secretariado Nacional de Informação, órgão cultural do Salazarismo na campanha da «Política de Espírito»,. Desenhada por António Ferro (e verdadeiro defensor de uma vanguarda possível). Não só expôs, fez trabalhos, como foi consagrado o seu «apoio» com um prémio de modernidade, já referido anteriormente. Os companheiros do surrealismo (de café - Gelo) não lhe perdoaram as suas posições equívocas.
Passaria posteriormente por uma tendência geometrista, até que, em 1963, partiria para o Brasil na conquista de uma paz económica, abandonando em parte as artes plásticas e onde morreria em 1977.
Caricaturas Crónicas - «O John Bull» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 11/10/1987
Os símbolos nacionais criam-se por necessidades patrióticas, e se o Zé Povinho nasceu como desprezo caricatural por um povo amorfo e sem brio, o John Bull nasceu como orgulho taurino, como «fleuma» nacionalista contra os sonhos imperiais de um Napoleão continental e francês.
Fazer uma referência ao fim-de-semana completo para
descanso, à «fleuma», à pausa das cinco para uma xícara de água quente com um
farrapinho… poderiam ser sugestões suficientes para a invocação do nome de um
povo, de uma cultura, porque verdadeiras ou folclóricas, elas são referências
possíveis, mas turbas, como o é essa infusão de ervas com um farrapinho de
natas.
Cultivado nos orientes, difundido pelos sete mares do
comércio, bebido sob o «smog (por influencia de uma princesa portuguesa), o
chá-infusão serve-se no bule?
Os povos têm nomes, tal como as pessoas na sua
indidualização e Joões existem por todas as partes, mesmo disfarçados de Johns,
assim como há bules, porque chá bebe-se em todo e qualquer sítio. Porém, John
Bull só existe um, transformado em símbolo caricatural de um povo insular,
famoso nos tempos passados pela sua educação espartana e um tanto puritana, que
com a suas etiquetas de «gentleman» e conversa «snob» tem pirateado os cinco
mares, tem conquistado continentes à espadeirada, como exorcismo ao sufoco
insular do seu mundo privado.
Os símbolos nacionais não nascem como cogumelos, criam-se
por necessidades patrióticas, e se o Zé-Povinho nasceu como desprezo
caricatural por um povo amorfo e sem brio, o John Bull nasceu como orgulho
taurino, como «fleuma» nacionalista contra os sonhos imperiais de um Napoleão
continental e francês. Surgiu como «sense of humor» contra o «esprit».
Esse orgulho de raça, desenhado primeiro como um boi
aliado á Britânia, passou posteriormente a ser representado como uma bojuda
personagem, bem alimentado pelas colonias que foi invadindo e conquistando aos
outros, de faces rubras pelo sangue derramado pelos Drakes, e que na sua
soberba de império foi conquistando inimigos.
Portugal e a Inglaterra, diz a História e os
documentos, têm a mais velha aliança do mundo entre nações, contudo várias
vezes essa aliança foi «traída» pelos segundos, e o John Bull considerado como
um dos piores inimigos da nossa soberania e nacionalidade, nomeadamente pelo
zé-povinho, mais atreito a estes sentimentos ressentidos.
Se raramente o John Bull surge na nossa caricatura
como um aliado amigo, na segunda metade do século passado era esta a sua
imagem:
«No seu
aprumo de pessoa fina / o John espanta uma cidade inteira / e anda a cahior de
bêbado, se apanha / de vinho bom, sortida garrafeira.
E d’ouro
tendo os cofres atulhados / pois que do céu parece que lhe cai / para
roubar-lhe a caixa do relógio / John é capaz d’assassinar o seu Pai.
Enfim! Enfim!
É um vicioso e mau! Na city espalha o grito de terror / e o mundo aponta o nome
seu, dizendo / - É John Bull, o Jack, estripador!» (Almeida e Silva in «Charivari» de 22 /2/1890).
Sentindo estripado no orgulho e na aliança, por mor de
um Ultimatum, as simpatias não eram muitas nesse fim de século: «Cathicismo Anglo-Germânico: Obras de Misericórdia
– Tirar a camisa a quem a tiver» (Nogueira,
in «Pontos» de 16/7/1899); pondo, sempre que possível o Zé
de sobreaviso: «A amabilidade Inglesa – O
rapazinho Zé anda mal arranjado, trás uma gravata que é uma indecência. John
Bull, caridoso, dá-lhe uma nova e leva a sua amabilidade até ao ponto de lha
pôr ao pescoço. Mas quando lhe der o nó hão-de ver como ele aperta com força (esganando-o)» (Manuel
Gustavo Bordallo Pinheiro in «António Maria» de 9/7/1892); ou «Caricias de
John Bull – Eis como a Inglaterra nos abraça e nos beija, levando-nos a carne,
a bolsa, e o fato. Abraços de tigre, beijos de Judas. Bandidos!...» (A.Silva in «Charivari» de 25/1/1890).
Deu-se pois, nesses tempos, o confronto entre o Zé
despeitado, e um John Soberbo, mas pleno de «humour» superior, e mesmo
difamado, insultado, querelado, nunca deixou de se instalar com os seus
negócios indústrias e cultura onde mais lhe aprouvesse. Nada bule com o John
Bull, devido ao seu lado «desportivo». Inventor do futebol, desporto-rei da
actualidade, e de outros desportos não menos monárquicos, podemos descortinar
melhor o seu espirito, através desses mesmos: uma multidão atrás de uma pequena
coisa /objectivo vitorioso, num jogo de regras, fáceis de ludibriar, se tiver
arte para isso.
Os tempos passaram, as querelas esqueceram-se, as
colónias perderam-se, as alianças reinstalam-se, e se hoje já não há tanta
«fleuma» nem «smog», o chá continua a ser campeão de costumes, e o John Bull,
um tano antiquado permanece na sua função orgulhosa de símbolo desse povo
inglês.
Thursday, January 07, 2021
Desenho Humorístico – A sátira como opinião (Inquérito) por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de 22/11/1987
O tempo vivencial de uma sociedade, de um povo, é não só regulado pelos segundos, horas ou anos, mas também pelas modas, políticas sociais ou materiais, as quais resultam de necessidades ou desnecessidades, em supérfluo vivencial.
Houve já tempo de humor e desamores, em que o traço caricatural era uma necessidade catártica contra o poder rotativista ou opressor, contra o regime ou a obesidade. Foi num desses regimes prolongados que o povo português foi perdendo o apetite do riso, em que a irreverência e a sátira foram sublimadas pelo leve sorriso de circunstância, ou pela gargalhada do ordinário.
No lugar do humor ficou a ignorância, a passividade, o medo de fazer crítica e susceptibilizar o poder, donde de compreende a actual falta de ousadis humorística, a falta de periódicos da especialidade, e a precariedade da sua existência nos jornais, em tempos de vacas (que não riem) magras.
Hoje, a moda nas Belas Artes é a criação de bienais, que proliferam fundamentalmente na província, como aposta de alguns interesses locais, do que como resposta a uma necessidade cultural declarada das populações.
Este é também o caso do Salão Nacional de Caricatura de Vila Real (de que sou director), que pretende ser anual, e que nasceu sob Patronato de Stuart Carvalhais, o artista vila-realense. Integrado na moda dos salões, inclui-se também na moda dos prémios de jornalismo, consagrando finalmente o único género que ainda não tinha galardões para os seus criadores, os «humoristas-caricaturistas».
Ser «humorista» de jornal, não significa ser um contador de anedotas, um provocador de gargalhadas ou sorrisos, mas um jornalista que utiliza o traço como crónica, a deformação como desmaqueador, a sátira como opinião. Foram estes os profissionais que expuseram as suas obras no Salão Nacional de Caricatura de Vila Real, e a quem pusemos as seguintes questões:
1) Considera-se jornalista, artista plástico ou simples «desenhador de bonecos»?
