O que Ć© um que um desenho “faz”? Pelas razƵes da sua materialidade, capacidade de concentração de significados, eficĆ”cia e velocidade, um desenho leva a respostas afectivas muito vincadas. Um cartoon polĆtico ou editorial – palavras que merecem rigor na sua compreensĆ£o e uso – tira partido tanto de instrumentos de sĆmbolos localizados e culturalmente determinados como de estratĆ©gias um pouco mais universalistas: mas onde estĆ” o seu sentido de equilĆbrio? Existe uma espĆ©cie de consenso (podre, como todos os consensos) de uma certa “linha de decoro” no discurso pĆŗblico, e o cartoon faz parte dessa esfera, mas nĆ£o Ć© a sĆ”tira uma ferramenta de hipĆ©rbole (visual e conceptual) que deve rasgar essa linha para conseguir electrificar e despertar o leitor de uma situação normalizada?
As imagens foram sempre empregues,
ao longo de toda a história humana, como instrumentos de propaganda, expansão
dos poderes, inscrição própria e acusação do outro, demonização dos diferentes
ou descoberta de comunidades. Mais recentemente, elas passaram a ser
instrumentos de democratização e revolução: qual a responsabilidade do
cartoonista perante essas possibilidades?
Existem actos criativos nĆ£o-polĆticos
(ou actos nĆ£o-polĆticos?)? HĆ” alguma diferenƧa nos meios (desenho, animação,
sequĆŖncia), veĆculos (jornal, televisĆ£o, revista literĆ”ria, mural, web,
instagram) ou mesmo tipologia (caricatura, retrato social, charge, comentƔrio
visual)? Existem outras possibilidades de participação social do cartoon? O
mundo digital multiplica (empoderamento, democratização dos meios) ou delimita
(“shadowbanning”, “enshittification”) as vozes? Treina apenas uma resposta
efĆ©mera e algorĆtmica de clickactivismo ou atĆ© esteticiza tĆ£o-somente o
sofrimento polĆtico ou hĆ” algum impacto efectivo?

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