2) Como encara o desenho humorístico no jornalismo português actual?
3) Que importância atribui ao Salão de Caricatura de Vila Real, e à atribuição de prémios a desenhos de humor publicados na imprensa portuguesa?
(Neste inquérito faltam as intervenções de António (que foi o autor do cartaz) , por se encontrar fora do país, do Zinid, por se desconhecer a sua identidade, e a Adam, por impossibilidade do momento)
ANTÓNIO MAIA - O RISCO, A MANCHA, O RIGOR,
O GOZO
1) O cartoonista é um jornalista e um artista plástico. Jornalista como a crónica diária, ou a opinião com o estudo; artista plástico (não de «plástico» como muitos pensam), pois faz os seus artigos desenhando a vida real, a política, o sonho. O traço, o risco, a mancha, o rigor, o gozo. Artista plástico e jornalista. O cartoonista, eu, considero-me a simbiose. Sou jornalista, quando estou atento aos passos da rua; quando procuro tirar um certo surrealismo à vida obrigatória; quando, entro na eterna batalha Poder-Povo, entro nas trincheiras da frente, olhando um lado e outro; quando consigo transmitir, com a mesma força a profunda emoção e o grande escândalo. Sou artista plástico, porque transformo em imagem, em traços, em força, em real, em surreal a cor da vida.
Paciência: Somos Jornalistas.
Paciência: Somos Artistas Plásticos.
2) Geralmente encaro-o de frente. Geralmente sóbrio. Geralmente acordado. Geralmente..
Os jornais que o encarem também e sempre com a importância que o humor e o cartoon têm na sua imagem.
3) O Salão de Caricatura de Vila Real é uma iniciativa de máxima importância para nós, cartoonistas da Imprensa portuguesa. Representa a saída da pressão quotidiana e a possibilidade de toda a gente poder ver, analisar, criticar já fora do contexto e portanto sem a paixão do momento, as obras que os cartoonistas fazem. É um Salão digno, enorme no significado. Como o seu promotor: o enorme Osvaldo de Sousa.
AUGUSTO CID: LAMENTÁVEL A FALTA DE ESTATUTO
Pessoalmente, creio que nenhum cartoonista em Portugal se preocupa demasiado em saber sé é um jornalista, um artista plástico ou um simples desenhador de «bonecos». É provavelmente todas essas coisas ao mesmo tempo e muitas mais. O que é de lamentar é que essa importante forma artística de intervenção na Imprensa escrita, não possua um estatuto próprio, nem qualquer tipo de protecção. Os cartoonistas políticos, em Portugal, são ainda hoje considerados como marginais, uma espécie de mal menor a que os jornais se vêem obrigados a recorrer na tentativa de trazer alguma vida às páginas repletas de «linguados» cinzentos, a que nem já os títulos sensacionalistas conseguem chamar o interesse dos leitores.
A maior parte das pessoas desconhece o enorme trabalho de pesquisa por detrás de cada desenho e tem tendência para olhar apenas para o lado humorístico ou caricatural.
É na maioria das vezes subestimada a importância da crítica desenhada, mas a classe política sentiria um enorme alívio com o desaparecimento dos poucos cartoonistas existentes. Constituímos uma «espécie» em vias de extinção, e nenhum governo chorará o nosso passamento…
Aos potenciais artistas não são oferecidos quaisquer incentivos e as exposições, colóquios e debates sobre esta actividade estão, de uma forma geral, ausentes das iniciativas culturais.
Daí, talvez, a importância de que se revestiu o S Salão Nacional de Caricatura de Vila Real, que, funcionando como uma pedrada no charco, necessitará, no futuro, de outro tipo de apoios e interesse por parte dos órgãos de comunicação social e organismos oficiais, se quer de facto provocar algumas ondas nesse charco…
Mas no charco permanecerão os desenhadores portugueses ainda por longos anos (se resistirem até lá), fechados no seu orgulhoso individualismo, e na sua irredutível independência, características que marcam o verdadeiro catoonistas, mas que, simultaneamente, o conduzem ao isolamento em que ele hoje se encontra.
Para além de exposições e prémios que encorajem o aparecimento de novos talentos, era fundamental criar uma escola de desenho humorístico, à semelhança do que já existe em muitos outros países.
FRANCISCO ZAMBUJAL: MULTIPLICAR SALÕES COMO
O DE VILA REAL
Creio que todos nós começamos por ser – e no fundo nunca deixaremos de ser – desenhadores de bonecos. Se esses desenhos, por engenho e arte de cada um atingiram um nível que permitiu e justificou a sua publicação regular em jornais, então o desenhador terá, em maior ou menor grau, alguma coisa de artista plástico. Por outro lado, um bom «cartoon» ou uma boa caricatura podem, pelo seu sentido crítico, produzir maior impacto que muitos artigos escritos. Nessa função o cartoonista, ou o caricaturista são, sem dúvida, jornalistas.
Será por reconhecimento desta verdade que o jornalismo português actual vai dando um lugar cada vez mais destacado ao desenho humorístico. A maior parte dos principais jornais têm já o seu próprio cartoonista e aqueles que o não têm, destacam-se pela negativa, isto é, nota-se que falta ali «qualquer coisa»….
É neste contexto que iniciativas como a do Salão de Caricatura de Vila Real se revestem de uma dupla importância: por um lado, atestam e documentam o nível já hoje atingido pelo desenho humorístico na imprensa portuguesa, chamando para ele a atenção do público e contribuindo para a sua cada vez maior expansão; por outro, constituem um natural incentivo para os desenhadores, uma oportunidade de exporem os seus originais, tantas vezes com um valor artístico superior ao que a sua reprodução na imprensa pode deixar supor. Falta apenas que tais iniciativas se multipliquem e possam ser preparadas com os cuidados e os apoios que merecem.
Quanto à atribuição de prémios pecuniários aos trabalhos, não será o mais importante no que se refere ao desenho humorístico, mas é capaz de não ser mau para os desenhadores…
PEDRO PALMA: ABUSO DE «CARTOONS» É
PREJUDICIAL
1) Ao Cartoonista, enquanto cartoonista, não cabe isoladamente nenhuma das três definições. No entanto é simultaneamente todas elas. Para se fazer um bom trabalho de «cartoon», tem de haver uma visão jornalística dos factos, fazer uso de uma estética plástica e finalmente saber (minimamente) desenhar bonecos.
2) O desenho humorístico está cada vez mais a ser utilizado pelos jornais portugueses e isso é saudável para a imprensa. De qualquer modo, o abuso de «cartoons» pode prejudicar um jornar e mesmo o próprio cartoonista, podendo este correr o risco de se vulgarizar. Na imprensa portuguesa verifica-se encontrar «cartoons» do mesmo autor em diversos jornais, por vezes de tendências diferentes. Isso não é bom para os jornais, nem para o cartoonista.
3- Nenhuma presentemente. Talvez num futuro próximo, se a Imprensa e os autores cumprirem um papel quem lhes cabe: apoiar, divulgar e participar. A iniciativa, essa é louvável.
SAM: ARIDEZ DE PAISAGEM NO DESENHO DE HUMOR
1) Jornalista e artista plástico.
2) Como coisa natural, tratando-se de jornalismo português actual.
3) Desde há longos anos que em numerosas cidades e vilas deste planeta se realizam salões (internacionais) de humor desenhado. Em Portugal, o atraso também se manifesta neste domínio.. Na Jugoslávia, por exemplo, o grande número de participantes (adestrados na florescente indústria de filmes de animação) concorre para legitimar o conhecido Salão de Skopye. Em Gabrovo, na Bulgária, existe uma imponente Casa do Humor e da Sátira que apoia o respectivo Salão. Em Itália, temos uns seis ou mais salões anuais. No Japão, Canadá, México, Brasil, Alemanha, Bélgica, França, Cuna, também acontecem salões desta natureza.
Para tentar explicar a aridez da nossa paisagem no campo do desenho de humor (de imprensa, caricatura, etc) talvez convenha lembrar que, entre nós, as publicações de humor sempre tiveram uma existência efémera. De realçar, por isso, os jornais que teimam em manter vivo este tipo de voz – a desenhada – assim como todas as manifestações que promovam a divulgação desta meritória atitude.
VASCO DE CASTRO – NÃO É A ÉPOCA DE OURO DA
NOSSA CARICATURA
1) Tudo isso ou menos, e vice-versa. «Bonecos» também Picasso os fez, e a família não lhe caiu na lama. O desenho de humor e satírico é na sua origem histórica, e como o nome indica, arte plástica. Por definição comunga da estética. Cumulativamente é também jornalismo, porque integra regras do jornalismo. Seja, com o rabo assente em dias cadeiras, daí, aliás, uma das suas especialidades mais fascinantes.
2) Mal e bem. Mal, porque os autores, a todos os níveis profissionais e estéticos são ainda parolamente tomados por minoria cultural «aciganada» (pasme-se o Sindicato dos Jornalistas não os reconhece e a Lei da Imprensa ignora-os).
Bem, porque uma dúzia de autores (exagero) mantêm uma boa dose de vitaminação moral e física para insistirem. Não obstante condições profissionais precárias…
Mau, porque não será a época de ouro da nossa caricatura (com melhores brilhos noutros tempos), ainda a ajustar contas com algumas velhas heranças.
Bem, porque no adormecimento e retrocesso visível de qualidade da nossa imprensa, os desenhos não desmerecem e são aí porventura o sector menos acinzentado (franco-atiradores forçados dão o «litro»).
Mau, porque os jornais não lhes oferecem o mínimo de condições e são obrigados a procurar outras fontes de subsistência.
Bem, porque virão mudanças imprescindíveis, sob risco de sufocamento (futurologia esperançosa).
3) Importância?... Por mim e pelo que disse – Imensa! O que não coincide com os critérios de bastos jornais, distraídos como de costume. Enfim… Trata-se de uma data, e votos faço por as forças vivas de Vila Real aproveitarem a fundo a ideia. Quanto aos prémios, é o que menos conta, contingentes que são, e relativos por definição. Mas conviria reforçar-lhes o significado, inclusive nos seus montantes pecuniários.
JOSÉ DE LEMOS: TODAS AS ARTES SÃO
JORNALISMO
1) Pela obrigação de ter um sindicato, estou inscrito e considero-me como jornalista, só que para mim todas as artes são jornalismo, em vertentes diferentes.
2) o desenho deve ser uma crítica aos costumes, deve ter um fundo de moral, civismo, deve ter uma finalidade generosa ou castigadora, e por tudo isto é importante a sua presença no jornal, é uma componente essencial, e que creio estar com um certo relevo nos jornais actuais.
3) Acho bastante importante que existam esses salões. Quanto aos prémios são sou bem a favor, nem a desfavor, porque sem se querer pode-se cair em indelicadezas, ferirem-se susceptibilidades. As pessoas, desenhadores ou não, devem fazer as coisas com gosto e o melhor prémio é a aceitação pelo público do nosso trabalho.
Mas, se já havia prémios para todos os outros géneros jornalísticos, porque é que não haveria de haver também para a ilustração humorística?
PS: Consegui manter este Salão Nacional de Caricatura de Imprensa durante vinte anos. Em Vila Real só ficou um ano e tive de procurar novo parceiro em 1988. Passei para o município de Porto de Mós onde fiquei durante três anos (1988, 1989 e 1990), mudando-me finalmente para Oeiras, em 1991, onde consegui sobreviver até 2006. As mudanças verificaram-se por questões económicas, o mesmo acontecendo com o seu fim em Oeiras onde o autarca defendia que não deveria gastar mais dinheiro com o humor com Prémios Nacionais que deveriam ser outorgados pelo poder central. De todas as formas ainda foram vinte anos de dinamização, e divulgação desta arte
Caricaturas Crónicas – «Raphaelismo» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 29/9/1987
O
Raphaelismo, sendo uma escola, um estilo que vive desde os finais do século
XIX, como traço «barroco-decorativista», é também a designação de um período
específico da história da caricatura, que se pode demarcar entre 1880 e 1910.
Cada época tem a sua forma de encarar a vida, com seus
gostos, ideias, modas ou estilos. A arte, como componente integrante da
sociedade, porque reflexo do ideário estético, é sem dúvida um dos elementos
que melhor caracteriza o estilo de cada época, e assim se sucedem calmamente os
períodos ditos renascentista, maneirista, barroco, neoclássico… até que com a
revolução do século XIX tudo se precipitou, deixando o tempo de ser medido por
séculos, mas décadas, ou simplesmente por «modas».
Não há duvida que foi o desenvolvimento dos meios de
comunicação e da Imprensa que provocaram esta aceleração, democratizando e
divulgando as «novidades», quebrando estruturas que anteriormente estavam
restritas apenas a uma pequena elite. A reprodução joga então uma função
crucial no âmbito da cultura e das artes, já que veio destruir a sacralidade da
obra única, multiplicando as imagens da mesma obra, dando-as a conhecer a meio
mundo, embaratecendo a arte, criando seus sucedâneos, alterando a visão do
mundo.
Uma das formas de visão, das que existem, é a
humorística, a qual desde sempre acompanhou o homem na sua história, porém, com
o liberalismo e com o desenvolvimento da Imprensa, vai ganhar uma nova dinâmica
de intervenção social e política.
Em Portugal a Imprensa surge só quase no final da
primeira metade do século XIX, encontrando-se já o jornal satírico nos anos
40/50, em que o espírito humorístico é sufocado pelo ódio sarcástico e caustico
aos governantes, numa intervenção rude de ambas as partes, ou seja, periódicos
/ governo, o que obriga o anonimato dos caricaturistas.
A seguir, vem o «realismo», como intervenção estética
numa arte que apenas se servia da sátira e do retrato para atingir os seus fins
pinturescos. Entretanto, nos anos setenta surge Raphael Bordallo Pinheiro,
conciliando humor-ironia com a estética naturalista, numa fórmula de
intervenção social mais liberal, a opinião.
Raphael foi um grande artista na fórmula e no tempo
certo. Antes dele já tinha havido alguns razoáveis humoristas, como haverá
várias centenas depois dele, contudo faria a diferença, e inclusive a viragem
de forma de estar jornalisticamente nesta arte. Ele foi um dos mestres da
caricatura que se dedicou basicamente a este género artístico, desenvolvendo-o
até ao seu limite, tal como o farão outros mestres como Leal da Câmara, Celso
Hermínio, Francisco Valença, Stuart Carvalhais, Amarelhe, Teixeira Cabral… mas
nenhum deles conseguiu criar uma «escola» estilística. Os estilos, desde o
realismo, passando pelo pré-expressionismo, modernismo, expressionismo, síntese
abstracionista…. Sucederam-se, tanto na caricatura como nas demais disciplinas
de arte, mas o rafaelismo, nas artes de imprensa, sobrepôs-se a todos eles, mantendo
ainda hoje discípulos no naturalismo caricatural.
Christiano Cruz, nos anos 10 do séc. XX, queixava-se
já da fórmula satírico-política em que seus companheiros tinham caído,
acusando-os de meros imitadores de Raphael, não só no traço, como na abordagem
dos temas políticos. Acusava-os de imitarem as mesmas «imagens» humorísticas,
mesmas alegorias, metáforas… e os humoristas modernistas queriam ser
precisamente a ruptura, um movimento contra «ditadura» do rafaelismo, o
academismo da arte caricatural.
O Raphaelismo, sendo uma escola, um estilo que vive
desde os finais do século XIX, como traço «barroco-decorativista», é também a
designação de um período específico da história da caricatura, que se pode
demarcar entre 1880 e 1910. Nesse período houve Raphael Bordallo Pinheiro, os
raphaelistas mais ortodoxos ou simples influenciados. Houve o Sebastião
Sanhudo, o retrato caligráfico da vida portuense; Julião Machado, o
decorativismo “fin de siécle” na teatralidade lisboeta; Leal da Câmara, o
panfleto ácido antimonárquico em traço pré-expressionista; Celso Hermínio, a
modernidade prematura numa sociedade conservadora…
Nesse período, a caricatura e o humor gráfico eram a
arma activa da oposição, uma opinião interveniente da sociedade, uma arte viva
no quotidiano, e os periódicos, sobrevivendo ou não, eram vários em convivência
simultânea, havendo sempre várias publicações nas bancas, tal como o «Pae
Paulino», «Sorvete», «Charivari», «Micróbio», «Pontos», «Pontos e Virgulas», «O
Penacho», «A Corja», «O Alfacinha», «Ridículos», «Maria da Fonte», «Maria
Rita», «Cavaqueira Política», «A Algazarra» … onde sobreviviam artistas
medíocres de desenho infantil como o Augustos, João Cabral, Jacinto Navarro, N.
Santos, Mariares, Constantino, Gil, Bráz, E. Castro, Raul, Pires Guimarães,
Humberto Morais, Chico Lisboa… ou de um traço escolar, mas com maior domínio
gráfico como Joaquim Costa, Almeida e Silva, Santos Silva, Simões Júnior,
Nogueira, Sousa Nogueira… os quais, em obras «correctas», numa intervenção
directa no seu tempo, pouco mais deixaram para a história das artes, do que a
reprodução das suas obras dentro da escola rafaelista.
Wednesday, January 06, 2021
Caricaturas Crónicas: «António Soares, o mundanismo humorístico por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 20/9/1987
António Soares
é um daqueles artistas que, nascidos numa terra oitocentista em evolução lenta,
quiseram empurra-la para uma certa vanguarda, para o século XX.
«Atender as
necessidades espirituais do povo, comunicando com ele por intermédio de uma
arte que fosse a expressão sincera do seu modo de ver, é questão que não entrou
ainda no programa dos meus colegas, que até hoje têm feito arte que unicamente
delicia a vista, sem no entanto ter fim nenhum útil.
E como a
falta de observação deste princípio, conduz a uma desorientação que muito
prejudica e contraria as suas aspirações, desde que os nossos artistas não
sintam com grandeza, as coisas portuguesas e não façam sentir de uma maneira
superior o seu lado belo, cairão forçosamente numa assimilação servil, como
sobejamente o têm demonstrado.
Se os nossos
artistas cultivassem sem snobismo o amor das nossas coisas, acabariam por se
convencer de que nem só o estrangeiro tem carácter… Mas dirão agora os críticos:
o que têm então os senhores feito até hoje? Olhe: temos trabalhado para a
pasta, para os amigos, para a família e para V. Exª.
/…/ Não vejam
em nós intuitos reaccionários de contemporizar com o passado; temos de fazer
compreender a esses cavalheiros que Bordalo viveu no seu tempo e nós queremos
começar a marcar o nosso». (Entrevista
na «República» a 25/5/1914. Desta forma se manifestou um jovem artista, de nome
António Soares, quando dava os seus primeiros passos nas artes.
António Soares é um daqueles artistas que, nascidos
numa terra oitocentista em evolução lenta, quiseram empurra-la para uma certa
vanguarda, para o século XX. Só que, a vida obriga-los-ia a contemporizar com a
sociedade, e trabalhar para a «pasta» e para os amigos.
Natural de Lisboa, onde nasceu a 18 de Setembro de
1894, descobriu muito cedo os seus interesses artísticos. «Em verdes anos, por um acaso maravilhoso, veio-me para ás mãos o
“Tratado de Pintura” de Leonardo da Vinci, em latim que li e reli, com o
auxílio alheio, para o entender. Estava manifesto o segredo da minha vida».
Após esta descoberta vocacional, ingressou na Escola
de Belas-Artes, em busca de uma base de sustentação, só que nessa escola o
tempo estético tinha parado já há algum tempo, e em vez de paz só encontrou
desorientação e dúvidas. Era uma juventude obrigada a viver num tempo que não
era o seu.
«A minha
geração começou a ter consciência de si, no período que se sucedeu à
proclamação da República. Discutia-se e negava-se abundantemente. Como não
podia ficar eternamente na crise de crescimento, assentámos em superar a
anarquia em que fervíamos, decidindo-nos pelo passado ou pelo futuro.
Interrogámos o estrangeiro e, depois de algumas hesitações, eu e outros
rompemos a luta pelo nosso ideal». Essa
luta, seria a introdução de uma certa vanguarda estética, conhecida por
modernismo.
Essa pequena revolução entrou pela via humorística, e
desta forma encontramos toda a primeira geração modernista a dar os seus
primeiros passos «com graça». Só que essa, não era a sua verdadeira orientação
filosófica e passados os humores juvenis, procuraram abandonar esta linha de
irreverência crítica.
Porquê a via humorística? Primeiro, pela facilidade de
exploração de um trabalho num campo artístico bem aceite e admirado na nossa
sociedade, sendo ao mesmo tempo mais ou menos bem remunerado para o artista; em
segundo, porque era mais fácil atingir os conceitos ditos modernistas na
síntese da linha, do que na composição espacial e colorista da tela; terceiro,
porque correspondia directamente a uma irreverência própria à juventude que
despoletava o movimento.
António Soares era pois um humorista por circunstância
estética, explorando um expressionismo sentimentalista, conjugado como
mundanismo, o qual será o eixo de toda a sua obra. Companheiro de Christiano
Cruz e Almada Negreiros, expositor nos Salões dos Humoristas, onde apresentou
as suas primeiras obras em 1913, Soares nunca chegaria a libertar-se totalmente
das regras apreendidas na Escola de Belas-artes.
Nos finais dos anos 20, o humorismo deixava de ser
necessário como expressão e como sobrevivência jornalística, optando pela
ilustração, pela decoração e cenografia. Neste último campo desenvolveria um
vasto trabalho na maioria dos teatros da capital, e chegaria a trabalhar para o
cinema português.
Pintor do mundanismo e da sensualidade, prolongaria no
modernismo o sentimento decadentista, numa crise de evolução de um pintor em
busca de um modernismo fauvista, na recusa do internacionalismo a favor do
nacionalismo, na procura do «amor das nossas coisas» caindo no «snobismo»
pseudo cosmopolita. No fundo, nunca deixaria de ser um modernista em admiração
pelo oitocentismo: «Quais os seus
pintores predilectos? – Columbano, Malhoa, Carlos Reis e António Ramalho,
injustamente esquecido, Silva Porto e Pousão. Sinto que eles constituem o
valioso escol do génio pictural da raça».
Caricaturas Crónicas «A PARÓDIA POLÍTICA» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 2/8/1987
Os governos formam-se... caem. Os políticos elegem-se... substituem-se. A única que sempre persiste no tempo e no espaço é a Política, essa "Porca" que dá de mamar a todos, seja de que quadrante for, desde logo que o queira.
Mudam-se
os nomes, não se mudam os costumes («os
portugueses são essencialmente conservadores. (...) Se nós mudamos com
frequência de fato, nos recusamos obstinadamente o mudar de ideias» (R.B.P.
in a Paródia), e o Raphael Bordalo Pinheiro (com apoio de seu filho Manuel
Gustavo), o «historiador» caricatural da política oitocentista bem o sabia, o
que o levou quase como testamento, a visualizar a política em símbolos
animalescos.
Foi
na Paródia, quando a velhice o afastava de Lisboa, e o século procurava virar a
página. Surgiram então, espaçadamente, as várias caricaturas do poder político
como acto de governação. Anteriormente já tinha «consagrado» o Rei Fontes,
criado o albardeiro «Zé Povinho», definido o político da seguinte forma: «Todo o homem político do nosso país é
honrado, honesto, trabalhador, probo, virtuoso, etc. - antes de ser ministro.
Depois de ministro passa a ser pulha, malandro, biltre, canalha, ladrão,
assassino, incendiário. etc…». «E, entretanto, todos os honrados, honestos,
trabalhadores, probos, virtuosos, etc... não fazem senão diligenciar para
trepar, a ver se conseguem deitar a mão ao diploma de pulhas, malandros,
biltres...» (in Pontos nos ii, 8/3/1888).
O político
quando sobe ao poder altera-se, principalmente no conceito de barriga, o que
faz com que tudo o que ele toque se transforme em «albardas» para o Zé, ou em
alimento para o grande Zoo.
O
Jardim Zoológico de Raphael é, por conseguinte, constituído pelos seguintes
animalejos: - «A Grande Porca» (Paródia 17/1/1900), que tudo devora, para se
manter em forma e poder dar de mamar aos «barrigas» eleitos. Não se importa de
chafurdar nas imundícies, e gasta grande parte da vida a dormitar. As suas
tetas são um constante vazadoiro;
-
Para que ela tenha a gamela cheia, e em segurança, existe o «Grande Cão -
Finanças» (Paródia 24/1/1900), um eterno esfaimado pronto a abocanhar um bom
quinhão, um cão-de-fila protector dos deslizes porcinos;
-
Companheira do cão, fiel amigo, e esperança dos crédulos está a «Galinha Choca
- Economia» (Paródia 7/2/1900), boa poedeira, só que as ninhadas dela raramente
medram neste clima, excepto alguns seres enfezados e fracos, o que faz com que
o progresso não passe de um «Caranguejo» (Paródia 8/8/1900);
-
Ora, para que a desilusão não invada o país, e o zoo, criou-se o «Papagaio -
Retórica Parlamentar» (Paródia 16/ /5/1900), que nunca se cala, no
desenvolvimento verbal do já dito, no empolgamento do desejo de um dia fazer,
no exaltamento da ideia original que todos já tiveram, no emparceiramento com a
«Rata - Burocracia» (Paródia 22/8/1900), que tudo mina para a comodidade
latente dos «barrigas»;
-
Paralelamente, como entretenimento e consolo do Zé cria-se o «Cágado -
Beneficência» (Paródia 28/11/1900) e a «Burra - Instrução Pública» (Paródia
16/1/1901), para que ele se possa entreter com a ignorância;
- Não
sendo parte do Governo, mas elemento do Poder, existe a «Toupeira - Reacção»
(Paródia 24/4/1901), que rói as raízes às pretensões de verdadeiro progresso,
às germinações revolucionárias que querem alterar a passividade quotidiana dos
«barrigas» instalados, é a força que esburaca os caminhos do País e das
cidades.
É
este pois o resumo, em visão satírica, do longo conhecimento sobre a paródia
política que os Bordallos nos deixaram deste mundo cão.
«Uma Leitura – “Typos e Costumes de Lisboa” vistos por Calderon Dinis» por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de 20/7/1987)
«Passam-nos como num sonho, a multidão
irrequieta das ruas, os gritos do pregão, cheios de vibração e de alegria. Tudo
desaparece lentamente do bulício das ruas para nos dar, em substituição, o
ruidoso mas sombrio desfilar do pesado camião e do electrico». (Alberto
de Sousa)
A curiosidade pelos costumes vivos, ou moribundos
deste país pitoresco, provêm primeiro de alguns estrangeiros que por aqui
passaram, e registaram pela pena ou pincel tais visões. Pode-se então falar,
entre outros, do livro «Costume of Portugal» de Henry L’Eveque, da Colecção de
Costumes Servis da Cidade de Lisboa de M.J.D…. Depois dos próprios portugueses,
artistas como Manuel Maria Bordallo Pinheiro, Manuel de Macedo, Roque Gameiro…
publicando os seus testemunhos em periódicos como «Panorama», «Arquivo
Pitoresco», «Ocidente», «Ilustração Portuguesa»… Mas de todos foi Alberto de
Sousa quem mais se distinguiu neste mundo picto-etnográfico. Como sucessor
destes costumbristas, surge agora a obra de Calderon Dinis.
Calderon Dinis, lisboeta de gema (1902), jornalista de
profissão dedicada ao «Diário de Notícias», onde, a par da sua prosa,
desenvolveu a ilustração das suas crónicas e contos, em desenho e aguarela.
Dentro deste último campo realizou ao longo da sua vida várias exposições. O
livro que surge agora é uma continuação desse trabalho, realizado agora à
sombra do repouso feito reforma.
É um livro concebido ao jeito de crónica, deixando-nos
o testemunho de histórias e factos que sucederam na Lisboa deste século,
vividos por ele, e recriados com desenhos, aguarelas e fotografias. Se todo
esse percurso literário e ilustrativo tem interesse, é ao sabor da aguarela,
tal como já o fizeram os mestres Roque Gameiro e Alberto de Sousa, que se
manifesta a parte de maior relevo do livro: a recordação dos tipos de Lisboa.
Não se pode considerar o seu traço no âmbito genial
dos referidos mestres, nem tão-pouco de um Stuart… Tom… mas não deixa de ser
interessante, num reflexo da segunda geração modernista, pela força da cor no
desenvolvimento da linha. Em traço breve e conciso, dá-nos o retrato, pela
imagem e palavra, de seres-tipo, abstracções de seres em extinção, ou já
desaparecidos, que eram o povo de uma cidade característica pelo seu pitoresco
multisocial. Cada «boneco» é pois uma síntese conseguida dessas gentes. Além do
desenho e do texto, existe um elemento importante e especial que é o registo
musical dos pregões que acompanham cada imagem, os quais muitos deles estão
quase perdidos para o estudo musicológico.
Sem ser mais um testemunho etnográfico, é um novo
elemento de documentação desta cidade em «substituição», em crescimento para
novos tipos ou factos.
«Typos e Factos da Lisboa do meu tempo» Calderon
Dinis, Lx / 19865. Ed. Dom Quixote (7.000€)
Tuesday, January 05, 2021
Caricaturas Crónicas: «AS MULHERES DE STUART Carvalhais» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 6/9/1987
Pertencendo
a uma das duas partes da humanidade, a mulher nunca foi parte igual na
sociedade que constitui com o homem, seja como poder matriarcal, seja como
«sexo fraco». Fraca ou forte, «a mulher é uma equação que não sendo bem
resolvida pode dar uma regra de três» (in A Bomba de 1946), e como tal é uma
eterna obsessão do macho na sua sobrevivência.
Dos
humoristas portugueses, quem melhor apreciou a mulher foi sem duvida o Stuart
Carvalhais, numa visão machista, como é a nossa sociedade, mas sempre com
ternura, porque a olhou elegante e decorativa ao gosto do Barradas e do Soares,
a retratou típica e popular como o Manuel Macedo, a desenhou pobre e miserável
como grito da pobreza ou da sombra da noite, e a todas fez sensuais, esbeltas.
Dizia um cronista que, desde que o Stuart morreu, as varinas perderam as suas
pernas bonitas. Mas, «porque é que o Stuart desenha tão bem pernas? - Não vê a
menina que eu vivi muito tempo... em Pernes?!» (Stuart Carvalhais, in Sempre
Fixe de 20-4-1933).
Quem
fala em mulheres fala também no amor, esse bater de corações que reduz o homem
da sua posição de sexo forte, que o faz subjugar-se a elas. a rastejarem na sua
trilha: “Estes rapazes de agora” «- Não tem mesmo habilidade nenhuma! Já me
segue há duas horas, e ainda não me deu ocasião para chamar um polícia...»
(Stuart, in Sempre Fixe de 30-3-1933).
Após
a conquista seguia-se o namoro, que agora os costumes estão um tanto mudados -
«A tua nova namorada é bonita? - Não sei... Pinta-se de tal maneira que ainda
não lhe pude ver a cara.» (Stuart, in Sempre Fixe de 7-4-1938).
Ditas
sexo fraco, porque frágeis e sensíveis, de lágrima teatral fácil, são elas que
orientam o jogo da conquista, no querer ou não abrir as guardas da defesa, são
elas que fingem deixar-se levar, só que nesse jogo nem sempre conseguem ter o
«timing» devido de resistência, ou ter sorte ao amor, e então suspiram -
«Tantos malmequeres! Tantos hei-de procurar, que devo encontrar um que diga:
Bem me quer!» (Stuart, in Sempre Fixe de 12-5-1932).
Após
a conquista realizada, e dados os louros ao triunfador, que no caso de orgulho
dá-se ao macho, não é fácil à mulher conservar o seu homem, já que este é um
animal pouco fiel, e ela de novo suspira (o que é um trejeito muito seu) - «Se
ao menos ele enganasse as outras comigo!» (Stuart, in . Sempre Fixe de
3-9-1930), ou «Pudesse eu também meter numa gaiola o meu amor...» (Stuart, in
Sempre Fixe de 29-8-1929).
Chega-se
então ao casamento: «Mamã! Por que motivo os noivos se dão as mãos quando se
casam?» «- Pura cortesia! Também os jogadores de boxe apertam as mãos antes do
combate!» (Stuart, in Sempre Fixe de 13;2-1930). Inicia-se desta forma a grande
sequência de anedotas das sogras e demais guerras que não nos interessam para o
caso. Apenas o ciúme, esse velho companheiro do amor que faz enfurecer o homem
- «Não achas que as tuas saias estão muito curtas?» «- Não, filho, as saias
estão bem, as pernas é que são muito compridas» (Stuart, in Sempre Fixe de
26-5-1927).
Os
anos passam, e «os beijos aos 16 dão-se; aos 20 vendem-se, aos 40 compram-se»
(Stuart, in Sempre Fixe de 29-10-1930). A crueldade do tempo não perdoa -
«porque é que é pecado perguntar a idade às senhoras?» «Porque as obriga a
mentir.» (Stuart, in Sempre Fixe de 12-11-1936). Só que as mulheres do Stuart
são eternamente belas, mesmo as de vidas sofridas.
Também
das mulheres da noite, ninguém até hoje soube dar um retrato com tanto carinho
e amargura, porque as conhecia e amava, porque elas são a tábua perdida de
homens que naufragam na solidão do macho, porque «chamam-nos perdidas, mas é
connosco que se encontram.»
A
última das mulheres que o Stuart desenhou foi a ‘Flausina’ esse ser sintético,
perdido entre vazio mental dos homens e as formas sublimes da natureza, a
falsidade da vida que acasalava magnificamente com o ‘Baú-Bau’ dandy.
Caricaturas Crónicas: «A USURA DO SENSO OU A CENSURA» por Osvaldo Macedo de Sousa in Diário de Notícias de 13/7/1987
O uso
do senso nem sempre tem tido o consenso em nossas terras, seja porque somos um
povo de credo na boca seja porque uma rolha pende frequentemente sob as bocas
da expressão. A isso se chama a usura do senso, que se usou e abusou desde os
primórdios da nacionalidade, em religiosidade censória.
Desde
as investidas senhoriais, passando pelas inquirições e inquisições, até ao
absolutismo da tesoura, seja do barbeiro, do crítico ou do alfaiate, temos sido
um povo de cortes, em fino recorte de incompatibilidades, como o «mau génio da
censura, e o bom humor» (Francisco Valença, in Sempre Fixe, 7/7/1928) da
opinião.
Se o
espírito de inquisição dominou, ou ainda domina, certos políticos, dirigentes
ou candidatos, a Santa Inquisição foi contudo a nossa primeira castração, à
qual não ficaram estranhos os artifícios oitocentistas do «castratismo»
inaugurador do S. Carlos, na deformação de vozes dominantes e tónicas. Em nome
de santos poderes, porque estes são sempre santos para quem os tem na mão,
deformaram-se mentes, e muitas cabeças, de uma nação sem consenso maioritário,
mas com senso de ludibriação. Se hoje somos um povo de segundos sentidos,
intenções ou de desenrasca, devemo-lo ao tal espírito «bisbilhoteiro» de
mentes, que fizeram o nosso «renascimento» possível.
Quem
mente sempre alcança, dirá o analista político perante esse baile, onde
«poderemos andar a direito, para cumprir o regulamento do trânsito, ou continuaremos
a andar aos ziguezagues, para não nos espetarmos» (Francisco Valença, in Sempre
Fixe, 2/1/1936). Fugindo ao «baile mandado», a censura é um pezinho de dança,
em polca (Amarelhe, in Sempre Fixe, 12/8/1926) de artifício.
Essa
«nuvem que os ares escurece» (Francisco Valença, in Sempre Fixe, 7/2/1835) fez
eclipsar muitos iluminados, impôs-se como inquisição ou ditadura castradora,
que na caricatura ficou testemunhada como «Recordação Cabralista - primeira
censura» (Buffon, in Asmodeu, 1/5/1858), depois como «lei das rolhas» (Raphael
Bordallo Pinheiro in Pontos nos ii de 10/4/1890) dos anos 80/90, para no
fim/princípio do século se materializar no «Juiz Veiga», o maior pesadelo do
republicanismo e da liberdade: «Metendo em tudo a tesoura, não poupa ao corte
nenhum! Não deixa mexer a hidra, mas p'riga o senso comum.» (Nogueira, in Os
Pontos, 27/4/1902).
O
senso comum é o pior inimigo do governante, de consciência pesada, e a censura
a sua melhor arma, manejada à descarada, como na ditadura, ou sub-repticiamente.
Censura não é apenas a senhora que, pelo seu espírito de jejum quaresmal, faz a
«abstinência da carne, e devora linguados que é um gosto» (Francisco Valença,
in Sempre, Fixe, 15/7/1926), mas também a manipulação das notícias e opiniões,
é o esquecimento de factos e homens, é o tabu de ideias e histórias.
Ainda
hoje a religião, a ditadura, a guerra colonial, os implicados na revolução, a
corrupção política... se transformaram em tabus censórios, interpretando-se a
liberdade como tranquilidade de alguns.
Alguns
fizeram a ditadura em 26, chefiados pelo Gomes, que, na defesa das Costas,
instituíram o «exame prévio». A Censura é a «Dona do Carmo» interpretada por
Valença como «Nª Sr.ª do Carmo» (por estar instalada no Quartel do Carmo),
protectora das tesouras e lápis azuis: «Co'as garantias suspensas, já não se
entende ninguém. Toda a hora vem sentenças, fecha às dez e fecha às onze, fecha
à uma e fecha bem. Bem se vê que o general, comandava a aviação, pois julga que
isto, afinal, é só pôr tudo no ar, em completa suspensão». (Amarelhe, in Sempre
Fixe 15/7/1926)
Suspensos
por generais ou sacristães, por censuras ou inquisições, ideias ficam por
dizer, ficam políticas por criticar, mas uma coisa é certa, nunca se cala uma
imaginação: «Os leitores olham para aqui, para esta folha, em branco, imaginam
o que quiserem, e assim se satisfazem todos.» (Francisco Valença, in Sempre
Fixe, 14/3/1935).
Monday, January 04, 2021
Caricaturas Crónicas - «Tossan – um humor poeta» por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de 26/7/1987
«O que levo
da vida?
É a vida que
levo.
E é na vida
que levo
que levo a
vida.
Mas como a
vida
é tão breve
levarei da
vida
a tão pouca
vida
de uma vida
breve»
Tossan não é como a maior parte dos desenhadores
satíricos, que, em contraste com as suas obras de humor, levam uma vida de
angústia. Tossan é na vida, como na sua obra, um homem cheio de graça, humor -
«a vida é muito engraçada, mas eu levo-a
a sério, no que vale verdadeiramente a pena. O humor é a coisa mais séria deste
mundo, e é tão séria que até há pessoas que riem».
Ele provém daquele espírito irónico-popular em que por
detrás das palavras que se divertem entre rimas e jogos sonantes vem um ditado,
uma sentença, um saber cru, mas poético. A palavra é pois o seu meio
fundamental de expressão, mesmo quando só desenha.
Chama-se António Fernandes dos Santos (Tossan para as
artes e amigos), natural de Vila Real de Santo António, onde nasceu a 30 de
Maio de 1018, sendo «o filho que menos trabalho dfeu, bastava um lápis e um
papel» para o sossegar. Nascia então um artista plástico versátil e filho de
uma época, o modernismo, cujo grafismo sintético e linear nunca abandonou. Como
sobrevivência criativa foi caricaturista, ilustrador humorista, pintor,
desenhador, decorador, caracterizador, vitralista, gráfico… para além de poeta.
Ainda no Algarve, com 16 anos, estreia-se na
cenografia para o Teatro Lethes de Faro. Passa por Lisboa e tem que se radicar
em Coimbra, por questões de saúde - Tisica. Graças a ele, o seu companheiro de
poesia e ironia popular, o amigo e também algarvio António Aleixo, foi
internado no Sanatório para tuberculosos de Coimbra, dirigido pelo grande
médico e homem dr. Armando Gonçalves, mais tarde sogro de Tossan.
Por Coimbra ficou a maior parte da sua obra
caricatural, assim como da cenografia a cujo trabalho se entregou, de 1947 a
66, acompanhando todos os espectáculos do Teatro de Estudantes da Universidade
de Coimbra. A par de cenógrafo, era o caracterizador do grupo, com o qual
percorreu o mundo.
Seria fastidioso descrever os países onde esteve a
trabalhar, com o teatro ou com exposições; ou os retratos que realizou em
pintura; ou as empresas, para onde trabalhou como orientador de publicidade e
gráfico. Apenas a realçar a sua relação com a Embaixada do Brasil, para a qual
foi gráfico, decorador, e de 1971 1 73 esteve no Brasil a convite do Ministério
das Relações Exteriores do Brasil a montar as exposições de arte sacra, de arte
popular e do pintor Lula Cardoso Aires… Na imprensa tem dispersos muitos
trabalhos dos quais destaco o álbum «Cão Pendio» de (Portugália 1959) ou a
série «Lógica Zoológica» para «O Jornal» nos anos oitenta
Um longo percurso de trabalhos vários, para conseguir
a «massa» necessária ao dia-a-dia: «Se o
padeiro tem a mão na massa / é porque há massa para amassar o pão / mas se não
tem massa / não amassa a massa / nem tem massa para comer o pão. / O pão nosso
de cada dia / sem massa é uma utopia.»
É na busca de uma utopia irónica que as suas palavras
se transformam em poesia, assim como foi o seu humor às crianças que o levou a
estar entre os colaboradores-fundadores do «Diário de Lisboa Juvenil». Nessa
sua paixão pelo traço poético ilustrará mais de três dezenas de livros para
crianças do poeta Leonel Neves (com o qual costuma realizar sessões de poesia
nas escolas primárias um pouco por todo o país), de sidónio Muralha, José Lins
do Rego… E, como já referi, ele próprio escreve poesia e contos para crianças,
tendo neste momento um livro para publicar- «O
escritor escreve um livro de tantas páginas / A páginas tantas essas páginas
são editadas pelo editor. / Mas do livro não se vende uma página. / A páginas
tantas morre o escritor. / Esgota-se o livro. / E com a indigestão de tantas
páginas / a páginas tantas morre o leitor / e o editor, como já não tem páginas
/ morre às tantas.»
Bem vivo da costa continua o Tossan, director dos
Serviços Gráficos e Artísticos da Direcção-Geral de divulgação (no Palácio Foz
onde o visitei várias vezes), trabalhando com as crianças, escrevendo o humor
pela poesia e, se neste momento não publica caricaturas ou ilustração
humorística em jornais, isso não significa que esteja parado.
P.S.: Entretanto viria a falecer a 12 de Agosto de
1991
Caricaturas Crónicas: «OS SANTOS POPULARES» por Osvaldo Macedo de Sousa (in Diário de Notícias de 15/6/1987)
«Estalam bombas e foguetes / andam balões no ar, / E o Manuel e a Maria /
à «rasquinha»... sem jantar.» (in «A Bomba», 25{6/ /1946)
São tempos de folguedos, manjericos e amores, é o solstício no calor da esperança, como falsa ilusão do amadurecimento do ano, da vida.
O seu símbolo é a «cascata», a vida como reconstrução da realidade em bonecos rústicos, em bonecos de pés de barro, como o são os santos, políticos, que se instalam no topo, enquanto o eterno Zé, por tradição ou burrice, mantêm-se a seus pés, pedindo cinco tostões (de empréstimo) para o Santo... deficit.
De deficit não consta a Hagiologia, mas dos Santos Populares são três os festejados: um especialista em amores e milagres; outro que tanto pode aparecer como o «cordeiro sacrificado dos políticos», como as eleições, sem batatas; finalizando com o «primeiro-ministro», que abre as portas do «céu», apenas aos seus amigos.
O dos amores é o Santo Antónia: «Gosto muito de cravos / por serem lindas flores / vejam todos como é lindo / este que cheira a amores.»
«Desculpa ser este cravo / tão mesquinho em valor / se ele é de papel de seda / é de veludo o meu amor»
«São como as luzes da Avenida / os teus olhos Luísa amada / quem teima em os fitar / depois não vê mais nada.» (Julião Machado, in «Comédia Portuguesa», 15/6/1889).
Falsos cravos de seda ou papel, em manjericos aperaltados, que entram na igreja solteiros, e sai em de lá casados. Santo casamenteiro, ele é de Lisboa, mas disputado por outras nações, porque de milagres todos são necessitados: é um santo que fala aos peixes (óptimo mercado de votos); não deixa que se apartam as bilhas (do orçamento); e é popular - três características ambicionadas por todos os políticos.
A «cascata» é o retrato da vida, íngreme encosta que temos de subir, e em que os saltos sobre as fogueiras (do selo, profissionais, complementar, predial...) são o «eterno S. João do Zé-povinho» (J. M. Pinto, in «A Algazarra», 26/6/1899).
Saltar a fogueira é a tradição Joanina: «Na noite de S. João / Ao querer saltar a fogueira / Apanhei um encontrão / E roubaram-me a carteira.» (in «A Bomba", 25/8/1946)
Uma tradição com porros e alcachofras, e muitos percalços, porque se uns são mais ligeiros e afoitos de dedos, outras são mais pesados, de consciência: «O Governo, para festejar o seu S. João, acendeu a fogueira das economias (acumulações, interesses pessoais, gratificações...). E enquanto um dos festeiros salta por cima das terríveis e ferozes labaredas (das indignações e imprecações), os outros transidos de medo, esperam que o fogo abrande, para ver se podem saltar, sem chamuscar os fundilhos...» (Manuel Gustavo B.P., in «Ant. Maria» 27/6/1891).
«À porta do céu colocado, tem ele o direito de dar entrada, ou negá-la, a todos os que pretendem um lugar no céu. E enquanto dá a mão a um «crente», repele um «protestante», dando-lhe com as chaves no toutiço. Donde se prova que, embora seja S. Pedro, não é careca. Não, senhores, tem muito cabelinho... na venta!» (M. Pinto, in «Charivari», 29/6/1895).
S. Pedra, o santo das chaves, é que fecha as festas, mas seja a 13, 24 ou 29, são tudo noites para esquecer as mágoas, e cantar as marchas: «Ó meu S. (António, Pedro) João Baptista / Protegei esta cidade / Dai cabo dos Jesuítas, / Das manas da caridade.»
«CORO: Orvalhadas, orvalhadas, orvalheiras / Viva o rancho das moças solteiras.»
«Ó meu Santo / Atendei nossos desejos / Livrai-nos do peixe-espada, / Dai cabo dos percevejos.»
«CORO: Orvalhadas, orvaIheiras, orvalhadas / Viva o rancho das mulheres casadas.» (Nogueira, in «Os Pontos», 23/6/1901).
Sunday, January 03, 2021
CARICATURAS CRÓNICAS - 40 anos de demanda pelo humor gráfico de Osvaldo Macedo de Sousa
Viver a vida como um sorriso é uma utopia, mas infelizmente é a única saída para a nossa sobrevivência mental neste mundo de loucuras.
A vida, segundo os dramaturgos do poder (político ou religioso), é apresentada como uma Comédia que deve ser encarada como uma Tragédia, cenógrafa em tons cinzas e violetas. Mas, a natureza ensinou-nos que este pequeno melodrama não passa de uma tragédia que deve ser vivida como uma Comédia.
E de tragicomédia em tragicomédia eles diabolizam-nos a alma, instigando-nos a viver na dor, no medo. É esta sombra eterna e macabra que nos transforma em seres “sérios”, tristes, engravatados, pessimistas, advogados, niilistas, economistas… ateus e descrentes do Humor.
A sacralidade do Humor tem sido ao longo dos séculos aviltada por iconoclastas (políticos e religiosos), que em renitentes heresias insistem que Deus não Ri. A religiosidade é crença, mas acima de tudo sapiência, compreensão… e não há forma mais inteligente de se compreender o mundo que pelo seu lado humorístico. Descarnar a hipocrisia, a falsidade, a demagogia é função dos caricaturistas que devem combater o anedotário brejeiro que é a política humana.
Nestes momentos em que em nome de fundamentalismos anti-religiosos, ditos muçulmanos, cristãos, judaicos ou políticos, o direito ao Humor é posto em causa, somos obrigados a reflectir sobre o papel desta arte na sociedade contemporânea.
Sem dúvida que há falsos missionários, falsos ministros da religião, mas os verdadeiros crentes do humor, o papel dos verdadeiros caricaturistas / cartoonistas é a do “grilo falante”, a consciência pertinente e incomoda do nosso dia a dia. É certo que os adultos já não acreditam em fábulas disneyanas, em “grilos falantes”, mas que há milhares de Pinóquios, há.
Os humoristas não são os detentores da verdade pura, apenas um raio X em espelho dessa verdade. Os humoristas não são detentores do segredo da vida, apenas investigadores nunca satisfeitos. Mas os cientistas garantem que o segredo da vida é apenas uma espiral. A essa helicoidal da vida dá-se-lhe o nome de ADN, abreviatura de Antes – Depois – Nada, já que a essência do Homem é viver na saudade do antes, sonhar sem ousar no depois, vivendo no pessimismo do nada quotidiano.
A espiral do ADN é igual à espiral do tempo que faz evoluir a vida numa circulação ascendente do nascimento à morte (excepto dos que vão para o inferno que segundo as ultimas investigações não é no céu mas aqui na terra), numa constante repetição de nadas que monotonamente nos dão a tranquilidade de uma vida triste sem sobressaltos.
Olhando com olhos subjectivos de historiador, verificamos que os erros do passado se repetem eternamente, e o papel dos caricaturistas não passam repetitivas mnemónicas que nos fazem rir do dia a dia, mas que não rectificam o ADN dos governantes.
Em 2021
comemoro quarenta anos de produções no âmbito do Humor, já que a primeira
exposição realizei-a em Setembro de 1981,
São uma selecção, dos mais de centena e meia de textos sobre caricatura que escrevi para o Diário de Notícias entre 1884 e 1991, escritos esses que acompanharam o meu desenvolvimento na investigação sobre esta arte. São Crónicas dominicais que se debruçavam tanto em dados biográficos, como temáticos, numa perspectiva de que os males são crónicos, e que por vezes basta mudar apenas os fácies dos governantes para esses desenhos oitocentistas manterem a actualidade nas suas críticas. É do grupo de crónicas temáticas que se baseia esta recuperação de textos, porque considero que sendo Caricaturas Crónicas, infelizmente mantêm a actualidade, seja em que ponto da espiral esteja.
Gostaria de ter a arte de sorrir e fazer sorrir, mas não passo de um investigador trombudo, pessimista que ao mergulhar neste mundo amargo da crítica política, fui ficando cada vez mais niilista, rabugento, refilão. Só espero que esta deformação profissional não se torne crónica, e que consiga por em prático o que costumo pregar em relação ao sorriso. Sei que os textos se repetem, como é monótona e repetição das críticas que batem sempre nos mesmos (sejam eles diferentes de nomes), e custa-me deixar uma mensagem tão amarga, mas se olharmos esta tragédia como uma comédia talvez consigamos recuperar o sol do sorriso.
Por estes quarenta anos de trabalho tenho de pedir desculpa aos caricaturistas por ter entrado no seu espaço de criatividade, por ter sentenciado sobre artes que não sei criar, por ter desvendado as suas vidas artísticas. Quero agradecer-lhes a sua arte de estéticas sempre renovadas, a sua generosidade social, as suas visões humorísticas, e acima de tudo a sua amizade.
Certamente serei injusto ao referir nomes, porque é impossível mencionar todos aqueles que me apoiaram, incentivaram, me abriram portas… porque se uns foram importantes apenas num dado momento, tem sempre repercussão no futuro. Uns foram companheiros de loucas aventuras, outros complacentes de irreverências. Uns mantiveram uma amizade constante, outros infelizmente pequenos nadas nos afastaram, e se perderam infelizmente belas amizades. Dizem que é assim a vida.
Pessoas que são responsáveis por grande parte desta minha louca travessia de um quarto de século com o humor gráfico são: Elísio Amaral Neves, António Pires Cabral, Mário Mesquita, António Inverno, António, António Valdemar, Maria de Assis, Fernando Santos, António Gomes de Almeida, Cid, Zé Oliveira, Eduardo, Orlando, Benito Losada, Juan Garcia, Gogue, Omar, Nelson Dona, Cristina Gouveia, Eugénio Montoito, Elvio Melim de Sousa, Elisabete Brito, João Mário Mascarenhas, Luís Humberto Marcos, Luís Filipe, Emílio Ricon Peres, Carlos Rico, Bandeira, Rui, Luís, Zé Manel, Maia, Metello, Zíngaro, Varella, Ferreira, Paulo, Artur, Ricardo, Laranjeira, Per, Santiagu… e tantos mais.
Muito obrigado a todas as autarquias que me apoiaram, principalmente Vila Real onde nasci para esta actividade com a primeira exposição em 1981, com a edição do meu primeiro livro em 1983, com o meu primeiro Salão em 1987, com a criação em 1997 do Salão Luso-Galaico de Caricatura e onde mantenho grandes laços de amizade e humor. Depois há todas as outras como Oeiras, Lousã, Moura, Penela, Espinho, Amadora, Idanha-a-Nova, Sintra, Lisboa, Porto, Amarante, Viseu, Porto de Mós, Seixal, Almada, Faro, Reguengos de Monsaraz, Lamego, Régua, Coimbra, Leiria… Ourense, Alcalá de Henares, Lleida…

